Assim terminava mais uma tarde de plantão no hospital, depois de um dia inteiro de grande demanda, a tarde vai terminado. A janela do posto de enfermagem dá de frente para um parque que é lindo, cheio de árvores e logo acima o majestoso morro careca, exuberante e imponente, testemunha da minha infância em Morro Branco.
Naquele dia o entardecer estava especialmente lindo, a luz do sol batia nas folhas das árvores, deixando um brilho e uma luz, que ecoava uma luminosidade mágica. Fiquei ali na janela alguns minutos, o vento quente passando me fez esquecer um pouco a dor que estava sentindo.
De repente, chega ela, com seu pijama verde, muito desengonçada, se joga na cadeira em frente ao PC e começa a digitar. Sua aparência posso dizer um pouco desajeitada, bem acima do peso, como vários outros técnicos daquele lugar, inclusive eu. Fiquei ali mesmo, sentada olhando pela janela, resolvi puxar assunto.
– Essa claridade no morro me faz lembrar meu marido no início do casamento, nós tínhamos uma brincadeira, eu dizia que tinha tomado uma cachaça chamada São Jorge e tinha acordado com um dragão do lado e ele falava que eu tinha feito uma macumba pra ele que tinha colocado uma cueca num bode e amarrado numa árvore no morro e por isso ele não conseguia me deixar kkkk. Cada dia aumentávamos a estória e quando estávamos bebendo ela rendia várias resenhas.
Ela riu, e disse: “Acho que grandes amores só acontecem uma vez na vida, eu tive um grande amor, ele era maqueiro aqui do hospital, você deve saber quem é; o nome dele é Maurício. Eu fiz com a cabeça que não sabia quem era. Ela desatou a falar…
– Maurício trabalhou aqui por 2 anos, eu nunca nem tinha olhado, poucas vezes havia falado com ele. Um dia eu estava aqui no posto num final de tarde desses contando a história de como meu irmão tinha pedido a noiva em casamento. Foi bem engraçado porque ele se fez de bêbado e ela ficou morrendo de raiva pois ele fez ela passar vergonha. Quando ela já estava puta com ele, ele simplesmente falou: Quer casar comigo? E todos nós rimos com aquela situação. Ele parado, próximo a porta, olhando a gente rir, me pediu pra contar novamente a história a ele. Eu contei, quando eu falei que ele tinha falado no final: Quer casar comigo? Respondeu. Quero, quero sim. Tivemos um ano de lua de mel, foi um conto de fadas ou coisa parecida. Viajamos, passeamos fomos para todos os lugares que pudemos ir. O sexo era a melhor parte, quente, forte, nada doía, nada era ruim.
Parou.
Calou-se
Eu olhando aquela mulher que a pouco resplandecia, ficar em silêncio. Doeu a alma. Pensei logo que tinha terminado a paixão e ele havia deixado ela e arranjado outra ou coisa assim, como acontece na vida real. Histórias comuns perguntei o que aconteceu, depois. Como terminou. Ela respondeu.
– Ele morreu faz uns 5 anos. A gente viveu o último ano da vida dele intensamente. Ele teve um AVC, ficou mal, achei que ele ia sair. Não saiu. Teve uma piora aqui no andar. Foi transferido para o politrauma. Lá teve uma parada, até que o médico falou a frase que eu mais temia. “Hora do óbito 18:30h”. Ali mesmo cai de joelhos no chão a dor era tão grande que eu passei alguns segundos que pareciam dias jogada no chão do Politrauma. Meu amor morreu. O que eu ia fazer agora? Não fiz mais nada, as pessoas próximas, os colegas, me levaram pra casa, me deram banho, me deram comida, cuidaram de mim. Fui ao velório, mas aquela pessoa que estava ali deitado naquele caixão não era ele, era apenas o casulo, daquela pessoa que eu tanto amei. Fui diagnosticada com depressão pós traumática. Não conseguia entrar na enfermaria e continuei assim por 2 anos. Hoje já consigo, estou melhor, fico aqui, fazendo meu serviço, agora estou começando um relacionamento. Não é a mesma coisa, acho que nunca será, ainda amo aquele homem e por mim ficaria sozinha pelo resto da vida. Mas, como não tenho ninguém, estou tentando.
Fiquei ali, parada, ouvindo aquela mulher falar, não dava pra imaginar que ela um dia tinha vivido tudo aquilo. Me senti privilegiada por ter sido plateia para uma história de amor tão linda. Anoiteceu, a dor de cabeça passou e a vida segue.
Depois ela levantou-se e saiu. E eu jamais consegui enxergar ela da mesma forma.
😭😭😭😭😭😭❤️❤️❤️❤️❤️❤️
ResponderExcluirAme hoje!
ResponderExcluirQue liindoh, todo mundo tem um amor,mesmo que seja aquele passageiro 🥺🥺
ResponderExcluirSua hora vai chegar, e vai ser lindo
ExcluirLindo amiga!!!!!!
ResponderExcluir🥰🥰
ExcluirNossa! Essa é uma daquelas histórias que mexem demais com nossas emoções. Muito comovente.
ResponderExcluirPor isso inclui ela, acho que um amor desse tem que ser divulgado, o amor existe, e é possível.
ExcluirQue história linda de amor e vida.
ResponderExcluirUma das mais lindas e emocionante história.
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