segunda-feira, 24 de março de 2025

Sobre sofrer dos nervos



Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está? 

E aprendemos a responder a essa pergunta com uma frase: 

— Bem, obrigada. 

Quando vou a esse médico as vezes penso em gritar em voz alta: 

— Estou péssima! 

Meu coração tem horas que quase sai pela boca, boca que quase sempre está seca, seca como quando se está com muito medo, medo que te deixa suspenso  do chão, igual ao que se sente quando se está diante de um abismo... 

Um medo tão forte e apavorante que me paraliza.

Não gosto da expressão transtorno mental,  prefiro a forma quase poética que se falava antigamente,  sofrer dos nervos. 

Porque no final é isso é um sofrer de nervos que não termina nunca, quando você acha que está melhor alguém atrasa, alguém adoece, alguém morre e tudo é gatilho, gatilho que é quase como um tiro certeiro invadindo a alma, inundando o coração de sentimentos.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Os amendoins de vovó

 



Eu estava num ônibus indo para o interior com minha avó. Ela tinha a mania de chupar confeitos de hortelã que eu detestava, só tinha gosto de pasta de dente com açúcar. Minha mãe tinha deixado ela me levar pro interior passar o recesso escolar de junho, mês de chuva por essas bandas. O ônibus era um pinga-pinga. Parava em quase todas as cidades. Paramos na cidade de Macaíba, um senhor se aproximou oferecendo beiju e amendoim torrado. Também tinha uns pacotinhos de papel com amendoins crus. Minha vó, que já havia comprado o amendoim torrado perguntou:

- Esse amendoim cru serve para plantar?
O homem disse:

- É justamente para isso que eu vendo.

A minha vó perguntou quanto era e pegou umas moedas deu ao homem e pegou o saquinho com amendoim que estavam na casca ainda. Me mostrou.

- olha como é lindo!
Eu olhei o amendoim na casca. Era bonito. Parecia um brinquedo, um bonequinho marrom. Perguntei:

- A senhora me dá um?

Ela:

- Não presta pra comer assim. Tá cru. Quando chegar em casa vou assar uns para seu avô e vou plantar outros. Ano que vem vamos ter muitas vargens de amendoim.

Na verdade eu queria um para brincar mas como eu ia explicar isso a vovó, que já tinha passado tanta fome e que levava comida tão a sério?
Meus pais sempre contavam das dificuldades da infância e que estando na casa dos avós do interior não deveríamos brincar com comida nem se negar a comer qualquer comida oferecida. Fiquei esperando chegar na casa dela para ver como ela ia fazer para descascar os amendoins.

Chegamos. Joguei a bolsa num tamborete na sala, corri pro quintal. Estava tudo lá. A cabra belinha, amor da minha avó; o pé de goiaba que nunca deu goiabas, talvez por não ser uma planta do sertão; o cajueiro, que dava cajus tão azedos que só servia pra suco e todas as ervas medicinais: hortelã, capim Santo e o lindo pé de corama. Amava ficar num balanço que tinha no cajueiro olhando todas aquelas plantas cheirosas. Às vezes, escondida, tirava uma folhinha de capim Santo só pra ficar cheirando.

Esqueci o amendoim.

No dia seguinte ela descascou os amendoins, torrou e fizemos a festa. Principalmente meu avô, que ficou todo feliz com a surpresa. Depois ela pegou algumas sementes e plantou num vaso grande no quintal. Disse:

- Quando você vier no final do ano, vamos colher muitas vargens de amendoim.

Pensei: “que bom”. Mas em geral não respondia a vovó. Fiquei observando ela plantar cuidadosamente as sementes e aguá-las. Sai do quintal e fui brincar com as primas, duas semanas depois voltei para casa.

Esqueci os amendoins.

Só voltei ao interior no ano seguinte. Onde vovó plantou os amendoins, tinha uma plantinha como um pé de feijão, mas sem vargens.

Perguntei:

- A senhora já colheu os amendoins?

Ela explicou que não tinha dado, Talvez pelo ano não ter sido bom de chuva. Ela tava doentinha tinha pego uma doença esquisita que ninguém dizia o nome. Meu avô que era um homem bem-humorado com muitas piadas prontas, depois que ela tirou um dos seios ele ficou silencioso, quase não sorria. A casa estava triste, mas as plantas verdinhas. Acho que ele estava aguando as plantas pra ela, porque ela estava muito fraquinha e ficava direto viajando pra fazer o tratamento na capital.

