quarta-feira, 28 de setembro de 2022

É GREVE, É GRAVE


Quando entrei no serviço público ouvia muita gente falar e não sabia como funcionava greve. Só sabia que o pessoal ficava na rua com cartazes e cantando umas musiquinhas. Na primeira greve que houve quando já estava no serviço público, cheguei a ir à administração do setor para saber como seria. Não me informaram nada, só disseram que se eu quisesse podia ir... Eu pensei: ir pra onde? Fazer o que? Como seria? Como não consegui respostas a essas perguntas fiquei no trabalho. No final da greve tivemos uma grande perda salarial.

Depois, o tempo passou eu fiz outro concurso, passei, fui encaminhada ao maior hospital do estado do RN e em poucos meses enfrentei minha primeira greve. Não sabia como proceder. Informei a colega que ela poderia ir caso quisesse, que eu não iria pois não entendia como isso de greve funcionava. Ela deu uma risada e falou: – Você já é sindicalizada? Eu disse: – Sim. Ela: – Então nós vamos. Eu disse: – Sou novata não sei se tenho direito. Ela falou: – Você tem matrícula? Tem vontade de aprender como funciona uma greve? E está disposta a lutar contra o sistema?
Eu não sabia o que responder, por fim disse: – Eu vou.
Fizemos o dimensionamento: escala de greve. Eu e ela fomos para a frente do hospital tinham umas velhinhas sentadas com umas plaquinhas que diziam: É GRAVE, É GREVE!
Eu parei e observei tudo. Tinha um carro de som, alguns jovens com bandeiras e muitos funcionários do hospital estavam ali reunidos. Todos conversando sobre salário e condições de trabalho. Eu só ouvindo, foi quando uma senhora pegou o microfone e começou a falar.

– Estamos aqui reunidos para mostrar a situação do nosso hospital. Falta de seringa a funcionários suficiente para atender a população, isso é um jogo político para sucatear o serviço público deixando a população à míngua!

As velhinhas nesse momento rejuvenesceram. Levantaram-se das cadeiras e começaram a gritar.

– É grave, é greve.

Nesse momento parou umas vans com funcionários de outros hospitais, que já desceram gritando: – É grave! É greve! De punhos cerrados. Chegou uma charanga com uns tambores e todos começaram as musiquinhas das greves, que depois eu vim a saber que se chamava “palavra de ordem”. Ficamos naquela festa. Todos indignados e exigindo explicações pela falta de insumos no hospital.
Eu ali pensando: – Eles estão com um carro de som, falando pro nada e cantando e as velhinhas todas de pé reclamando e exigindo. Que coisa louca. Isso não vai chegar a nada.
Abriram o microfone, algumas pessoas falaram exigindo a contratação de mais pessoal e o pagamento dos salários atrasados. Eu já estava a dois meses sem receber dinheiro, mas fiquei calada ouvindo. Mais tarde passaram com um livro e minha colega perguntou você já assinou eu disse: – Já. Ela falou: – Então vamos embora. Aí eu disse: – Você vai ficar com quantos pacientes? Ela disse: – Nenhum! Vamos pra casa. Você quer carona? Eu sem entender nada disse: – E a falta? Ela falou: – Eles não são loucos de botar falta! Bora!?

Eu disse: – Vamos. E fui pra casa, cheguei, tomei banho e fui almoçar, liguei a televisão como era de costume almoçar assistindo o jornal.
A matéria de abertura: “Greve do estado, informações sobre abertura de novo concurso”. A governadora dando entrevista, pedindo para que os funcionários voltassem aos seus postos de trabalho e propondo uma reunião com os dirigentes grevistas, enquanto passavam imagens dos protestos as idosas e as placas em primeiro plano. Eu fiquei assustada e encantada com aquilo. Como pode? Pode sim.

Houve a reunião, promessa de novo concurso, abono de falta para os grevistas e retorno imediato ao trabalho, pequenos reajustes de salário que foi levado à assembleia no dia seguinte, e foi aceito quase por unanimidade. Terminou a greve. Todos voltaram ao trabalho tudo resolvido.

Com o tempo fui me habituando com as greves. Nessas épocas sempre andava com o "kit greve": uma bolsinha com protetor solar, o crachá, um apito e lenço e um vidrinho com vinagre pro caso de gás lacrimogêneo. Nas piores greves chegamos a derrubar grades que foram colocadas no prédio da assembleia legislativa para que não nos aproximassem, enfrentamos de frente com policiais do BOPE, passamos as grades e nos sentamos no chão para evitar de sermos retirados, as velhinhas todas no meio da confusão, sentadas no chão segurando os cartazes e dizendo daqui só saio com a certeza do meu pagamento. No final um dos dirigentes foi preso e os deputados não conseguiram entrar para votar no aumento de impostos para os funcionários. Essa foi a pior greve que enfrentei, não conseguimos quase nada de aumento e os salários ficaram para ser pagos no próximo mandato.
E foi assim passei por todos os momentos das greves em algumas fomos obrigados pela justiça a voltar aos postos de trabalho.

Em cada uma delas eu consegui algo novo desde o respeito às senhorinhas que estão sempre presente nos movimentos até a certeza de que sem luta não há vitória.

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