Há muitos e muitos anos atrás passou pelo sertão um sábio e seu aprendiz. Caminhavam para observar a reação das pessoas. Por serem viajantes, não guardavam bens; queriam enriquecer a alma. Pediam um pedaço de pão e guarida para pessoas de todas as classes sociais. Ficavam alojados em estábulos e em apartamentos dependendo da bondade alheia. Diziam naquele tempo que Deus mandava essas pessoas para testar a bondade de cada um.
E assim os dois viajantes caminhavam sem rumo até que no meio do nada, em pleno sertão encontraram uma casinha. Um senhor muito magro veio os receber.
– Sejam bem vindos a minha casa – falou o senhor.
Eles agradeceram e entraram. A casa tinha poucos cômodos e muitas crianças, em torno de 10. Eles, que viajavam sem dinheiro nem água, acharam incrível se viver com tantas crianças em tamanha miséria. O sábio perguntou: “Como vocês conseguem água e comida para alimentar essas crianças?”. O homem começou a falar
– Aqui a gente vive do que planta. Este ano deu pouca colheita mas conseguimos juntar um pouco de água da chuva e os milhos que plantamos dá para a gente viver até a próxima colheita, temos essa vaquinha magra que dá leite pros meninos e com esse leite nós fazemos a papa dos pequenos e o cuscuz dos grandinhos. Vivemos um dia de cada vez, esperando sempre que nossa vaquinha cada dia dê mais leite.
O sábio ficou calado, aceitou a janta que lhe foi oferecida, contou histórias para as crianças, cantou e dançou com alegria pois percebeu o quanto de bondade aquele casal exalava.
No dia seguinte, depois de um copo de chá, partiram agradecendo ao casal pela belíssima estadia. Começaram a caminhada e, um pouco a frente, a vaquinha estava a pastar, muito próximo a um despenhadeiro. O sábio falou: – Empurre a vaquinha!
– Mas senhor, eles foram tão bons conosco. Não terei coragem de fazer isso.
O sábio novamente falou: – empurrar a vaquinha para que ela caia no despenhadeiro.
O rapaz já preocupado falou: – não senhor, não tenho coragem.
O sábio: – Empurre essa vaquinha vai ser para o bem deles.
O ajudante, então, não respondeu mais. Foi até o penhasco e tangeu a vaca. A coitada se assustou e correu em direção ao despenhadeiro, caindo no penhasco. Queda fatal. O rapaz ficou triste e disse: – nunca mais quero passar por aqui.
E os dois se foram.
15 anos se passaram e os dois continuavam a caminhar. Agora, com o peso da idade, bem mais lentamente. Passaram agora por uma linda fazenda em pleno sertão. Era tudo verdinho e tinham vários homens montados em cavalos de raça.
O sábio chamou um dos cavaleiros e perguntou onde estava o dono da fazenda. O rapaz no cavalo falou: – Vamos à sede da fazenda, ele está lá.
Subiram em uma carroça e foram levados à sede. Uma linda casa branca de alpendre, de onde saiu um senhor gordo e corado falando: – Sejam bem-vindos. – Era o mesmo homem de antes, só que a fazenda era outra. Tudo verde, pastos a perder de vista, Gado gordo, Cavalos e muitos empregados.
O sábio perguntou como vai amigo, como se passaram esses anos e sua esposa como está?
O homem falou: – Está bem, foi avisar aos empregados para fazer a melhor comida. Vocês jantam conosco hoje né?
O sábio falou: – Sim jantaremos, mas antes nos conte como fez pra mudar de vida.
E o homem respondeu:
– Nem me fale daqueles tempos difíceis. Os meninos passaram fome até o dia que encontramos a vaquinha morta. Comemos a carne e levamos os meninos para a cidade. Deixamos na casa de parentes e começamos a trabalhar. Depois começou o tempo de chuva e trouxemos os mais velhos para cuidar das poucas criações que conseguimos comprar com o dinheiro do nosso trabalho: galinhas, porcos e carneiros.
– Os meninos já crescidos nos ajudavam na roça e plantaram árvores frutíferas. As meninas ficaram trabalhando em casa de familiares até casarem e vir morar conosco na fazenda. O dinheiro que mandavam pra gente, a gente reinvestia e conseguimos comprar umas cabeças de gado.
– Hoje temos muita terra, muito gado e muita fartura. Continuamos unidos nas adversidades. Mas se aquela vaquinha não tivesse morrido, minha família toda teria morrido aqui e eu sem coragem de mudar de rumo.
O sábio olhou pro seu aprendiz e não precisou falar nada.
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