O retratista era um homem, que andava subindo e descendo o morro com uma máquina fotográfica grande pendurada no pescoço e um cavalinho no ombro. Sempre educado, elogiava a gente dizendo “Que crianças bonitas, vamos tirar um retrato para guardar de recordação? Elas vão crescer”. Todas as crianças sonhavam em tirar uma foto sentada no cavalinho. Eu era apenas mais uma.
No entanto, para falar do retratista, tenho antes que falar de outro assunto: nossas madrinhas.
Todos os domingos, a tarde, a gente se arrumava e mamãe fazia a faxina na gente. Unhas cortadas, cabelo penteado, dentes limpos, roupas de domingo e íamos pra calçada tomar vento ou para a casa das madrinhas.Tudo cheiroso a colônia Avon (as que tinham), sem fazer nada na calçada. Quando íamos visitar as madrinhas, era bom. Subíamos e desciamos as ladeiras e chegávamos em casa suados e com os pés sujos de areia.
Mas minha madrinha de fogueira morava na frente de casa, Dona Nazaré. Era negra, baixinha, sempre carinhosa comigo. Sempre estava passando roupa com seu ferro a carvão. Mamãe perguntava porque ela não comprava um elétrico. Ela falava que tinha medo. Tinha 3 filhos e era uma mulher que só se via na rua quando ia buscar ou deixar as roupas na casa das patroas.
Eu pedia a bênção ela segurava minha mão beijava dizendo: “Deus eterno te abençoe, em nome de Jesus”. Eu beijava a dela. Era uma mão seca, dura como se os dedos fossem finos gravetos. A palma era muito áspera. Ela sempre tinha o mesmo olhar pra mim, uma mistura de carinho e impossibilidade. Sempre dizia “um dia vou te dar um presente lindo!”. Nunca deu. Mesmo assim eu a amava e amava ir pra casa dela com aquele cheiro de roupa limpa passada no ferro de carvão.
Meus irmãos também iam na casa dos padrinhos de fogueira. Os de batismo só uma vez por ano, na sexta-feira da paixão, dar a bencão e pegar as esmolas, como era tradição na época. Minha madrinha de batismo vi poucas vezes. Nunca me deu nada. Eu achava que madrinha de batismo tinha que dar presente. Os padrinhos de batismo eram distantes. Ex-patroas de mamãe ou gente que tinha feito algum favor a papai. Era assim que funcionava.
A madrinha de fogueira era alguém responsável, que morava perto e que podia ajudar numa necessidade. A de Sandra era uma senhora que morava em outra rua. Mamãe nunca ia, pois a chegada na casa dela era muito íngreme, tinha medo da gente cair. Mas ela ia lá em casa. Mamãe fazia café e botava num bule de porcelana branco. Servia ela, como servia as amigas das patroas dela quando trabalhava de doméstica. Gostava de receber as pessoas em casa. Essa madrinha era mais carinhosa que mamãe, botava Sandra no colo e sempre trazia uns confeitos. Abençoando ela e dizendo que ela era linda.
Um certo dia de domingo a prima da minha mãe foi lá em casa levou os filhos. Geruza, Geomar e Leila, que ainda era pequena. Estava grávida de novo (ela sempre estava grávida). Chegou, sentou-se nas cadeiras que mamãe sempre botava pra fora e ficaram conversando. Nós, todos arrumados, de sandálias nos pés, fomos brincar no quintal. Sandra sempre subindo nas árvores; Paulo amava brincar com fogo; Dinho gostava de conversar com Geomar; eu brincando de boneca com Gerusa e Leila, eram assim as tardes de domingo.
Mas nesse dia foi diferente. Estávamos brincando, até que Dinho foi lá no quintal e pegou um Coelho que criávamos. Pronto estava feita a festa. Nós abandonamos as bonecas e corremos para brincar com o Coelho que era lindo. O pelo macio e as patas que arranhava de mansinho a gente. Foi a primeira vez que coloquei o Coelho no colo. Mamãe dizendo vão guardar esse Coelho e a gente teimando.
Chegou o retratista. A gente suado de tanto brincar e mamãe negociando a foto. Eu só olhava o cavalinho no ombro dele era de um lindo marrom e branco, com uma cela de verdade de couro, pequena e os arreios.
Mamãe perguntou quanto era, ele disse. Ela perguntou quando ele vinha deixar, ele respondeu. Mamãe disse tá bom quero duas fotos e levou o homem pro quintal. Botou uma cadeira em baixo do coqueiro e mandou o homem tirar a foto, Dinho estava segurando o Coelho, eu sentada junto com Paulo no colo de mamãe e Sandra do lado. Pronto, o homem disse “Olha o passarinho”, Eu olhei. Ele falou “não deu certo, fiquem na posição”, eu com os olhos bem abertos para ver o passarinho, dessa vez nada… O homem disse “Calma as vezes da errado, pera”. Eu, de olho aberto ao máximo. De repente os olhos começaram a lacrimejar, comecei a coçar os olhos o homem disse: Pronto deu certo. Eu fiquei, “ôxe cadê o passarinho”?
Depois fomos pra fora de casa e tiramos outra foto. Tudo junto, mas nenhuma no cavalinho. Eu fui perguntar a ela porque eu não podia tirar foto no cavalinho ela disse:
“Soninha, é 2 cruzeiros pra tirar a foto no cavalinho. Para tirar vocês tudinho junto é 1 cruzeiro. Quando você crescer vai entender”. Hoje eu entendo a não possibilidade de dar o mínimo. Para ela, ter a foto dos filhos era o máximo que ela podia fazer com o pouco dinheiro que tinha.
Ficamos brincando até a hora dos trapalhões e esqueci do retratista que trazia o sonho daquela pose no lindo cavalinho marrom.

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ResponderExcluir🤌🥰🥰🥰
ExcluirLindo texto 👏👏👏🌷
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