No ano seguinte fui novamente no interior. Vovó não estava mais conosco, não tinha vencido a doença. Quando cheguei na casa dela parecia que não tinha mais graça. Vovô ficava só trabalhando, não brincava, não sorria, mal falava.

Fui no quintal. O cajueiro e a goiabeira estavam lá, mas as outras plantas estavam murchas peguei a cuia de aguar e fui no tonel. Peguei água e fui jogando devagarzinho, como ela fazia. Vi o vaso dos pés de amendoim. A planta estava seca, completamente morta. Derrubei o vaso na intenção de desocupar para poder botar outra planta. Botei de boca pra baixo, nada da arreia cair chamei mamãe:

- Essa planta ta murcha, vamos desocupar o vaso pra plantar outra planta nele?

Mamãe tentou também tirar a areia barrada do vaso. Nada. Botou de boca pra baixo e balançou. Balançou tanto que suou. Vovô chegou e disse:

- Deixe isso aí. Depois eu ajeito.

Mamãe, que preferiu desistir, foi levantar o vaso de novo e, pra sua surpresa, ele quebrou em duas bandas. Não caiu um grão de areia, da mesma forma. Dentro tinha uma quantidade imensa de amendoins. Pareciam bonequinhos. Pegamos um cesto e colocamos todos.

Vovô intrigado disse:

- Não era de vargem? Era de raiz, igual batata? Por isso não produzia.

Deu uma risada.

- Meu Deus! E ela esperou tanto por esses amendoins.

Ficamos rindo ao lado do cesto cheio de amendoins.

Saudades, vovó. Saudades, vovô.

Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia 

Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Balanço do ano de 2023


Tive ganhos e perdas.

Dores inexplicáveis.

Tristezas na mesma intensidade das alegrias.

Perdi minha Mãe, chorei feito criança.

Perdi amigos também. Que Deus os guarde.

Perdi amizades, pacientes, dinheiro...

Na mesma proporção, ganhei.

 
Ganhei amigos, dinheiro, escrevi um livro, plantei mais árvores, plantei e colhi muitas flores, ganhei muitos beijinhos da minha neta e muitos abraços de amigos queridos.

Nesse ano, vi pessoas cobertas de ouro, mas sem nenhum brilho. Ao mesmo tempo que vi pessoas simples, que por suas atitudes, valem muito mais que ouro pra mim.

Termino agradecendo a todos pela paciência, tolerância, respeito, carinho e amor com o qual me trataram. Desejando também um ano novo brilhante, cheio de descobertas, conquistas, saúde, alegria, força, discernimento e uma cervejinha de vez em quando que ninguém é de ferro. 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Quem foi Januário Cicco?

 


Primeiro dia de aula. Caderno, lápis e livros novos. Naquele ano, até uma mochila eu ganhei. Tudo com um cheirinho de novo. O professor Severino, um idoso agradável, começou a falar, discursou sobre a importância das férias para as crianças e como era importante que cada aluno tivesse um vinculo com o outro... Pediu para que guardassem o material. Entregou uma folha em branco pra cada e pediu para que fizéssemos um desenho sobre as férias. O que a gente tinha visto de bonito ou algum passeio feito.

Eu respirei fundo, tinha passado as férias na casa da minha avó. Lá não tinha nada demais. só galinhas, sacas e sacas de feijão e farinha e um monte de crianças que eram levadas para passar as férias com os avós no interior. Olhei os colegas todos desenhando o mar, peixes e casinhas com montanhas atrás. Nesse momento pensei vou desenhar uma casa e vou botar umas crianças brincando ao redor. Pronto vai ficar ótimo. Comecei e por um momento lembrei da ida para apanhar algodão. Nossa!!! Cheguei a sentir o cheiro dos pés de algodão e a sensação de pegar cada flor madura, no caso tufos, de algodão. Desenhei a casa, as crianças e eu com uma sacola e um tufo de algodão na mão, pronto.

O professor começou.

