Das coisas de infância, uma das que melhor lembro eram as épocas de rede. Sim de rede.
Mamãe era artesã e fazia parte de um programa de apoio
aos artesãos ela recebia o material e fazia a rede toda
artesanalmente.
Um dia fui com ela pegar o material. Era uma
loja bonita no centro da cidade com uma placa grande escrita "PAPA
JERIMUM artesanatos potiguares" entramos pelos fundos... Uma
mulher bem-vestida nos atendeu. Mamãe e ela foram conversar e eu me
distanciei um pouco e adentrei a loja, vou descrever um pouquinho da
sensação de estar dentro por dentro dela...
O ar-condicionado era geladinho e os artesanatos Eram expostos de forma sutil em cima de mesas e decoração nas paredes; eram expostas bonecas com rosto de porcelana e tecidos de alto padrão como seda e linho; existiam flores lindas feitas de vários materiais desde palha de milho a meias de seda. Tudo lindo e harmonicamente organizado em prateleiras e um quarto em que podiam se ver várias redes em exposição eu nunca tinha percebido como podia ser lindo uma rede pendurada, Cada varanda era uma obra de arte, fiquei ali mesmo sentindo aquele cheiro de cordão novo naquele frio do ar-condicionado quase que em transe.
Mamãe voltou com uma sacola grande e me chamou –Vamos para casa. Fomos. Eu, curiosa para saber o que tinha na sacola. Chegamos em casa, ela abriu a sacola. Eram alguns novelos de linha e um tecido grande desses de rede de dormir. Ela colocou tudo num canto da sala e foi organizar o almoço. Dias se passaram ela estendia os cordões na sala, ia com um tear batendo de cordão em cordão até formar os punhos da rede, depois vinha colocando cordão por cordão para trançar as varandas que eram feitas com um ponto chamado macramê.
Ela ia fazendo
pontinho por pontinho até terminar um lado aí começava o outro com
cuidado para ficar os dois lados com pontos iguais. Ao terminar todo
aquele trabalho, tinham se passado semanas até meses. A rede estava
pronta. Não era só barbante e tecido agora tinha tomado forma.
Fomos deixar a rede de novo na loja na cidade. A mulher
elegante pegou a rede nas mãos foi avaliando ponto por ponto e viu
que estavam perfeitos. Pegou algum dinheiro e entregou a mamãe que
perguntou se tinha mais material para trabalhar. A mulher pediu pra
ela voltar na semana seguinte. Saímos e percebi a mulher expondo a
rede em um lugar de destaque na loja. Percebi o quanto mamãe ficou
orgulhosa com esse gesto os olhos dela brilhavam.
Voltamos para casa de ônibus. Eu numa cadeira de frente a dela fiquei observando ela olhar a praia pela janela em silêncio. Olhou pra mim e deu um sorriso orgulhoso de canto de boca.
Sim ela estava feliz.
