quinta-feira, 22 de junho de 2023

A casa da fazenda

 


Um dos luxos que sempre tivemos em nossa casa por incrível que pareça nos dias de hoje, era ter banheiro. Não me perguntem porque luxo? No inicio dos anos 1980, poucas casa simples tinham banheiro com vaso sanitário e fossa. Diziam que era caro.
Um dia viajamos para o interior. Mamãe foi na casa de uma prima e nos levou para apresentar. Éramos eu e três irmãos. A casa era de uma fazenda grande, espaçosa, muito limpa, com uma cristaleira que era um primor. Meus irmãos correram para o pasto ver os bois e vacas. eu disse logo que não ia. Eu com meu vestido de algodão que parecia com os que as crianças hoje usam nas festas de São João e com uma sandália melissa marrom com meias limpas, cabelos bem penteados, não ia sair para correr e arriscar me sujar. Jamais ia perder a chance de ficar olhando aquela casa tão bem ventilada e com uma cristaleira que tão linda.

Sentei no chão em frente a cristaleira e fiquei medindo cada xícara bem centralizada no pires, taças de todos os tamanhos umas pequenininhas que pareciam de brinquedo, outras bem grande, um bule que tinha um fio de ouro no cabo e a sopeira que parecia a carruagem da Cinderela da Disney, tudo refletido nos espelhos que ficavam por trás dos cristais.

Era um móvel pomposo de madeira escura, lustroso. Talvez tivesse sido herança, pois os móveis da sala não ornavam com ela. Apenas cadeiras de madeira com palhinha, alguns quadros religiosos e almofadas bordadas, decoração comum naquela época. Na varanda cadeiras de balanço de ferro e um grande banco de madeira.

Fiquei bastante tempo sentada de frente a cristaleira até começar aquela vontade de fazer xixi, fui até minha mãe, pedi licença e informei que precisava ir ao banheiro. A senhora disse “É logo ali fora da cozinha”. Passei pela cozinha correndo, doida pra chegar logo no banheiro.
Cheguei. Abri a porta. Era um vão de pouco mais de um metro quadrado, tinha uma pequena parede, como os fogões a lenha na altura de uma cadeira. No lugar de sentar tinha uma tampa redonda com uma alça feita provavelmente de Borracha de pneu. Olhei ao redor. Tinha um saco do lado com um monte de pó de madeira e outro saco cheio de sabugos de milho seco. O piso era de cimento desempolado. Eu olhando aquele cenário que não parecia em nada com um banheiro. Sai de la correndo fui ao encontro da minha irmã mais velha.
- Sandra, preciso ir no banheiro e o banheiro daqui eu não sei usar.
Ela me levou a outro lugar onde tinha uma pequena palhoça cerca de 1 metro quadrado onde as pessoas iam tomar banho. As paredes eram de palha amarrada em caibros fazendo uma estrutura como um pequeno banheiro.

Ela me perguntou “É xixi ou cocô?”.

Respondi: “xixi”.

Ela respondeu: “Ainda bem”. Me conduziu a uma árvore e disse: “Faça aqui. Cuidado para não molhar as meias”.
Fiz. Alívio.
Ela saiu comigo, me levou a palhoça.

- Nesse lugar as pessoas tomam banho e fazem xixi no chão.

Me levou no outro banheiro.

- Aqui é onde as pessoas fazerem cocô. Abrem essa tampa, sentam aqui e quando terminam jogam a serragem e se limpam com o sabugo de milho.
Eu fiquei paralisada. Era muita informação. Aquela casa tão bonita não tinha um banheiro de verdade?
Depois disso preferi ficar com meus irmãos eles estavam brincando na beira de uma lagoa que ficava perto da casa. Ficamos lá jogando pedras na lagoa, Paulo torcendo para aparecer um sapo pra "brincar".

Depois chegou um rapaz com um burro pequeno, de carregar água, com cangalha e barris. Perguntou se queríamos andar, subimos os 4 no lombo do jumento e ele ficou do lado com uma corda e o burrinho nos levando a todos de uma vez só.

Chegamos na casa felizes, suados. Lá tinha bolo e leite de vaca. Comemos e nos despedimos. Fomos até a porteira da fazenda no carro de boi, que fazia um barulhinho zunido. O boi era enorme, marrom e branco andava lentamente.

Foi uma tarde espetacular. É uma das melhores lembranças dos passeios pelo interior, como não podia deixar de ser. Cheguei em casa toda despenteada e com o vestido sujo

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