segunda-feira, 9 de outubro de 2023

"Quatro olhos"

 


Depois da mudança para Mãe Luíza, nós experimentamos o caos social. Não imaginávamos o que era ter tanto vizinho. Uns cordiais e afetivos, outros distantes e arredios, mas a imensa maioria era com toda certeza formada por curiosos.

Como mamãe só nos deixava sair a noite, muitas das crianças ficavam no portão perguntando tudo sobre a gente, com certeza para passarem o relatório mais tarde para os pais.

Perguntavam onde nosso pai trabalhava, o nome e a idade da gente, porque tínhamos nos mudado, qual escola a gente ia estudar... E respondíamos a todos os questionamentos, até que um dos meninos que estava a uma certa distância perguntou: “Quantos anos o "quatro olhos" tinha?”

Ficamos, eu e minha irmã caladas e irritadas com a falta de respeito do rapazinho. Minha irmã perguntou: “Que quatro olhos?” Ele disse: “O de óculos.”

Minha irmã ficou furiosa. Se pudesse, teria pulado o portão. Resmungou “Ele me paga.” Dai pra frente começaram a chamar meu irmão mais velho de “quatro olhos”. Passaram o dia no portão. De vez em quando gritavam: “Quatro olhos”.

Anoiteceu, jantamos e como de costume fomos liberados para brincar na rua. As meninas vizinhas estavam pulando “academia”, nome conhecido da “amarelinha” em outros locais do país. Foi pra onde eu fui e os meninos “garrafão” que era uma brincadeira que um batia um no outro. Foi pra onde minha irmã foi, dizendo logo “Quero brincar”. Desisti da academia. Já fazia ideia do que ela ia fazer. Fiquei sentada num tronco de coqueiro que usávamos como banco e pensei “vai já começar”.

Não demorou, Tonho, o que tinha dado o apelido ao meu irmão, foi brincar no garrafão. Pensei: “Não vai prestar”. Sandra se tornou o “tica” esperou todos entrarem no garrafão, gritou tô indo foi para dentro e todos ficaram fora pulando de um pé só. Ela se aproximou de Tonho e não tocou nele mas disse “TICA!”. Todos foram pra cima de tonho. Quanto mais ele dizia que ela não tinha ticado, mas eles batiam nele até que ele conseguiu correr até o poste e gritar SALVO. Aí, em tese, o jogo começaria novamente mas, depois de salvo, o menino foi pra cima da minha irmã: “Você não me ticou”. Ela falou: “Eu sei. Era só pros outro meninos bater em você. Chame meu irmão de “quatro olhos” de novo…” - em tom sarcástico. E gritou: “Saindo do jogo”.

O Tonho, puto, foi pra cima, tentar bater nela. Foi pior. Sandra atracou-se com ele e acho que a raiva que ela estava saiu todinha na performanse da luta. Ela atracou Tonho com as perna e não sei como deixou ele de bruços no chão e ficou dando socos na cabeça dele por trás.

Se formou uma redoma de crianças entre os dois “Ninguém interfere!” - Era só o que ela queria. Soltou o menino que era bem maior que ela. Bora de murro ela disse. Acho que nesse momento ele percebeu que ela não ia parar e correu. Todos começaram a rir “Eita! Apanhou da menina! Tenha vergonha! Você, um homem, apanhar de uma menina”.

Sandra passou a mão na roupa e simplesmente foi brincar de elástico com as outras meninas. O menino chegou perto de onde eu estava e pegou uma pedra. Um caco de telha e jogou atingindo em cheio a cabeça da minha irmã.

Pronto a coisa ficou séria. Quando percebi, já estava mamãe, papai e todos os adultos da rua. As outras crianças gritando “é sangue!”. O rosto de Sandra banhado em sangue e ela não chorou. Só apontou para o menino e disse: “Foi ele.” - O homem, que era pai do menino, agarrou ele pelo braço: “Foi você?” - Ele disse: “fui” – O pai: “Vá pra casa vou com os pais da menina para o hospital. Reze para que tudo dê certo. Quando eu chegar em casa a gente conversa.”

Nesse momento, já tinha uma multidão na rua. Todas as crianças foram pra dentro de casa e meus pais e o homem foram para o hospital com Sandra. Tentei esperar ela chegar. Adormeci. Pela manhã quando acordei ela estava do meu lado na cama, eu disse:

- Doeu?

Ela disse:

- Acho que o pai dele deve ter dado uma surra nele. Não doeu não. Eu estava com o sangue quente e quando cheguei no hospital o doutor era bonzinho. Tirou o pano com gelo e fez cinco pontos. Não doeu, mas ele teve que raspar minha cabeça no lugar da costura. Quando o pai dele perguntou como isso tinha acontecido eu disse que ele tava chamando Dinho de quatro olhos. Ele ficou calado. depois disse que quando chegasse em casa resolvia esse problema.

Eu disse:

- Eu vi que você não ticou.

Ela respondeu:

- Mas ele ticou no meu irmão, quero ver ele com sorrisinho agora.

Passamos uns dias sem ver esse menino circular por perto da nossa casa. Depois da briga ninguém mais chamou Dinho de “quatro olhos” e Sandra poucos dias depois tirou os pontos e mostrava com orgulho a cicatriz.

Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

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