Um dos luxos que
sempre tivemos em nossa casa por incrível que pareça nos dias de
hoje, era ter banheiro. Não me perguntem porque luxo? No inicio dos
anos 1980, poucas casa simples tinham banheiro com vaso sanitário e
fossa. Diziam que era caro.
Um dia viajamos para o interior.
Mamãe foi na casa de uma prima e nos levou para apresentar. Éramos
eu e três irmãos. A casa era de uma fazenda grande, espaçosa,
muito limpa, com uma cristaleira que era um primor. Meus irmãos
correram para o pasto ver os bois e vacas. eu disse logo que não ia.
Eu com meu vestido de algodão que parecia com os que as crianças
hoje usam nas festas de São João e com uma sandália melissa marrom
com meias limpas, cabelos bem penteados, não ia sair para correr e
arriscar me sujar. Jamais ia perder a chance de ficar olhando aquela
casa tão bem ventilada e com uma cristaleira que tão linda.
Sentei no chão em
frente a cristaleira e fiquei medindo cada xícara bem centralizada
no pires, taças de todos os tamanhos umas pequenininhas que pareciam
de brinquedo, outras bem grande, um bule que tinha um fio de ouro no
cabo e a sopeira que parecia a carruagem da Cinderela da Disney, tudo
refletido nos espelhos que ficavam por trás dos cristais.
Era um móvel
pomposo de madeira escura, lustroso. Talvez tivesse sido herança,
pois os móveis da sala não ornavam com ela. Apenas cadeiras de
madeira com palhinha, alguns quadros religiosos e almofadas bordadas,
decoração comum naquela época. Na varanda cadeiras de balanço de
ferro e um grande banco de madeira.
Fiquei bastante
tempo sentada de frente a cristaleira até começar aquela vontade de
fazer xixi, fui até minha mãe, pedi licença e informei que
precisava ir ao banheiro. A senhora disse “É logo ali fora da
cozinha”. Passei pela cozinha correndo, doida pra chegar logo no
banheiro.
Cheguei. Abri a porta. Era um vão de pouco mais de
um metro quadrado, tinha uma pequena parede, como os fogões a lenha
na altura de uma cadeira. No lugar de sentar tinha uma tampa redonda
com uma alça feita provavelmente de Borracha de pneu. Olhei ao
redor. Tinha um saco do lado com um monte de pó de madeira e outro
saco cheio de sabugos de milho seco. O piso era de cimento
desempolado. Eu olhando aquele cenário que não parecia em nada com
um banheiro. Sai de la correndo fui ao encontro da minha irmã mais
velha.
- Sandra, preciso ir no banheiro e o banheiro daqui eu
não sei usar.
Ela me levou a outro lugar onde tinha uma
pequena palhoça cerca de 1 metro quadrado onde as pessoas iam tomar
banho. As paredes eram de palha amarrada em caibros fazendo uma
estrutura como um pequeno banheiro.
Ela me perguntou “É
xixi ou cocô?”.
Respondi: “xixi”.
Ela respondeu:
“Ainda bem”. Me conduziu a uma árvore e disse: “Faça aqui.
Cuidado para não molhar as meias”.
Fiz. Alívio.
Ela
saiu comigo, me levou a palhoça.
- Nesse lugar as
pessoas tomam banho e fazem xixi no chão.
Me levou no outro
banheiro.
- Aqui é onde as
pessoas fazerem cocô. Abrem essa tampa, sentam aqui e quando
terminam jogam a serragem e se limpam com o sabugo de milho.
Eu
fiquei paralisada. Era muita informação. Aquela casa tão bonita
não tinha um banheiro de verdade?
Depois disso preferi ficar
com meus irmãos eles estavam brincando na beira de uma lagoa que
ficava perto da casa. Ficamos lá jogando pedras na lagoa, Paulo
torcendo para aparecer um sapo pra "brincar".
Depois chegou um
rapaz com um burro pequeno, de carregar água, com cangalha e barris.
Perguntou se queríamos andar, subimos os 4 no lombo do jumento e ele
ficou do lado com uma corda e o burrinho nos levando a todos de uma
vez só.
Chegamos na casa
felizes, suados. Lá tinha bolo e leite de vaca. Comemos e nos
despedimos. Fomos até a porteira da fazenda no carro de boi, que
fazia um barulhinho zunido. O boi era enorme, marrom e branco andava
lentamente.
Foi uma tarde
espetacular. É uma das melhores lembranças dos passeios pelo
interior, como não podia deixar de ser. Cheguei em casa toda
despenteada e com o vestido sujo
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