terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Onde eu morava em Mãe Luiza


Bem, na infância eu morava na casa mais alta do morro mais alto de Mãe Luiza. Tinha uma vista panorâmica dava pra ver do farol até o forte dos Reis magos. Era a rua Ari Barroso, a casa era de tijolos e o alicerce foi feito com pedras da praia que papai trazia, todos os dias quando vinha do seu trabalho no Sesc e comprava quando podia também das pessoas que iam buscar e vendiam essas pedras. Os tijolos eram deixados no pé do morro até onde o caminhão podia chegar. 

A casa foi crescendo aos poucos; no final ficou 2 quartos, sala, cozinha e 2 banheiros um era no quintal. Se tornou um bom lugar para morar, era uma casa de piso de cimento queimado vermelho brilhoso. Mamãe sempre encerava e ficávamos dando o brilho com pequenas flanelas feitas com pedaços de roupas velhas. No final era brilho puro. Depois nos deitávamos naquele piso bem friozinho. Não tinha luz elétrica então mesmo que tivéssemos dinheiro não dava pra ter enceradeira.

O grande problema de lá é que não tinha água encanada. Tinham que ir buscar lá embaixo ou no chafariz que ficava próximo ao antigo Pop Clube. Com o tempo, a água foi encanada em toda avenida João XXIII e ruas mais baixas mas não chegava lá em casa. Então papai foi lá no meio do morro de nossa rua, furou o cano, botou uma torneira e pronto. Tínhamos água todos os dias. Os vizinhos aplaudiram pois era muito sofrido andar tanto para pegar água. 

Ainda tinha a fila, pegávamos com pequenos baldes de tinta e os adultos com latas que também eram de tinta, grandes e quadradas. Colocávamos uma lata atrás da outra e ai de quem furasse a fila. As mulheres equilibravam na cabeça aquelas latas. Papai fez uma cisterna suspensa em casa que chamávamos de tanque. Deu certo. Agora tínhamos água todos os dias. Acabou o sofrimento.

Na frente de nossa casa tinha uma tosseira de palmatória. Na época era muito comum essas plantas nativas que serviam para segurar a areia. O morro não tinha muro de arrimo. As casas e barracos eram construídos de vários materiais: taipa, madeira, lona… ou tudo isso misturado. Cada pedaço de terra era aproveitado. Nas encostas se colocavam troncos e madeira fazendo uma barreira para impedir a areia de descer, mas ela sempre descia. Então o jeito era deixar as palmatórias e plantas nativas do lado ou em frente de cada casa.

Em frente a casa de seu Antonio Bacurau – ou Antonio Pé de Bicho - Tinha um lindo pé de castanholas foi quase nesse ponto onde papai furou o cano. Cada casa tinha pelo menos 5 crianças. À noite brincávamos de roda, esconde-esconde, tica e pular corda. Na verdade eu era muito pequena, era café-com-leite, como se dizia na época. Ainda lembro das músicas, era tudo cantado errado mas foi assim que a gente aprendeu:

Senhora dona cândida
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua cara...

Que anjos são esses
Que estão me arrudiando
É de noite é de dia
Pai de nossa ave Maria.…

Isso a gente cantava segurando um na mão do outro enquanto a claridade do farol passava de vez em quando por cima da gente como se estivesse brincando de roda conosco. Não tinha luz elétrica no morro a claridade vinha da lua, das estrelas e do farol que, mesmo em noites escuras, clareava nosso cantinho.

Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges


10 comentários:

  1. Respostas
    1. Vc morou lá na época de Gaspar,que tinha burros?

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    2. Sim, mas era muito pequena. Se não me engano ele era pai de zezinho, que era nosso amigo.

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  2. Parece com minha infância; brincadeiras maravilhosas cheias de inocência.

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  3. Coisa lindaaaa!♥️👏👏👏👏

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  4. Amei era como se eu tivesse lá, adorei viajei mesmo!!!!

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  5. Muito bom, a leitura desses textos resgata lembranças e sensações adormecidas. Parabéns, Sônia.

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