Quando entrei no serviço público ouvia muita gente falar e não
sabia como funcionava greve. Só sabia que o pessoal ficava na rua
com cartazes e cantando umas musiquinhas. Na primeira greve que houve
quando já estava no serviço público, cheguei a ir à administração
do setor para saber como seria. Não me informaram nada, só
disseram que se eu quisesse podia ir... Eu pensei: ir pra onde? Fazer
o que? Como seria? Como não consegui respostas a essas perguntas
fiquei no trabalho. No final da greve tivemos uma grande perda
salarial.
Depois, o tempo
passou eu fiz outro concurso, passei, fui encaminhada ao maior
hospital do estado do RN e em poucos meses enfrentei minha primeira
greve. Não sabia como proceder. Informei a colega que ela poderia ir
caso quisesse, que eu não iria pois não entendia como isso de greve
funcionava. Ela deu uma risada e falou: – Você já é
sindicalizada? Eu disse: – Sim. Ela: – Então nós vamos. Eu
disse: – Sou novata não sei se tenho direito. Ela falou: – Você
tem matrícula? Tem vontade de aprender como funciona uma greve? E
está disposta a lutar contra o sistema?
Eu não sabia o que
responder, por fim disse: – Eu vou.
Fizemos o
dimensionamento: escala de greve. Eu e ela fomos para a frente do
hospital tinham umas velhinhas sentadas com umas plaquinhas que
diziam: É GRAVE, É GREVE!
Eu parei e observei tudo. Tinha um
carro de som, alguns jovens com bandeiras e muitos funcionários do
hospital estavam ali reunidos. Todos conversando sobre salário e
condições de trabalho. Eu só ouvindo, foi quando uma senhora pegou
o microfone e começou a falar.
– Estamos aqui
reunidos para mostrar a situação do nosso hospital. Falta de seringa
a funcionários suficiente para atender a população, isso é um
jogo político para sucatear o serviço público deixando a população
à míngua!
As velhinhas nesse
momento rejuvenesceram. Levantaram-se das cadeiras e começaram a
gritar.
– É grave, é
greve.
Nesse momento parou
umas vans com funcionários de outros hospitais, que já desceram
gritando: – É grave! É greve! De punhos cerrados. Chegou uma
charanga com uns tambores e todos começaram as musiquinhas das
greves, que depois eu vim a saber que se chamava “palavra de
ordem”. Ficamos naquela festa. Todos indignados e exigindo
explicações pela falta de insumos no hospital.
Eu ali
pensando: – Eles estão com um carro de som, falando pro nada e
cantando e as velhinhas todas de pé reclamando e exigindo. Que coisa
louca. Isso não vai chegar a nada.
Abriram o microfone,
algumas pessoas falaram exigindo a contratação de mais pessoal e o
pagamento dos salários atrasados. Eu já estava a dois meses sem
receber dinheiro, mas fiquei calada ouvindo. Mais tarde passaram com
um livro e minha colega perguntou você já assinou eu disse: – Já.
Ela falou: – Então vamos embora. Aí eu disse: – Você vai ficar
com quantos pacientes? Ela disse: – Nenhum! Vamos pra casa. Você
quer carona? Eu sem entender nada disse: – E a falta? Ela falou: –
Eles não são loucos de botar falta! Bora!?
Eu disse: – Vamos.
E fui pra casa, cheguei, tomei banho e fui almoçar, liguei a
televisão como era de costume almoçar assistindo o jornal.
A
matéria de abertura: “Greve do estado, informações sobre
abertura de novo concurso”. A governadora dando entrevista, pedindo
para que os funcionários voltassem aos seus postos de trabalho e
propondo uma reunião com os dirigentes grevistas, enquanto passavam
imagens dos protestos as idosas e as placas em primeiro plano. Eu
fiquei assustada e encantada com aquilo. Como pode? Pode sim.
Houve a reunião,
promessa de novo concurso, abono de falta para os grevistas e retorno
imediato ao trabalho, pequenos reajustes de salário que foi levado à
assembleia no dia seguinte, e foi aceito quase por unanimidade.
Terminou a greve. Todos voltaram ao trabalho tudo resolvido.
Com o tempo fui me
habituando com as greves. Nessas épocas sempre andava com o "kit
greve": uma bolsinha com protetor solar, o crachá, um apito e
lenço e um vidrinho com vinagre pro caso de gás lacrimogêneo. Nas
piores greves chegamos a derrubar grades que foram colocadas no
prédio da assembleia legislativa para que não nos aproximassem,
enfrentamos de frente com policiais do BOPE, passamos as grades e
nos sentamos no chão para evitar de sermos retirados, as velhinhas todas
no meio da confusão, sentadas no chão segurando os cartazes e
dizendo daqui só saio com a certeza do meu pagamento. No final um
dos dirigentes foi preso e os deputados não conseguiram entrar para
votar no aumento de impostos para os funcionários. Essa foi a pior
greve que enfrentei, não conseguimos quase nada de aumento e os
salários ficaram para ser pagos no próximo mandato.
E foi
assim passei por todos os momentos das greves em algumas fomos
obrigados pela justiça a voltar aos postos de trabalho.
Em cada uma delas eu
consegui algo novo desde o respeito às senhorinhas que estão sempre
presente nos movimentos até a certeza de que sem luta não há
vitória.
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