Vamos cada um explica seu desenho. A maioria falou que tinha ido à praia ou ao Bosque dos Namorados ou para a casa da avó, então percebi que tinha dado tudo certo o meu desenho seria mais um. Chegou minha vez, “Fui à casa da minha avó no interior. Eu e meus irmãos, brincamos e fomos apanhar algodão com meus tios. Essa aqui sou eu com uma flor amarela algodão no cabelo e um tufo de algodão colhido na mão. Também usei essa sacola para colocar o algodão colhido”.

Vi que o professor tinha gostado da minha explicação... Aí veio a fatídica pergunta: “Qual o municipio do interior que sua avó mora?” Respondi... “Januário Cicco!”
Pronto. Começou a chacota. Alguns meninos da sala começaram “E sua avó é palhaça pra morar em circo?”, “Tinha elefante no circo?”, “Quantos leões você viu nas férias?” Eu não entendi nada.

O professor não aguentou e começou a rir. Depois, refeito das gracinhas dos alunos, começou a falar: “Vocês já ouviram falar na maternidade Januário Cicco? Ela é uma homenagem a um grande médico que viveu aqui em Natal. Ele nasceu num interior chamado São José de Mipibu/RN e se formou como médico na Bahia. Veio pra Natal no começo do século, por volta de 1906, aqui percebeu que ainda não havia serviços de saúde. Só um pequeno hospital que existia no bairro da Ribeira e que foi fechado no início do século. Se organizou, ele e outros médicos, e montaram, em uma casa de praia, aqui perto o hospital que hoje chamamos Onofre Lopes, mas que já teve vários outros nomes. Começou uma revolução na saúde em Natal. As pessoas vinham do interior e até de outras capitais se tratar aqui em Natal. Esse médico sonhava em fazer um hospital para mulheres aqui na cidade, pois naquele tempo as mulheres pariam em casa, sem nenhuma segurança. Muitos bebês e mães morriam na hora do parto”.

Parou. Percebeu que estava falando com crianças que não faziam idéia do que era um parto.
Falou: “Trabalho para proxima aula: trazer uma redação sobre quem foi Januário Cicco?
Valendo ponto”.

Os meninos olharam pra mim com ódio. Já comecei o ano com alguns inimigos.
Fui pra casa, troquei de roupa e fui na melhor fonte histórica que eu tinha acesso, meu google dos anos 80: minha mãe. Perguntei. “Mamãe, quem foi Januário Cicco?”. Minha mãe disse: “Foi um médico, dono da maternidade que eu tive Luizinho. Eu disse: “Tenho que fazer um texto pra apresentar na aula, o professor disse que valia ponto”. Aí ela se aperreou. “Vamos ver com as vizinhas se alguém sabe algo sobre ele. Meu Deus!! Seu professor acha que eu não tenho o que fazer não?”.

Fomos nas vizinhas, ninguém sabia nada. Até chegarmos a casa de dona Céu. Era uma senhora já bem velha, que falava bonito tinha sido rica, mas, ficou pobre depois que seu marido morreu. Era uma velha elegante e magra, muito magra. “Januário Cicco? Conheci. Era um homem elegante, médico, muito rico, mas enlouqueceu.” Pensei: “Pronto. Agora a história tá ficando boa”.

Começou a contar uma história muito triste. “Depois que sua filha de 25 anos morreu de tuberculose, ele e a mulher se enclausuraram em casa. A mulher não aceitava que Yvete tivesse um fim tão breve e que o marido, um médico tão renomado, não tivesse conseguido salvá-la. Morreu menos de um ano depois da filha. Dizem, que de tristeza. Isso foi por volta de 1937. Eu era uma mocinha, mas na cidade não se falava de outra coisa. Como ia ficar a grande maternidade de Natal que era um empreendimento dele? Ninguém sabia. Sabíamos que com a dor, ele também estava enlouquecendo. Ficava horas dentro do cemitério do alecrim. Mandou fazer em São Paulo, a lápide mais bonita do cemitério. Mais parece um ato de uma peça de teatro. Perdeu o gosto pela medicina, talvez até pela vida. Ele passou anos assim sem investir em mais nada. De casa pro cemitério, do cemitério pra casa. Raros pacientes eram atendidos por ele. Até que um dia, do nada ele, voltou a trabalhar e não parou mais. Ele simplesmente vivia na maternidade que, na época, era só um prédio lindo que mal havia sido terminado. Foi cedido para ser o hospital militar durante a segunda guerra. Com o fim da segunda guerra o prédio foi devolvido para a cidade e doutor Januário inaugurou lá a Maternidade de Natal. Investiu tudo no seu sonho de fundar essa maternidade. Dizem que investiu todo o dinheiro que tinha em equipamentos de ultima geração na época. As mulheres mais ricas da sociedade eram atendidas lá, mas, seu sonho era uma maternidade que atendesse mulheres que não pudessem pagar. Montou, junto com as irmãs de caridade FREIRAS DA ORDEM FILHAS DE SANT'ANA, que trabalhavam na função de enfermeiras. Tinha assim a função filantrópica. Depois mudou-se de vez para a maternidade. Mesmo porque, já vivia lá dia e noite. Levou todos os moveis da casa dele. os cristais, prataria, mesas, sofá, xícaras e tudo que tinha na casa. Dizem que ele se desfez de todos os bens e investiu tudo na maternidade, onde trabalhou até morrer”.




