sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Quando aposentamos as lamparinas: o dia que chegou energia no morro

 

As coisas aconteciam e viravam notícias espetaculares na voz de Ubiratan Camilo. Ele conseguia transformar qualquer ladrão de manga em um monstro. Era muito legal e assustador escutar o Patrulha da Cidade, na Rádio Cabugi AM 630. Ao meio dia começava a musiquinha:

"Hoje eu vou sentar a pua

E não ligo pra ninguém
Quem gostar muito obrigado
E não gostar me queira bem

Tá na hora da verdade
Ligue o rádio pra escutar
O que o povo tá falando
Eu também quero falar.

Quem tem rabo de palha
Não se meta comigo
É que mato tem olho
E paredes têm ouvido.” (Não conheço o autor)

Lá em casa tinha um rádio de pilha e todos os dias era sagrado escutarmos esse programa. Mamãe ligava o rádio para esperar começar e ia colocando o almoço da gente. Até que em um certo dia começou. O radialista gritava:

– Morreu um bebê queimado em sua rede porque a mãe deixou uma vela acesa e saiu pra comprar pão no MORRO – Essa parte ele gritava – de Mãe Luiza. Ao chegar em seu barraco a mulher se deparou com as cinzas do barraco de palha. O bebê morreu queimado!

Aí ficou falando um monte de coisa, chamando a mãe de irresponsável, como se fosse intenção da mulher. Mamãe desligou o rádio, continuou botando o almoço da gente. Parou um pouco e começou a chorar. A gente não entendeu, no início, o porque. Como assim desligar o rádio? Na hora do almoço tinha que ter som. Mamãe sentou-se e chorou copiosamente como se estivesse com uma dor muito forte. Dinho (meu imão mais velho) perguntou: “Mamãe acabou as pilhas? A senhora tá com dor de dente?”. Ela respondeu: “não, hoje vamos ouvir outra rádio.” Ligou novamente o rádio e botou noutra emissora. Que tinha música.

Ela continuou chorando, mas não dava mais pra ouvir. A tarde, depois do cochilo fomos para calçada. Eu sempre ficava perto dela, era uma tarde ventilada, ela mandou me sentar num banquinho para catar piolho. Eu nunca tinha, mas ela gostava de ficar passando os dedos no meu pouco e fino cabelo. As amigas dela chegaram começaram a conversar sobre o ocorrido no rádio. Mamãe disse:

– Nem me lembre comecei a chorar, lembrei quando estava na frente da casa, pegando capim pros mocó (preá) e deixei Paulinho na rede e a varanda (pormenor bordado na lateral da rede) pegou na lamparina e pegou fogo.

– Luiz (Dinho), com 7 anos, meu Deus, correu e pegou ele da rede. Ainda se queimou um pouco mas, graças a Deus, quando eu entrei, Paulo estava no chão e Luiz com um caneco de água jogando de copo em copo na rede. Eu tirei a rede e joguei no quintal, hoje eu estava pensando nisso quando Ubiratan – Como se o conhecesse – estava falando da mulher, chorei muito por isso.

Aí eu entendi o choro dela.

No dia seguinte parou um caminhão na rua Camaragibe de frente a Ari Barroso, minha rua, com um monte de postes em cima e um monte de homens também. Eu estava sentada na ponta da calçada, fiquei observando os homens, fortes iam tirando de poste em poste, outros iam fazendo um traço de cimento como papai fazia também, só que muito grande e com brita. Dois homens cavavam buracos e uns 4 pegavam os postes do caminhão e iam colocando do lado de cada buraco. Do outro lado da nossa rua, na João XXIII parou uma Rural, um tipo de carro antigo, com muitos fios e pequenos pedaços de caibros pintados de amarelo desci o morro para olhar, todas as crianças estavam loucas, pulavam corriam os pais concentrados nos postes.

Aos poucos os moradores foram começando a ajudar logo era uma mistura de gente colocando os postes que logo todos eles foram colocados chegando a rua João XXIII onde ligaram a energia. Chegou lá em casa um homem com uma prancheta todo arrumado, explicando do programa "pau amarelo" do governo e do que era preciso para o cadastro. Resolveram em poucos minutos. Outro senhor ia passando e instalando pedaços de caibros pintados de amarelo nas paredes das casas e ligaram um disjuntor. Papai correu para comprar lâmpadas e fios. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mamãe com um monte de mulheres conversando falou: “foi preciso um bebê morrer para eles trazerem os postes”. Papai concentrado ligando os fios um no outro "Esse é positivo…".

A noite foi chegando e de repente as luzes dos postes acenderam. Era o grito ÊÊÊÊÊÊÊÊHHH! Acenderam também as luzes dentro de casa. Outras casas, mesmo com o pau na parede, não tinham puxado a energia para dentro, pois não tinham dinheiro para comprar os fios.

Aos poucos fomos nos acostumando com a eletricidade e fomos deixando as lamparinas jogadas num canto do armário. Progresso vindo para o bairro.

Texto: Sonia Borges
Revisão: Lula Borges

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