Primeiro dia de aula. Caderno, lápis e livros novos. Naquele ano, até uma mochila eu ganhei. Tudo com um cheirinho de novo. O professor Severino, um idoso agradável, começou a falar, discursou sobre a importância das férias para as crianças e como era importante que cada aluno tivesse um vinculo com o outro... Pediu para que guardassem o material. Entregou uma folha em branco pra cada e pediu para que fizéssemos um desenho sobre as férias. O que a gente tinha visto de bonito ou algum passeio feito.
Eu respirei fundo, tinha passado as férias na casa da minha avó. Lá não tinha nada demais. só galinhas, sacas e sacas de feijão e farinha e um monte de crianças que eram levadas para passar as férias com os avós no interior. Olhei os colegas todos desenhando o mar, peixes e casinhas com montanhas atrás. Nesse momento pensei vou desenhar uma casa e vou botar umas crianças brincando ao redor. Pronto vai ficar ótimo. Comecei e por um momento lembrei da ida para apanhar algodão. Nossa!!! Cheguei a sentir o cheiro dos pés de algodão e a sensação de pegar cada flor madura, no caso tufos, de algodão. Desenhei a casa, as crianças e eu com uma sacola e um tufo de algodão na mão, pronto.
O professor começou.
Vamos cada um explica seu desenho. A maioria falou que tinha ido à praia ou ao Bosque dos Namorados ou para a casa da avó, então percebi que tinha dado tudo certo o meu desenho seria mais um. Chegou minha vez, “Fui à casa da minha avó no interior. Eu e meus irmãos, brincamos e fomos apanhar algodão com meus tios. Essa aqui sou eu com uma flor amarela algodão no cabelo e um tufo de algodão colhido na mão. Também usei essa sacola para colocar o algodão colhido”.
Vi
que o professor tinha gostado da minha explicação... Aí veio a
fatídica pergunta: “Qual o municipio do interior que sua avó
mora?” Respondi... “Januário Cicco!”
Pronto. Começou a
chacota. Alguns meninos da sala começaram “E sua avó é palhaça
pra morar em circo?”, “Tinha elefante no circo?”, “Quantos
leões você viu nas férias?” Eu não entendi nada.
O professor não aguentou e começou a rir. Depois, refeito das gracinhas dos alunos, começou a falar: “Vocês já ouviram falar na maternidade Januário Cicco? Ela é uma homenagem a um grande médico que viveu aqui em Natal. Ele nasceu num interior chamado São José de Mipibu/RN e se formou como médico na Bahia. Veio pra Natal no começo do século, por volta de 1906, aqui percebeu que ainda não havia serviços de saúde. Só um pequeno hospital que existia no bairro da Ribeira e que foi fechado no início do século. Se organizou, ele e outros médicos, e montaram, em uma casa de praia, aqui perto o hospital que hoje chamamos Onofre Lopes, mas que já teve vários outros nomes. Começou uma revolução na saúde em Natal. As pessoas vinham do interior e até de outras capitais se tratar aqui em Natal. Esse médico sonhava em fazer um hospital para mulheres aqui na cidade, pois naquele tempo as mulheres pariam em casa, sem nenhuma segurança. Muitos bebês e mães morriam na hora do parto”.
Parou.
Percebeu que estava falando com crianças que não faziam idéia do
que era um parto.
Falou: “Trabalho para proxima aula: trazer
uma redação sobre quem foi Januário Cicco?
Valendo ponto”.
Os
meninos olharam pra mim com ódio. Já comecei o ano com alguns
inimigos.
Fui pra casa, troquei de roupa e fui na melhor fonte
histórica que eu tinha acesso, meu google dos anos 80: minha mãe.
Perguntei. “Mamãe, quem foi Januário Cicco?”. Minha mãe disse:
“Foi um médico, dono da maternidade que eu tive Luizinho. Eu
disse: “Tenho que fazer um texto pra apresentar na aula, o
professor disse que valia ponto”. Aí ela se aperreou. “Vamos ver
com as vizinhas se alguém sabe algo sobre ele. Meu Deus!! Seu
professor acha que eu não tenho o que fazer não?”.