Fiquei assustada, falei “Coitado, podia ter casado de novo ou ido morar em outro lugar”. Dona Céu continuou: “Na época quem prestava os cuidados às pacientes, eram as freiras e doutor Januário achou melhor ocupar apenas um pequeno, mas confortável, espaço no prédio, que mais parece um castelo. Não casou de novo e não deixou herdeiros. O prédio foi construído num terreno doado pela prefeitura, portanto é público. Ele depois também foi responsável pela criação do curso de enfermagem de Natal”.

Meu Deus era muita informação. O véio foi morar no convento com as freiras e as mulheres que tinham bebês. Saímos da casa de dona Céu e fomos eu e mamãe pra casa em silêncio. Quando chegamos em casa olhei pra mamãe e disse “Coitado dele né?” Ela olhou pra mim e falou: “Não pense assim minha filha, tudo que ele passou, serviu para que voltasse sua vida totalmente para ajudar aos outros, talvez se ele não tivesse perdido tudo, ele não tivesse dado o real valor a cada mãezinha que vai à maternidade ter seu bebê. Lembre-se sempre. Deus sabe de todas as coisas”.

Ao meu professor, escrevi apenas que doutor Januário Cicco foi um grande médico, responsável pela criação da maternidade e que era também responsável pela criação do curso de enfermagem de Natal.


Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia 

Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br


sábado, 14 de outubro de 2023

Piscar de olhos

 



Descobri que a vida é um piscar de olhos.

Na infância enquanto empinava pipa, Pisquei e já era adolescente namoradeira e atrevida e por atrevimento resolvi piscar de novo. Quando abri estava casando, na igreja, apaixonada, marido de terno, igreja enfeitada com flores naturais direito a celebração Padre Sabino, testemunhas e meu irmão tocando a macha nupcial… Agora era aproveitar a festa.

Depois da festa... pisquei e acordei mãe. Nossa, que amor é esse? O bebê chorava, sujava as fraldas, mamava muito e de cansada eu pisquei de novo...

Outro bebê. Mais calmo e agora eu já sabia ser mãe e os amava tanto que decidi que seriam só os dois.

Muita dificuldade. Agora eram duas crianças e só o meu marido trabalhando.

Por necessidade, pisquei de novo. Acordei trabalhando. Pouco dinheiro, sem ter como me virar em três: mãe, mulher, trabalhadora... Resolvi piscar conscientemente. Fechei os olhos e pensei em estudar. Já que tinha que ser três, por que não ser quatro?

Acordei. Pisquei. Quero ser funcionaria pública. Dessa vez não pisquei. Na verdade quase não dormia. Trabalho de dia, filhos e marido a noite, mas, na madrugada, era minha hora de estudar. Cinco e meia hora de começar tudo de novo...

Passei, pisquei, passei, pisquei, passei. Três concursos. Agora posso piscar. Dessa vez conscientemente. Acordei com três empregos. Hora da pedir pedir exoneração de um emprego público, o sonho de tanta gente. Nesse momento também Perdi minha amada irmã, um sobrinho amado que não chegou a nascer e quase perdi, outro que talvez não conseguiu nascer. Deu certo. Nasceu prematuro mas, bem e trouxe com ele uma sensação de calma, apesar do caos, dessa vez para piscar me enchi de medicação.

Por precisão pisquei. Acordei numa Pandemia, minha filha já casada, grávida; não pude acompanhar nada mais. Longe de mim, que trabalhava com covid-19, segura, a gravidez da minha filha seria normal. Parto bem sucedido, quatro quilos e quatrocentas gramas de lindeza. 

