domingo, 13 de fevereiro de 2022

Praia de mãe Luiza

Eu, desde muito pequena tive contato com o mar, ia à praia com meus pais e irmãos. Era normal ficava brincando na areia, fazendo castelinhos, casinha de areia com o pé, cavava um buraco e dizia que era uma piscina ou brincava com a bola. Na hora de voltar, me banhava no raso e ia pra casa, sempre muito cedo por causa do sol.

Só podia ficar na praia até as 8 horas. Eu era muito branca e fiquei com bolhas uma vez. Tive febre e fiquei internada. O médico disse que não devia mais ficar exposta no sol por muito tempo, então a praia não erra um lugar muito comum pra mim. Mesmo morando em Mãe Luiza, bem próximo do mar. Depois fui morar em Morro Branco e fiquei mais distante, então lembrava pouco ou nada do mar. Agora éramos 6 filhos, voltamos pra mãe Luiza e eu só pensava em voltar à praia.

Papai chegou cedo do trabalho. Ele sempre estava trabalhando. Uns dias na CAERN, outros fazendo biscates, consertando fogão, pintando. Ele trabalhava em várias casas, fazendo pequenos serviços, é o que hoje chamamos de marido de aluguel hoje em dia. Sabia mexer com elétrica e hidráulica, então pra ele não faltava trabalho e sempre estava com um pouco de dinheiro. Às vezes era só pra botar uma tomada ou pendurar quadros na parede, chamavam ele.

Fazia alguns dias que tínhamos voltado pra casa de Mãe Luiza, no Barro Duro e estávamos esperando aquele chamado. Papai parece que adivinhou. – Vamos pra praia? – Pronto. Corremos pro quarto, botei um maiô azul, o único que tinha, um shorts e estava pronta. Papai pegou Léo e Lindomar e botou no carro de mão e fomos para a praia.

Era muito perto de casa. Atravessamos a via costeira e começamos a correr até o mar. Papai, tranquilo, levando os pequenos no carro de mão e os quatro mais velhos disputando quem iria chegar primeiro. Eu corri ao máximo. Chega dava pra sentir meu coração batendo forte. Minhas bochechas vermelhas. Cheguei na água, parei para olhar meus irmãos que já estavam no mar.

Me sentei na areia, era grossa e transparente. Limpa. Eu peguei um grão, uma pedrinha muito transparente fiquei contemplando ela, imaginando aquela pedra sendo um planeta cheio de pessoas morando dentro. Eu tinha visto na TV que tudo era feito de átomos, até as coisas menores eram formadas por células e átomos.

Eu concentrada naquela pedrinha, papai chega. – Você não vai tomar banho? – Eu dei de ombros. Tanto faz, mas quando olhei pra ele e percebi ao redor, vi o quanto aquela praia era bonita. Tinha umas pedras pretas e altas na lateral e um conjunto de arrecifes por toda a extensão da praia, deixando apenas uma pequena entrada para a água sair, transformando em pocinhos, pequenas piscinas naturais. Meus irmãos pulando na água se divertindo e eu na areia concentrada no cheiro de maresia que vinha com um vento calmo, mas que balançava meus cabelos. Eu lembrei de todas as praias que eu tinha visto na televisão e pensei – Essa é a praia mais linda do mundo.

O céu de um azul-escuro de fim de tarde, as pedras escuras e o mar de um azul intenso e brilhante. Resolvi tomar banho entrei no poço maior, a água muito salgada me deixou leve. Comecei a pular como meus irmãos, tentar nadar, prendi o fôlego, mergulhei. O som do mar ficava no ouvido fazendo um barulho gostoso de ouvir. Subi respirei desci de novo, muito boa essa sensação.

A água do mar nos deixa leve. Fiquei ali, aprendendo a boiar com meus irmãos, sendo reapresentada ao mar. Não pretendia voltar pra casa nem tão cedo, papai pegou a pá e pegou um pouco da areia muito grossa no lugar que eu estava sentada a pouco e disse: – Vamos embora. Começou a empurrar o carro e nós corremos atrás dele. Me despedi do mar pensando o quanto eu era privilegiada de morar tão perto dele.


Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

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