Lá no morro tínhamos um grande problema a infestação de parasitas: piolho, carrapato e o pior, pulga-de-bicho. Esse era o terror da minha infância. Pegar um bicho significava que além da coceira terrível, tinha o bicho em si, que ficava incrustado nos cantos da unha do pé principalmente, mas podia se alojar em qualquer parte do corpo e que era tirado com o auxílio de uma agulha, quando as mães resolviam fazer a limpeza nos pés das crianças. Dava para saber na outra rua. Era grito que não se acabava mais. O irmão mais velho, em geral, segurava os mais novos e a mãe com a agulha começava a espetar os dedos sem técnica nenhuma. O importante era retirar os bichos. Lembrando que cada casa tinha, em média, 5 crianças e, pelo menos, um cachorro e um gato. Então era ambiente fértil para esses parasitas.
Lá em casa a gente era proibido de ir pra fora sem chinelo. Então, no geral, pegávamos pouco bicho-de-pé. Mas quando eu pegava pedia pra minha irmã tirar. Ela tirava sem doer.
Um certo dia uma vizinha deixou o marido que batia nela, foi lá pra casa chorando pedindo pra mamãe ficar com 2 filhas dela, que ela ia levar a mais nova que ainda mamava. Eu lembro do cabelo da mulher. Muito liso e gorduroso, sempre que a vi estava com o cabelo solto. Era a coisa mais bonita nela. Parecia uma cigana sempre com saias longas, um monte de bijuterias que ganhava das patroas e um dente de ouro que, na época, era moda. Eu achava um nojo aquilo dentro da boca. Mamãe aceitou ficar com as duas meninas até ela voltar.
As meninas eram magrinhas e tinham cabelo como o da mãe liso e gorduroso. Mamãe botou o almoço normalmente, como todos os dias. Elas não comeram. Ficaram quietas, de pé num canto de parede. Mamãe chamou elas e pediu pra mais velha sentar num tamborete. Ela sentou com dificuldade. Mamãe achou estranho, ofereceu suco de Ki-suco, elas tomaram de pé.
Mamãe disse “vamos tomar banho, vocês vestem os vestidos de Soninha, que deve caber direitinho”. Elas começaram a chorar dizendo que não iam tomar banho ali naquela casa. Mamãe disse “então voltem, vão ficar com o pai de vocês”. Elas foram tomar banho. Aí o segredo delas. Mamãe, como fazia com a gente, colocou uma banheira no chão tirou a roupa da mais velha e percebeu que ela tinha diversas feridas no corpo, principalmente nas pernas, com bicho geográfico, além de bichos nos pés e nas mãos. Começou a lavar os cabelos e era piolho saindo de todo tamanho. Ela enxaguou o cabelo da menina e pegou a menor. Aí foi o cúmulo. Tinha bicho-de-pé em todo o corpo, uma inflamação no umbigo e a cabeça estava ferida também. Mamãe terminou o banho enrolou elas com um pano de saco de farinha, que era usado na época como toalha. Parou e ficou olhando para as duas.
Elas levou um certo tempo até dizer “vou na creche com essas meninas”. Aí foi minha vez de chorar. “como assim ela ia levar elas, será que ela não ia embora também como fez a mãe delas?”. O jeito foi me levar junto. Elas com minhas roupas e com minha mãe. Chegando no posto de saúde foi direto para a urgência. Esperamos até o médico chamar “dona Josefa tá sentindo o quê?”. Mamãe disse: “Na verdade o atendimento não é pra mim, é para essas duas crianças. Dê uma olhada nelas”.
Eu fiquei sentada na cadeira de metal olhando mamãe brigar com o médico devido as meninas não terem documentos e ela dizendo que ele tinha que atender, ele reclamando porque elas eram indigentes (era assim que chamava quem não contribuía com o INPS naquela época). Mamãe, brava “bote a consulta no meu nome mas olhe essas crianças!”. O médico, a muito custo, botou a pequena na maca. – Essa menina tem que ser internada, ela tem bicho-de-mosca na cabeça e no umbigo e esses bichos-de-pé tenho que tirar tudo e fazer antibiótico. – Foi pra mais velha disse: – Essa tá com infestação de piolho e bicho-de-pé. Está desnutrida e também vai ficar internada. Vai ficar como sua responsabilidade. Se a senhora não vier amanhã eu chamo a FEBEM.
Mamãe assinou um papel e antes de sair sem as meninas, me mandou levantar da cadeira e disse “essa aqui é minha filha, eu jamais deixaria um filho meu chegar a essa situação”. E começou a chorar. O médico olhou pra ela e pra mim e disse: “leve sua mãe pra casa e deixe com a gente!”. Passou a mão no meu cabelo. Fomos pra casa.
No dia seguinte, quando acordei, a menina mais velha estava lá. Cortaram o cabelo dela, estava com os pés enfaixados, tinha também umas roupas novas que deram lá no posto. Estava limpa, cheirava a esparadrapo. Fiz amizade com ela, se tornou uma terceira irmã. A mais nova ficou internada alguns dias. A rede dela ficava do lado da minha. Comíamos juntas, tomávamos banho juntas, só nos separávamos quando eu ia para o jardim de dona Arlete. Depois a gente brincava de boneca até anoitecer, jantar e assistir novela até dar sono. Como ela não podia ir pra fora, eu ficava com ela dentro de casa.
Com uma semana mamãe foi buscar a menor. Tinha um curativo no umbigo e a cabeça raspada. Mamãe subiu o morro com ela nos braços pois ela não podia ter contato com o chão pra não pegar bicho de novo. Confesso que não reconheci a menina. Estava gorda e careca, com roupas bonitas e com um ar de alegria. Bem diferente de quando chegaram. Comiam de tudo e tomavam o remédio sem reclamar.
Passado uns dias a mãe delas voltou. Tinha arrumado uma casa pra ficar com elas. Agradeceu a mamãe pelo cuidado e foi embora levando as duas. Elas não choraram, só deram tchau. Eu fiquei órfã de duas irmãs que já considerava minhas, mas elas ficaram bem. Eu por outro lado não. Quando elas foram embora, mamãe fez uma limpeza geral na casa, lavou com sabão em pó e depois fez uma faxina na gente. Ninguém tinha pego piolho, mas eu peguei um bicho. Dinho me segurou “pronto mamãe pode tirar”. Eu gritei e acho que podiam escutar da outra rua.
Lembranças dignas da época de infância, nunca são esquecidas.parabens RUIVA
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