Fomos nas vizinhas, ninguém sabia nada. Até chegarmos a casa de dona Céu. Era uma senhora já bem velha, que falava bonito tinha sido rica, mas, ficou pobre depois que seu marido morreu. Era uma velha elegante e magra, muito magra. “Januário Cicco? Conheci. Era um homem elegante, médico, muito rico, mas enlouqueceu.” Pensei: “Pronto. Agora a história tá ficando boa”.
Começou a contar uma história muito triste. “Depois que sua filha de 25 anos morreu de tuberculose, ele e a mulher se enclausuraram em casa. A mulher não aceitava que Yvete tivesse um fim tão breve e que o marido, um médico tão renomado, não tivesse conseguido salvá-la. Morreu menos de um ano depois da filha. Dizem, que de tristeza. Isso foi por volta de 1937. Eu era uma mocinha, mas na cidade não se falava de outra coisa. Como ia ficar a grande maternidade de Natal que era um empreendimento dele? Ninguém sabia. Sabíamos que com a dor, ele também estava enlouquecendo. Ficava horas dentro do cemitério do alecrim. Mandou fazer em São Paulo, a lápide mais bonita do cemitério. Mais parece um ato de uma peça de teatro. Perdeu o gosto pela medicina, talvez até pela vida. Ele passou anos assim sem investir em mais nada. De casa pro cemitério, do cemitério pra casa. Raros pacientes eram atendidos por ele. Até que um dia, do nada ele, voltou a trabalhar e não parou mais. Ele simplesmente vivia na maternidade que, na época, era só um prédio lindo que mal havia sido terminado. Foi cedido para ser o hospital militar durante a segunda guerra. Com o fim da segunda guerra o prédio foi devolvido para a cidade e doutor Januário inaugurou lá a Maternidade de Natal. Investiu tudo no seu sonho de fundar essa maternidade. Dizem que investiu todo o dinheiro que tinha em equipamentos de ultima geração na época. As mulheres mais ricas da sociedade eram atendidas lá, mas, seu sonho era uma maternidade que atendesse mulheres que não pudessem pagar. Montou, junto com as irmãs de caridade FREIRAS DA ORDEM FILHAS DE SANT'ANA, que trabalhavam na função de enfermeiras. Tinha assim a função filantrópica. Depois mudou-se de vez para a maternidade. Mesmo porque, já vivia lá dia e noite. Levou todos os moveis da casa dele. os cristais, prataria, mesas, sofá, xícaras e tudo que tinha na casa. Dizem que ele se desfez de todos os bens e investiu tudo na maternidade, onde trabalhou até morrer”.
Fiquei assustada, falei “Coitado, podia ter casado de novo ou ido morar em outro lugar”. Dona Céu continuou: “Na época quem prestava os cuidados às pacientes, eram as freiras e doutor Januário achou melhor ocupar apenas um pequeno, mas confortável, espaço no prédio, que mais parece um castelo. Não casou de novo e não deixou herdeiros. O prédio foi construído num terreno doado pela prefeitura, portanto é público. Ele depois também foi responsável pela criação do curso de enfermagem de Natal”.
Meu Deus era muita informação. O véio foi morar no convento com as freiras e as mulheres que tinham bebês. Saímos da casa de dona Céu e fomos eu e mamãe pra casa em silêncio. Quando chegamos em casa olhei pra mamãe e disse “Coitado dele né?” Ela olhou pra mim e falou: “Não pense assim minha filha, tudo que ele passou, serviu para que voltasse sua vida totalmente para ajudar aos outros, talvez se ele não tivesse perdido tudo, ele não tivesse dado o real valor a cada mãezinha que vai à maternidade ter seu bebê. Lembre-se sempre. Deus sabe de todas as coisas”.
Ao meu professor, escrevi apenas que doutor Januário Cicco foi um grande médico, responsável pela criação da maternidade e que era também responsável pela criação do curso de enfermagem de Natal.
Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br


Lindo! Obrigada por me proporcionar uns minutinhos de leitura deleite.
ResponderExcluirIrretocável como sempre!
ResponderExcluir