quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Os amendoins de vovó

 



Eu estava num ônibus indo para o interior com minha avó. Ela tinha a mania de chupar confeitos de hortelã que eu detestava, só tinha gosto de pasta de dente com açúcar. Minha mãe tinha deixado ela me levar pro interior passar o recesso escolar de junho, mês de chuva por essas bandas. O ônibus era um pinga-pinga. Parava em quase todas as cidades. Paramos na cidade de Macaíba, um senhor se aproximou oferecendo beiju e amendoim torrado. Também tinha uns pacotinhos de papel com amendoins crus. Minha vó, que já havia comprado o amendoim torrado perguntou:

- Esse amendoim cru serve para plantar?
O homem disse:

- É justamente para isso que eu vendo.

A minha vó perguntou quanto era e pegou umas moedas deu ao homem e pegou o saquinho com amendoim que estavam na casca ainda. Me mostrou.

- olha como é lindo!
Eu olhei o amendoim na casca. Era bonito. Parecia um brinquedo, um bonequinho marrom. Perguntei:

- A senhora me dá um?

Ela:

- Não presta pra comer assim. Tá cru. Quando chegar em casa vou assar uns para seu avô e vou plantar outros. Ano que vem vamos ter muitas vargens de amendoim.

Na verdade eu queria um para brincar mas como eu ia explicar isso a vovó, que já tinha passado tanta fome e que levava comida tão a sério?
Meus pais sempre contavam das dificuldades da infância e que estando na casa dos avós do interior não deveríamos brincar com comida nem se negar a comer qualquer comida oferecida. Fiquei esperando chegar na casa dela para ver como ela ia fazer para descascar os amendoins.

Chegamos. Joguei a bolsa num tamborete na sala, corri pro quintal. Estava tudo lá. A cabra belinha, amor da minha avó; o pé de goiaba que nunca deu goiabas, talvez por não ser uma planta do sertão; o cajueiro, que dava cajus tão azedos que só servia pra suco e todas as ervas medicinais: hortelã, capim Santo e o lindo pé de corama. Amava ficar num balanço que tinha no cajueiro olhando todas aquelas plantas cheirosas. Às vezes, escondida, tirava uma folhinha de capim Santo só pra ficar cheirando.

Esqueci o amendoim.

No dia seguinte ela descascou os amendoins, torrou e fizemos a festa. Principalmente meu avô, que ficou todo feliz com a surpresa. Depois ela pegou algumas sementes e plantou num vaso grande no quintal. Disse:

- Quando você vier no final do ano, vamos colher muitas vargens de amendoim.

Pensei: “que bom”. Mas em geral não respondia a vovó. Fiquei observando ela plantar cuidadosamente as sementes e aguá-las. Sai do quintal e fui brincar com as primas, duas semanas depois voltei para casa.

Esqueci os amendoins.

Só voltei ao interior no ano seguinte. Onde vovó plantou os amendoins, tinha uma plantinha como um pé de feijão, mas sem vargens.

Perguntei:

- A senhora já colheu os amendoins?

Ela explicou que não tinha dado, Talvez pelo ano não ter sido bom de chuva. Ela tava doentinha tinha pego uma doença esquisita que ninguém dizia o nome. Meu avô que era um homem bem-humorado com muitas piadas prontas, depois que ela tirou um dos seios ele ficou silencioso, quase não sorria. A casa estava triste, mas as plantas verdinhas. Acho que ele estava aguando as plantas pra ela, porque ela estava muito fraquinha e ficava direto viajando pra fazer o tratamento na capital.

No ano seguinte fui novamente no interior. Vovó não estava mais conosco, não tinha vencido a doença. Quando cheguei na casa dela parecia que não tinha mais graça. Vovô ficava só trabalhando, não brincava, não sorria, mal falava.

Fui no quintal. O cajueiro e a goiabeira estavam lá, mas as outras plantas estavam murchas peguei a cuia de aguar e fui no tonel. Peguei água e fui jogando devagarzinho, como ela fazia. Vi o vaso dos pés de amendoim. A planta estava seca, completamente morta. Derrubei o vaso na intenção de desocupar para poder botar outra planta. Botei de boca pra baixo, nada da arreia cair chamei mamãe:

- Essa planta ta murcha, vamos desocupar o vaso pra plantar outra planta nele?

Mamãe tentou também tirar a areia barrada do vaso. Nada. Botou de boca pra baixo e balançou. Balançou tanto que suou. Vovô chegou e disse:

- Deixe isso aí. Depois eu ajeito.

Mamãe, que preferiu desistir, foi levantar o vaso de novo e, pra sua surpresa, ele quebrou em duas bandas. Não caiu um grão de areia, da mesma forma. Dentro tinha uma quantidade imensa de amendoins. Pareciam bonequinhos. Pegamos um cesto e colocamos todos.

Vovô intrigado disse:

- Não era de vargem? Era de raiz, igual batata? Por isso não produzia.

Deu uma risada.

- Meu Deus! E ela esperou tanto por esses amendoins.

Ficamos rindo ao lado do cesto cheio de amendoins.

Saudades, vovó. Saudades, vovô.

Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia 

Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Balanço do ano de 2023


Tive ganhos e perdas.

Dores inexplicáveis.

Tristezas na mesma intensidade das alegrias.

Perdi minha Mãe, chorei feito criança.

Perdi amigos também. Que Deus os guarde.

Perdi amizades, pacientes, dinheiro...

Na mesma proporção, ganhei.

 
Ganhei amigos, dinheiro, escrevi um livro, plantei mais árvores, plantei e colhi muitas flores, ganhei muitos beijinhos da minha neta e muitos abraços de amigos queridos.

Nesse ano, vi pessoas cobertas de ouro, mas sem nenhum brilho. Ao mesmo tempo que vi pessoas simples, que por suas atitudes, valem muito mais que ouro pra mim.

Termino agradecendo a todos pela paciência, tolerância, respeito, carinho e amor com o qual me trataram. Desejando também um ano novo brilhante, cheio de descobertas, conquistas, saúde, alegria, força, discernimento e uma cervejinha de vez em quando que ninguém é de ferro. 

Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...