terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A TV na sala

 


Naqueles dias de criança bem pequena, a gente já tinha energia em casa. Papai trabalhando na CAERN, ganhava o suficiente para nos manter, com pouco luxo. No entanto, em um domingo, Dinho (meu irmão mais velho) desceu o morro para Assistir os trapalhões. Ficava na janela da casa de um pessoal que morava lá em baixo. Só ele ia, já era grandinho, voltava sempre nos contando o quanto era divertido. Eu nem ligava, não entendia muito como funcionava esse negócio de televisão.

No entanto, nesse dia, Dinho chegou triste, tirou suas opercatas (alparcatas = sandálias) e se deitou numa rede. Mamãe falou pra papai que achou que algum menino tinha batido nele. Papai já foi com tudo. – O que aconteceu Luiz, porque você está chorando? – Ele respondeu: – O pessoal fechou a janela não vai dar pra assistir os trapalhões. E começou a chorar. Papai pegou ele rapidamente e disse “Bote a sandália”, saiu com ele e voltou mais a noite com uma pipoca para cada filho e Dinho com um sorriso do tamanho do mundo. Tinha levado ele pro centro social lá tinha uma TV e uns batentes para assistir como se fosse uma arquibancada.

A noite toda até eu pegar no sono, ouvi papai e mamãe conversando sobre algo. Só percebia que ele estava bem irritado e mamãe tentando amenizar o ocorrido. No dia seguinte chegou papai com duas caixas grandes. Alguns homens ajudaram ele a carregar até em casa. Ele colocou a caixa maior em cima de um birô que tinha na sala e começou a rasgar o papelão. A partir de hoje filho meu vai assistir televisão aqui dentro de casa. Foi instalando a antena, ligou a TV na tomada e pronto estava lá, imagem e som.

Eu nunca tinha parado para observar uma televisão de verdade. Era uma caixa grande, de madeira com um vidro grosso e uns botões laterais. A hora que ligaram a TV foi na parte da tarde, nos sentamos no sofá para assistir, mamãe nem tirou o cochilo dela, estava passando Tarzan um filme de antigamente e, de repente, tinha um monte de crianças na janela para assistir. Papai mandou tudinho ir em casa botar uma camisa para entrar para assistir.

Todos se sentaram no chão de cimento vermelho queimado e depois que terminou o filme, foram saindo aos poucos. Mamãe chamou a gente para jantar antes que começasse a novela. Eu só levantei e fui jantar, não vi graça na televisão, nem em Tarzan. Fui, jantei e de repente uma procissão lá pra casa. Até as comadres da outra rua foram.

Mamãe mandou a gente se sentar no chão para dar o lugar do sofá para os mais velhos. Eu me chateei e fui pra cozinha. Quando, de repente, falaram “Cala-boca todo mundo que começou a novela!”. Eu fui ver o que era a novela. Fiquei parada na porta da sala. De repente surge uma voz de homem falando ESCRAVA ISAURA e surgiu a escrava linda com um vestido parecendo uma princesa conversando com um homem, chorando porque era escrava, eu me sentei pra ver aquele sofrimento. Outro homem, do mal, dizendo que ela era dele e a música era sofrida: vida de negro é difícil lê lê lê...

Terminou.

Eu fiquei, “como assim como ela ficou?”, “O que vai acontecer?”. Não entendi. “Passaria a noite toda com seu vestido brigando pela liberdade dela?”. Depois começou o jornal. Todos saíram, voltei pro sofá perguntei a mamãe o que vai acontecer com a escrava? Mamãe riu. “Amanhã vamos saber isso. É uma novela, vai passando aos poucos, amanhã passa o resto da história”.

Começou um programa engraçado e depois surgiu um letreiro com uma voz que dizia: DESFAZ-SE NESSE MOMENTO A PROGRAMAÇÃO DESTA EMISSORA, BOA NOITE!
Eu fui dormir, agora com novos sonhos, o que será que vai acontecer com a escrava coitada, como minha professora dona Arlete me ensinou, vou rezar por ela.

Depois de um tempo, já acostumada com a TV, mamãe disse a televisão agora será colorida, comprou uma tela de plástico azul a um prestamista, fixou na frente da TV. Agora a gente via tudo azul. Era assim a TV colorida da minha infância. Era muito bom ter uma TV em casa.

Texto: Sonia Borges
Revisão: Lula Borges


8 comentários:

  1. Você me fez chorar novamente! Obrigado!!! És uma excelente escritora. Os cenários, os personagens, as cenas passaram claramente aqui em minha frente como se estivesse presente... Mil novecentos e antigamente em Mãe Luiza. Tu és do caralho!

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    1. Nossa, em tudo gostaria de ser tão do caralho quanto tu, obrigada professor, muito orgulho dos meus amigos professores.

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  2. Lembro bem dessa tela colorida kkkk, escrava Isaura, tudooo era perfeito nessa época 😊

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    1. Kkkkkk né! Era a melhor parte, fingir que a televisão era colorida

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