quarta-feira, 27 de julho de 2022

A elegante Cida Andrade


Naquele dia fui enfim encaminhada a sala de parto na Maternidade Escola Januário cicco. Subi dois lances de escada, vi uma placa que indicava UPH (Unidade de Parto Humanizado) à direita e, ao entrar, vi três técnicos e uma enfermeira que se posicionou logo em frente a mim dizendo: – Essa é a nova técnica de enfermagem do setor, hoje vamos ter cinco técnicos, coisa rara por aqui.

Eu fui recebida pelo três técnicos que ali estavam e foram me apresentando ao serviço. Como já trabalhava na sala de parto de outro hospital, informei que só precisava pegar a rotina do setor, pois tinha conhecimento dos protocolos.

Quando estava concentrada olhando a temperatura da geladeira, chegou ela. O quarto elemento. A quinta técnica que fechava nosso grupo era uma senhora de seus 65 anos. Lembro que pensei: – Essa idosa trabalha aqui?

Bem, rotina de sala de parto não é pra qualquer um. Fiquei quieta e só a cumprimentei. Ela elegantemente me falou seu nome. Aparecida Andrade. Eu me apresentei e falei que trabalhava na maternidade das quintas ela só falou: – Então estamos com 5 técnicos. Tudo pau de dar em doido. – E começou a sorrir.

Eu achei engraçado a forma cômica que ela falou. Depois disse: – Tem café? Eu trouxe uns biscoitinhos de casa. – E saiu. Nesse momento parei para observá-la. Era uma senhora branca com cabelos curto muito alinhado, pintado de loiro, o que ornava muito bem com suas joias de ouro e seus óculos dourado. Era uma figura elegante com uma sapatilha dourada nos pés, perfume francês que sempre chegava antes dela nos lugares, com seu sorriso fácil e seus pijamas de enfermagem sempre impecavelmente passados a ferro. Era uma pessoa especial que ganhou fácil minha amizade.

Tivemos alguns partos à tarde, aproveitamos para organizar o setor, depois fomos tomar café. Ela sentou-se num sofá que tinha na copa pegou um copo de café e uns biscoitos e começou a contar coisas dos tempos em que a maternidade ainda era gerenciada por freiras. Sim ela era desse tempo. Tinha mais de 35 anos de serviço. Eu entusiasmada perguntei: – Dona Aparecida porque a senhora não se aposentou ainda? – Ela secamente me respondeu: – Senhora está no céu, aqui todos me chamam de Cida, não penso em me aposentar nem tão cedo. Percebi que ela não tinha gostado que me referisse a ela como idosa. A partir de agora eu a chamaria de Cida apenas.

Cida era uma pessoa única, gostava de conversar. Quando falava das suas poucas aventuras amorosas contava num tom da comédia que fazia a gente rir sem parar. Ela dizia: – Graças a Deus esse tempo passou não sinto mais vontade de ter um homem, minha vida é trabalhar e cuidar das minhas filhas. – Eu perguntei: – E o seu filho? – Ela nesse momento mudou as feições, ficou séria um pouco triste e desandou a falar.

– Eu entrei aqui pra trabalhar de atendente de enfermagem e meu marido não queria, dizia que esse negócio de enfermeira é desculpa para mulher safada passar a noite fora de casa. Eu continuei vindo trabalhar, só de dia pois ele disse que não aceitava eu trabalhar a noite, tudo bem, até que um dia não tinha ninguém pra ficar no plantão noturno a maternidade cheia as freiras pediram pra eu dobrar eu expliquei que não dava. Não teve jeito dobrei.

– No dia seguinte cheguei em casa cansada do plantão de 24 horas, meu marido disse que eu não iria mais trabalhar. Tinha acabado a palhaçada. Eu na hora não falei nada fui pro quarto dormir. Acordei fiz comida para as crianças e fui arrumar minha bolsa para ir trabalhar no dia seguinte. Quando ele viu eu arrumar a bolsa disse se você for trabalhar eu vou embora.

Respirou um pouco e continuou.

– Eu nem liguei. Acordei no outro dia botei as meninas pra escola e o menino pra casa da minha mãe e fui embora trabalhar. Quando voltei pra casa ele tinha ido embora. Foi assim. Sem briga sem conversa ele só foi... Como minha mãe era muito apegada ao meu filho pequeno eu deixei ele lá e as meninas eu levava pro colégio e quando voltava do trabalho passava por lá pegava elas e tudo foi se ajeitando. O tempo passou e meu filho se acostumou a chamar minha mãe de mãe e não de vó como antes. Hoje ele não me considera mais mãe dele. Diz que eu dei ele pra minha mãe.

Parou, limpou as lágrimas e disse: – Ele não sabe o quanto eu o amo e quanto foi difícil deixar ele com ela, mas foi o melhor pra ele naquele momento. Se eu pudesse voltar o passado eu ficaria com todos.

Depois mudou de assunto. Começamos a falar besteira de novo e dos malassombros da maternidade. Ela adorava contar causos. Ela, mesmo sendo idosa, facilmente aprendeu a utilização do sistema de Internet que estava sendo implantado no setor; com toda a facilidade do mundo aprendeu a mecher no programa, transferir pacientes no sistema, adorava fazer uma DNV (Declaração de Nascido Vivo), mas chegou o dia que ela teve que sair do setor.

Por sua idade e as dificuldades de saúde ficou inviável para ela continuar num setor tão pesado e que exige um pouco de força e rapidez dos técnicos em situações de urgência, Foi pro setor de mamografia. Vi todo aquele brilho que ela tinha se apagar. Sempre que me via dizia que o sonho dela era voltar a sala de parto. Não voltou. Aos poucos foi adoecendo, envelhecendo mais e mais, até que um dia fomos surpreendidos com a notícia de sua morte.

Aos 73 anos, Cida Andrade se foi, deixando uma legião de amigos e uma linda história de amor: a enfermagem.

Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges


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