sábado, 26 de agosto de 2023

O que você vai ser quando crescer?


Algumas pessoas tem sonhos grandiosos. Ser o melhor, o maior em sua área. Ser o grande, o principal, o presidente... Hoje gostaria de falar de sonhos.

Um dia, quando criança, a professora dona Antonia, do segundo ano, me fez aquela pergunta comum: o quê você quer ser quando crescer? Eu estava numa sala de aula e tinham umas 20 crianças, todas desesperadas para responder essa pergunta. A maioria das meninas da minha época sonhava em ser professora, outras disseram que queriam casar, alguns meninos jogador de futebol e outros, caminhoneiros.

A professora foi passando de aluno a aluno perguntando, até que chegou em mim. Eu fiquei sem voz na hora. A timidez me paralisou não respondi nada. Ela disse: “Vai pensando, depois você responde”. Apareceram alguns que queriam ser médicos e bombeiros e eu rezando a cada segundo para que aquele sinal tocasse e terminasse aquele tormento.

De repente “TRIIIIIIMMMMM”… Terminou a aula. Felicidade geral. Fui arrumando minha mala (naquela época não se usava mochila). A professora se aproximou e falou mansamente: “Você não respondeu”. Eu baixei a cabeça. Não sabia o que falar. Ela disse: “Próxima aula você diz só pra mim?” Fiz com a cabeça que sim.

Na noite desse dia, quase não dormi pensando: “Eu não quero ser professora. Ter que cuidar de um monte de criança. Também não quero casar. Deus me livre. Viver lavando roupa e reclamando do preço das coisas. Médica nem pensar: 'sangue'. Veterinária, cuidar de cachorro doente... Melhor não”.

Todas as profissões iam parecendo enfadonhas, pensei. Nessa hora passou um comercial do alistamento militar, era 1982. Vivíamos a ditadura militar e toda vez que tocava o hino nacional, tínhamos que ficar em pé, mesmo dentro de casa. Segundo o comercial, agora mulheres poderiam se alistar para defender o Brasil. Marinha e Aeronáutica agora, abriram seu quadro para militares femininas. Amei. Vou ser marinheira. Segundo o comercial, trabalhar em navio, viajar, conhecer o mundo. Pronto resolvido!

No dia seguinte, antes de entrar na sala, a professora me perguntou: “Pensou?” Eu disse. “Sim, quero ser marinheira”. Ela arregalou os olhos: “Sério?” Eu disse: “Sim”. E sai. Pronto, acabou o problema. Agora é aprender a ler e passar de ano pra não levar uma surra de mamãe.

Eu sinceramente não esperava os desfechos dessa traquinagem. Durante a aula ela não falou nada. No dia seguinte como toda quinta feira, ia um militar para falar da nação e cantar o hino nacional. Chegou dessa vez e dona Antônia foi direto falar com o homem. Era um senhor magro com um bigode enorme, sem barba, que mal dava pra ver de onde saia sua voz.

Saímos da sala em fila, cada fila uma sala, dez filas, os professores apostos mão no coração, o compacto na radiola.
O militar começou:

- O Brasil é o melhor país do mundo. Nós todos amamos nossa pátria. Hoje estou muito feliz e, principalmente orgulhoso, por saber que um desses alunos se espelha em nós. Que terá orgulho e quer servir ao país. Aplausos para Sônia.

Nesse momento a professora me pegou pelo braço e me levou lá pra frente. Não lembro tudo que o homem disse. Fiquei em choque. Lá do lado dos professores eu só conseguia pensar: “Me lasquei!”

Minha irmã, Sandra, olhava pra mim e ria. Botava a mão na testa, balançava a cabeça negativamente, acho que ela pensava: “De onde diabo Sônia tirou essa ideia!”

E o bigodudo falando. Eu acho que nem cor eu tinha mais, um giz de cera na frente de umas 300 crianças que iriam tirar meu coro pra sempre... E homem parou de falar. Olhou pra mim carinhosamente e disse “Você quer dizer alguma coisa?” Eu balancei a cabeça que não.

Dona Antônia se aproximou e disse: “Fale alguma coisa”. Ai nesse momento, eu lembrei do que o homem sempre falava depois do hino.

Suspirei e falei alto.

- Salve a pátria!

Ela falou com entusiasmo, quase com uma lágrima no olho:

- Salve a Pátria!

E todos responderam em voz alta, quase gritando!

- SALVE A PÁTRIA!!!
Pronto!

Não venho mais para escola. Mamãe vai me matar quando eu chegar em casa, a vida foi boa até hoje.
Começou o hino e eu lá na frente, junto com os professores. Dona Antônia não cabia de tanto orgulho. Minha mão se manteve no peito mas acho que o coração parou de bater varias vezes. Vergonha, medo, vou virar chacota. Só via minha irmã cantando o hino e rindo.

Depois do hino, voltamos à sala em silêncio. O homem do bigode foi até o birô e falou com a professora. Deu parabéns a ela e sorriu pra mim afastando os bigodes. Quase deu para ver a boca dele.
Achei que depois disso iam fazer qualquer tipo de comentário, ninguém falou nada. Fizemos as tarefas e quando meu irmão mais velho chegou para buscar eu e minha irmã, foi chamado pela professora, que ofereceu biscoitos e leite, sobras da merenda. Também começaram a tratar com todo carinho minha irmã, que era uma pestinha. Dai pra frente ninguém na escola falou desse assunto a não ser minha irmã, que foi o caminho todinho rindo dessa história: “De onde tu tirou isso!” Mas não falou pra mamãe.

Na escola, até a diretora me chamava de vez em quando no recreio. Me deixava na direção pintando bandeiras e soldados. Era uma certa proteção que eu tinha e na época eu não entendia. Nas quintas-feiras era chamada para desdobrar a bandeira que tinha um jeito certo de dobrar e ficava sempre do lado do menino que a hasteava.

O tempo passou e logo cedo percebi que não levava jeito para carreira militar, mas até os 12 anos, quando alguém me fazia essa pergunta eu respondia isso. Mamãe só dizia: “Vai estudar menina.”


Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...