E eu estava lá. Do lado da porta. Como sempre, sentada, só
observando minha mãe lavando roupa. Era uma manhã quente de sábado.
Segundo ela, o dia perfeito para lavar roupas.
Eu sinceramente
gostava de ficar ali, ouvindo aquele sonzinho dela batendo a roupa.
Fazia tcha, tcha, tcha, bum, tcha. E aí vinha a hora de espremer que
quase não fazia barulho nenhum.
Nessa casa tinha água
encanada, mas ainda não tinha lavanderia. Era feito apenas de uma
espécie de mesa com um pequeno declive, por onde a água
escorria.
Ela era habilidosa lavando roupa. Eram seis filhos,
então ela lavava um pouco todos os dias; mas, no sábado, era dia do
show. Jogava um monte de roupa nessa mesinha e uma bacia de alumínio
brilhosa que ela tinha comprado com o prestonista (prestamista).
Nesse dia eu me concentrei nas mãos dela e na velocidade que ela esfregava as roupas. Ela ia de paninho em paninho, passando um no outro, com sabão em barra bem cheiroso. Depois colocava tudo num balde com sabão em pó desmanchado, que se tornava um líquido azul com um cheiro de flores. As fardas da escola eram colocadas em outro balde com sabão em pó e ANIL (que era uma pedrinha azulada). Depois ela ia enxaguando tudo e os filhos mais velhos iam estendendo as roupas. Quando o trabalho tinha terminado, hora do banho de mangueira. Pouco depois íamos pra dentro de casa, tomávamos outro banho de chuveiro com sabonete e shampoo. Aí, era botar a roupa, almoçar e dar o cochilo da tarde.
Eu lembro exatamente como era as mãos da minha mãe: Quando jovem seus dedos eram longos, roliços, com unhas perfeitas; mesmo com a lida do dia a dia, ela sempre pintava e deixava arredondadas. Eram lindas. Ela fumava e isso lhe trazia um charme a mais. Na época, era moda fumar. Ela pegava o isqueiro e botava fogo na ponta do cigarro, puxava o ar e... surgia aquele cheiro de cigarro recém-aceso (sim eu era fumante passiva na infância). Parecia um ritual. Ela fumava com os dedos retos parecendo uma atriz da TV.
Depois o tempo passou e percebi suas mãos envelhecidas, pele seca, com sulcos profundos, manchas de sol. Talvez dos anos lavando roupas no quintal. Talvez pelo uso prolongado do cigarro. Hoje, aqui no hospital, observo suas mãozinhas inchadas, com várias manchas dos acessos venosos que não deram certo, com aqueles dedos lindos que, mesmo com o passar dos anos, não mudou, e olhando com um pouquinho de cuidado percebo que suas mãozinhas são iguais as minhas.
Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges
