quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Bacural × arara: quem perdeu fomos nós


Bacural é um pássaro noturno, mas na minha infância era um dos apelidos mais utilizados por meio de chacota em quem votava no PMDB. Minha mãe era da torcida do desse partido político e papai era PDS. O apelido era arara. Era uma briga sem fim esse negócio de política. Mamãe botava um pôster de Aluísio na frente de casa, papai botava outro de José Agripino. 

Tinham pessoas na rua que ficavam sem se falar, outros na bodega na hora de comprar o pão discursaram em favor de um dos dois. Eu não entendia nada, pra mim era tipo uma torcida organizada. Não entendia que daquilo dependia nosso futuro.

Pois bem. Fomos morar em Morro Branco e lá política era diferente. Ninguém falava, não tinha a bodega de seu Leó, onde se faziam apostas e a palavra bacural saiu da minha vida. Nesse bairro tínhamos poucos vizinhos, falávamos com pouca gente. Até que, um dia meu tio, que tinha uma mira certeira, derrubou um camaleão ou tijuaçu (um tipo de lagarto de médio porte, também conhecido como iguana) do pé de tamarindo da casa vizinha que estava fechada. 

Ele derrubou o camaleão, tirou a pele num tipo de fogueira e depois foi feito como galinha torrada, estava gostoso. Ao andar pelo terreno a tarde, observamos uma coruja no chão. Ela era pequena, feia, cinza, os olhos esbugalhados, o bico pequeno, mas, quando abria o bico, tinha uma boca grande horrorosa dentro. Sandra se apaixonou por ela “mas é bonitinha!”.

Quando foi mostrar pra mamãe ela falou logo, tira isso daqui menina, isso é ave de mau agoro! É um bacural! Nós fingimos que botamos fora mas não botamos.

Ficamos com ela, depois de muitas bicadas, fizemos uma papa de leite com farinha e demos pra ela. Sandra arranjou um jeito de botar ela pra dormir. Ela não queria de jeito nenhum dormir. Ah sim!!! pra gente, ela era uma menina coruja. Virava a cabeça todinha como se rodasse. Era muito engraçado.

Passamos o dia brincando. Não sabíamos se era adulta ou bebê. Sandra tinha 10 e eu 8 anos. Conseguimos passar o dia com ela. Ela ficava fechando os olhos e confesso que com olhos e bico fechado eu até a achava bonitinha. Ao acordar, antes de ir pra escola, fui olhar a coruja no ninho que Sandra tinha feito. Nada. Acordei ela. – Sandra a coruja sumiu. Fui embora para escola e esqueci da coruja.

O tempo passou. Um dia, enquanto botávamos meu irmão Léo para dormir, escutamos um barulho em baixo da cama. Dinho foi lá baixo da cama e dias depois ela estava lá, linda... quer dizer feia. Dinho disse:

– Essa coruja ainda tá aqui? Elas não podem ficar no claro não, faz mal a ela vou deixar ela lá no pé de caju do quintal. Elas comem ratos e são boas para a natureza. Dinho era uma enciclopédia ambulante.

Ficamos passadas quando ele, com cuidado, botou ela num canto bem escurinho do cajueiro e ela simplesmente voou, foi embora. Nem agradeceu nosso cuidado. Na verdade acho que quase que a gente mata ela com aquele leite com farinha.

Depois José Agripino ganhou a eleição e tudo voltou a ser como antes. Até as próximas eleições quando começou tudo de novo. Pobres brigando por ricos.

Texto: Sonia Borges
Revisão: Lula Borges

4 comentários:

  1. Bacural, fazia muito anos posso dizer que décadas wue não ouvia falar nesse nome.

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  2. Afff, faz tempo que eu não ouvia falar esse nome viu, posso dizer qie foi do fundo do baú essa.

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  3. Verdade... Os bacurais também carregavam folhas verdes, coitado das árvores... era quem pagava o pato nesta história toda.

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