domingo, 6 de fevereiro de 2022

Vida de comerciante no morro

 

Em Mãe Luiza sempre apareciam umas figuras que não tem como descrever hoje em dia. Eles apareciam com seus carros de som ligados no máximo com um monte de crianças correndo atrás, como se fosse uma procissão. Músicas animadas e todos corriam. Era bonito de se ver. Até alguns adultos com crianças nos braços, como dona Kátia, corriam atrás dos carros era todo tipo de promoção:
Um cabo de vassoura por um pacote de sal.

    Um algodão-doce por uma panela.

    Troca-se metal velho por um pinto colorido.
    Uma garrafa por um algodão-doce.
    Carro do ovo.
    Carro da fruta…

Tudo acontecia na hora, na frente de todos. Nós guardávamos todo tipo de coisa para trocar nesses carros.
Além deles, ainda tinham os prestonistas (prestamistas). Eram homens que subiam e desciam ladeiras com um monte de pacotes de lençol, amarrado com uma corda. Eles andavam por todo o bairro. Vendiam a crédito, num cartãozinho vermelho. Lá em casa sempre tinha um e papai sempre reclamava com Mamãe: – pra que comprou mais um lençol? – Mamãe: – Não é um lençol, é uma colcha de cheniu (chenile), todo mundo tem uma! Eles se resolviam sempre.

Tinha também a mulher do óleo. Era uma senhora que andava pelo morro vendendo óleo e colônia. Ela era muito cheirosa. Mamãe sempre comprava um óleo cheiroso para passar no cabelo.

Tinham os que vendiam caranguejo no sábado de manhã. As pessoas compravam para fazer no domingo. Deixavam eles vivos dentro de baldes e, no outro dia, cozinhavam os crustáceos. Era muito barata uma corda com 10 caranguejos. O problema era matar e tratar. Sim, eles eram comprados vivos em cordas penduradas num pau parecido com um cabo de enxada.

Mas o que me encantava mesmo era o homem do munguzá, com seus caldeirões brilhantes e uma voz muito afinada. Ele gritava: – Temmmmm coco, ooooolha o manguzá! Era quase uma música pro nossos ouvidos. Mamãe comprava sempre e dizia: – Tá feita a janta, Luizinho vá comprar 10 pão! Não era todo dia que ele passava, mas quando ele vinha, a filha da vizinha já estava com uma cumbuquinha. – moço, me dá um pouquinho? Ele parava, olhava pra ela e dava meia concha. Sabia que a mãe não tinha condições de comprar.

Nossa família também passou por essa fase, com papai vendendo banana. Ele comprava na xepa da feira e vendia em dois balaios pendurados, enquanto não era chamado no concurso da CAERN. deu para nos sustentar por um tempo. Mas, depois que recebeu o primeiro salário, abandonou a vida sofrida de vendedor.

Assim, naquela época, o povo ganhava a vida e sobreviviam, apesar das dificuldades.


Texto: Sonia Borges - Insta: id.sonia
Revisão: Lula Borges





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