quinta-feira, 27 de julho de 2023

Os malassombros


Nas férias de junho sempre íamos ao interior, eu e meus irmãos, para a casa da avó Cicera.

Era uma casa simples de interior e, apesar de ter um fogão a gás, todas as comidas eram feitas no fogão de barro. No teto, as telhas eram baixas e ela tinha mania de guardar os saquinhos das compras entre uma telha e outra.

Eu ficava sempre na sala olhando as dezenas de quadros de santos, uns com olhos ou cabeças em bandejas, alguns com o corpo todo sujo de sangue. Me sentava num tamborete pequeno e observava o ritual que era feito ao anoitecer por vovó. Ela pegava uma lamparina e acendia na mesinha em frente aos santos, fazia umas orações com as mãos postas uma na outra. Deixava sempre a lamparina na frente dos quadros de santo e só apagava na hora que todos estavam deitados.

Depois das orações acendia o cachimbo e ia pra calçada fumar. Eu amava o cheiro de cachimbo. Me mantinha no tamborete, brincando de girar a tramela da porta, enquanto os tios chegavam do roçado, tomavam banho, comiam e iam pra calçada contar causos, que chamavam de histórias de Malassombro.

Era hora de largar tudo, sentar na calçada para ouvir histórias simples, criadas na imaginação daquelas pessoas ou talvez fosse tudo verdade e realmente existe cada um dos personagens. Meu tio era sempre o primeiro a contar. Dizia que no dia que foi caçar preá na mata, avistou, de longe, o vulto de Fulozinha (para muitos, a caipora, com a cabeça enfiada numa estaca de cerca). Uma alma de uma moça que foi deixada no altar e morreu tristeza. No meio da mata se ouvia o choro dela.

O único jeito para não ouvir era deixar uma pêia de fumo pra ela mascar cima da primeira estaca que encontrasse e fazer o sinal da cruz. Ai podia entrar mata a dentro sem medo. Era uma guardiã da floresta e tinha que autorizar a entrada se não ninguém pegava nada.

Vovó dizia para respeitar a Fulozinha e que Cobra Preta tinha feito outra vítima, um bebê que a mãe esqueceu no peito e que a cobra tinhosa do jeito que é, colocou a calda na boca dele e o picou, ficando a noite toda mamando na mãezinha, enquanto o bebê morria. Depois ficava escondida no telhado esperando o velório do bebê; mas, não precisava ter medo pois ela só aparecia quando tinha bebê em casa. Ela ficava trepada na cumeeira da casa... esperando o enterro do bebê.

Vovô então, não saia por baixo, começava a falar de um amigo que bebia muito e que tinha perdido a mulher. Decidiu, fazer um trato com o Capeta e nesse trato foi enrolado nas artimanhas do tinhoso e acabou virando lobisomem. Morava numa casinha lá no alto da Serra, sozinho. Nas noites de lua cheia saia para caçar. Mas não se preocupasse pois o lobisomem só se alimentava de crianças que não eram batizadas.

E assim cada um contava uma estória mais bizarra que a outra. Eu prestava atenção em cada detalhe e, durante a noite, morria de medo de cada um dos personagens. Cresci na capital. Pouco se conversava sobre esses assuntos até o dia que comecei a trabalhar no hospital Walfredo Gurgel, onde o que não faltava eram essas estórias.

Eu não acreditava em nada até o dia em que... Cheguei atrasada. Corri, botei a roupa funcional, recebi os pacientes, organizei os banhos, comecei a retirar os eletrodos do primeiro paciente para começar o banho, olhei para os pés do paciente e vi uma mulher com uma blusa branca com varias flores vermelhas. Ela estava com uma pasta e olhava fixamente para o paciente.

Eu, nessa hora, olhei para o paciente e pensei “Deve ser parente”, mas... Porque está aqui essa hora? Porque não está com roupa de uti? Pensei: “Vou falar para ela que não pode ficar aqui durante o banho do paciente...” Quando olhei novamente, a mulher tinha sumido. A colega do lado me perguntando o que houve, porque eu estava pálida? Eu disse: “Essa mulher que estava aqui foi para onde?”. Ela respondeu que não tinha mulher nenhuma. Só nós duas e Wendell!

Eu disse: “Tinha sim!”. Fui até a saída do setor perguntando a todos sobre a mulher. A resposta era a mesma. “Ninguém entra aqui sem a roupa funcional”... Voltei para o setor com a impressão que fui enganada. Minha colega perguntou “Achasse a mulher?”. Eu disse: “Não! Ninguém entrou aqui sem uniforme... Foi uma alma”.

A colega abriu os olhos com pavor. Eu disse “É a única explicação: MALASSOMBRO”. Não sei se minha mente me enganou. Depois do banho, o senhorzinho descansou. Fiquei pensando “deve ter sido alguma parente que veio buscar a alma dele”.

Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

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