Descobri que a vida é um piscar de olhos.
Na infância enquanto empinava pipa, Pisquei e já era adolescente namoradeira e atrevida e por atrevimento resolvi piscar de novo. Quando abri estava casando, na igreja, apaixonada, marido de terno, igreja enfeitada com flores naturais direito a celebração Padre Sabino, testemunhas e meu irmão tocando a macha nupcial… Agora era aproveitar a festa.
Depois da festa... pisquei e acordei mãe. Nossa, que amor é esse? O bebê chorava, sujava as fraldas, mamava muito e de cansada eu pisquei de novo...
Outro bebê. Mais calmo e agora eu já sabia ser mãe e os amava tanto que decidi que seriam só os dois.
Muita dificuldade. Agora eram duas crianças e só o meu marido trabalhando.
Por necessidade, pisquei de novo. Acordei trabalhando. Pouco dinheiro, sem ter como me virar em três: mãe, mulher, trabalhadora... Resolvi piscar conscientemente. Fechei os olhos e pensei em estudar. Já que tinha que ser três, por que não ser quatro?
Acordei. Pisquei. Quero ser funcionaria pública. Dessa vez não pisquei. Na verdade quase não dormia. Trabalho de dia, filhos e marido a noite, mas, na madrugada, era minha hora de estudar. Cinco e meia hora de começar tudo de novo...
Passei, pisquei, passei, pisquei, passei. Três concursos. Agora posso piscar. Dessa vez conscientemente. Acordei com três empregos. Hora da pedir pedir exoneração de um emprego público, o sonho de tanta gente. Nesse momento também Perdi minha amada irmã, um sobrinho amado que não chegou a nascer e quase perdi, outro que talvez não conseguiu nascer. Deu certo. Nasceu prematuro mas, bem e trouxe com ele uma sensação de calma, apesar do caos, dessa vez para piscar me enchi de medicação.
Por precisão pisquei. Acordei numa Pandemia, minha filha já casada, grávida; não pude acompanhar nada mais. Longe de mim, que trabalhava com covid-19, segura, a gravidez da minha filha seria normal. Parto bem sucedido, quatro quilos e quatrocentas gramas de lindeza.
Eu olhei aquele bebê e em nada diferenciava dos outros. Não senti nada.
Pensei em piscar de novo, mas, perderia a melhor fase da minha neta... Psiquiatra, desmame, a medida que a medicação saia, o amor crescia e as tristezas também. Tinha que aguentar. Vê-la falando as primeiras palavras, dando os primeiros três passinhos sem se segurar aos dez meses na nossa sala, que, com ela, estava parecendo cada dia menor, resolvi fazer uma casa maior, com espaço pro velocípede e pros beijos de vó, que agora eu podia sentir, são sim os mais doces.
Preparada para piscar de novo. Acordei agora funcionária pública, escritora, com uma casa na beira do mar, que cabe a neta com seu velocípede, os filhos, nora e genro, galinhas, cachorro, árvores e bolos quentinhos. Tudo parece organizado. Dessa vez piscarei com orgulho das conquistas, feliz e realizada.
Essa aventura entre uma piscada e outra também me trouxe vários problemas de saúde: fibromialgia, depressão, vesícula, miomas, histerectomia... Me preparando para a velhice.
Por isso resolvi escrever, para dizer cada vez que se tem a intenção, ou se percebe que é hora de piscar, que devemos ter um desejo em nosso coração. Pisquem, pisquem e sonhem.
Agora vou ajudar meu marido (o mesmo de trinta e poucos anos atrás) a matar uma galinha caipira para o almoço... e me preparar para as próximas piscadelas.
Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br
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