sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

A ladeira


Eu estudava na Escola Estadual Augusto Severo, que ficava em Petrópolis. Na procura por um ensino melhor, uma escola com um bom aprendizado nos impulsionava. Na época, no bairro, não tinha escola ginasial da 5° a 8° série. Então, todos os dias eu descia a ladeira para ir à escola e subia na volta. A ladeira de Mãe Luiza é muito alta para qualquer pessoa hoje em dia, mas antigamente, com 11 anos, ao meio dia em ponto, ela parecia imensa.

A ladeira tem cerca de 300 metros, é muito íngreme, curva em “S” e no meio dela tem uma árvore, onde um homem se suicidou e ninguém queria passar por lá a noite. Mesmo de dia tínhamos medo da árvore depois desse suicídio. Ela era frondosa de um verde-escuro com os galhos grande e com muitas folhas fazendo uma sombra que ia bater na calçada e que, antes, nos fazia parar para aguentar subir o resto.

A calçada era toda cheia de buracos, nos obrigando a andar pela pista, que era, na época, de paralelepípedo, não descia ônibus pois era perigoso. E alguns carros ficavam no meio dela pois não tinham força para subir. Imagine a gente, com fome e no sol quente.

Tinha, logo na entrada da subida, um homem que vendia laranja descascada. Antes ele descascava com uma faca bem amoladinha, depois trocou por uma espécie de moinho que ele girava e ia descascando. Em geral, as laranjas eram bem doce. Quase nunca tínhamos dinheiro pra comprar, mas, quando tínhamos, dividíamos as laranjas para todas. Naquele calor era um bálsamo para nós.

A ladeira por si só já é um personagem na vida de todos os mãeluizenses. Lembro das colegas: Liege, Ilka e Cleonice, e das melhores amigas de Sandra: Denise, Andrea e Ruth. Todas subindo a ladeira no sol escaldante e uma puxando a outra, rindo do cansaço. Era pior quando estava chovendo. A água que descia a ladeira formava correnteza, nos molhava todinha, mas, mesmo assim, a subíamos.

Quando chegávamos na escola, pegávamos o tênis e a camisa da farda de dentro da bolsa, itens obrigatórios para entrar na escola e que meus pais tinham comprado com dificuldade. Botávamos o tênis nos pés e mostrava a camisa ao porteiro íamos ao banheiro, tirávamos a camisa molhada, colocávamos junto a chinela dentro da mochila, numa sacola e ficava com a calça molhada mesmo, secava no corpo. Era horrível. Melhor com sol.

Certa vez Sandra, que sempre foi muito traquinas, encontrou um pneu na subida da ladeira e disse: “Vou levar esse pneu” e foi subindo. Estava chovendo. Já estávamos com os bambas (tênis escolar da época) todo molhado e Sandra rolando o pneu e eu dizendo “Mulher, solta esse pneu”. Até que ela, de repente, decidiu soltar o pneu e deixou o pneu em pé. Bem onde tinha a maior correnteza.

O pneu começou a rolar pela ladeira e pegou cada vez mais velocidade. Bateu no muro de uma casa que ficava no meio e continuou descendo. Agora com a velocidade de um carro. Passou um fino de uma mulher lá no começo da ladeira. Hoje fico pensando. Se o pneu atingisse aquela mulher... Subimos o resto da ladeira. Caladas. Mas depois rimos muito disso, “Graças a Deus que não bateu em ninguém”, Sandra dizia rindo.

Texto: Sonia Borges - Insta: id.sonia
Revisão: Lula Borges

4 comentários:

  1. Parabéns amiga, adoro sua histórias, to aqui imaginando o peneu rolando de ladeira a baixo kkkk. ( limdy)

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  2. Muito legal relembra o passado adorei ler resenha

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  3. Massa essa história é verídica ou não fica a dúvida mas vale sempre apena conhecer um bairro tão lindo e de rica história....sou filho da mãe suspeito pra falar amo meu bairro

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