Eu olhei aquele bebê e em nada diferenciava dos outros. Não senti nada.

Pensei em piscar de novo, mas, perderia a melhor fase da minha neta... Psiquiatra, desmame, a medida que a medicação saia, o amor crescia e as tristezas também. Tinha que aguentar. Vê-la falando as primeiras palavras, dando os primeiros três passinhos sem se segurar aos dez meses na nossa sala, que, com ela, estava parecendo cada dia menor, resolvi fazer uma casa maior, com espaço pro velocípede e pros beijos de vó, que agora eu podia sentir, são sim os mais doces.

Preparada para piscar de novo. Acordei agora funcionária pública, escritora, com uma casa na beira do mar, que cabe a neta com seu velocípede, os filhos, nora e genro, galinhas, cachorro, árvores e bolos quentinhos. Tudo parece organizado. Dessa vez piscarei com orgulho das conquistas, feliz e realizada.

Essa aventura entre uma piscada e outra também me trouxe vários problemas de saúde: fibromialgia, depressão, vesícula, miomas, histerectomia... Me preparando para a velhice.

Por isso resolvi escrever, para dizer cada vez que se tem a intenção, ou se percebe que é hora de piscar, que devemos ter um desejo em nosso coração. Pisquem, pisquem e sonhem. Agora vou ajudar meu marido (o mesmo de trinta e poucos anos atrás) a matar uma galinha caipira para o almoço... e me preparar para as próximas piscadelas.

Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia 

Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

"Quatro olhos"

 


Depois da mudança para Mãe Luíza, nós experimentamos o caos social. Não imaginávamos o que era ter tanto vizinho. Uns cordiais e afetivos, outros distantes e arredios, mas a imensa maioria era com toda certeza formada por curiosos.

Como mamãe só nos deixava sair a noite, muitas das crianças ficavam no portão perguntando tudo sobre a gente, com certeza para passarem o relatório mais tarde para os pais.

Perguntavam onde nosso pai trabalhava, o nome e a idade da gente, porque tínhamos nos mudado, qual escola a gente ia estudar... E respondíamos a todos os questionamentos, até que um dos meninos que estava a uma certa distância perguntou: “Quantos anos o "quatro olhos" tinha?”

Ficamos, eu e minha irmã caladas e irritadas com a falta de respeito do rapazinho. Minha irmã perguntou: “Que quatro olhos?” Ele disse: “O de óculos.”

Minha irmã ficou furiosa. Se pudesse, teria pulado o portão. Resmungou “Ele me paga.” Dai pra frente começaram a chamar meu irmão mais velho de “quatro olhos”. Passaram o dia no portão. De vez em quando gritavam: “Quatro olhos”.

Anoiteceu, jantamos e como de costume fomos liberados para brincar na rua. As meninas vizinhas estavam pulando “academia”, nome conhecido da “amarelinha” em outros locais do país. Foi pra onde eu fui e os meninos “garrafão” que era uma brincadeira que um batia um no outro. Foi pra onde minha irmã foi, dizendo logo “Quero brincar”. Desisti da academia. Já fazia ideia do que ela ia fazer. Fiquei sentada num tronco de coqueiro que usávamos como banco e pensei “vai já começar”.

Não demorou, Tonho, o que tinha dado o apelido ao meu irmão, foi brincar no garrafão. Pensei: “Não vai prestar”. Sandra se tornou o “tica” esperou todos entrarem no garrafão, gritou tô indo foi para dentro e todos ficaram fora pulando de um pé só. Ela se aproximou de Tonho e não tocou nele mas disse “TICA!”. Todos foram pra cima de tonho. Quanto mais ele dizia que ela não tinha ticado, mas eles batiam nele até que ele conseguiu correr até o poste e gritar SALVO. Aí, em tese, o jogo começaria novamente mas, depois de salvo, o menino foi pra cima da minha irmã: “Você não me ticou”. Ela falou: “Eu sei. Era só pros outro meninos bater em você. Chame meu irmão de “quatro olhos” de novo…” - em tom sarcástico. E gritou: “Saindo do jogo”.

O Tonho, puto, foi pra cima, tentar bater nela. Foi pior. Sandra atracou-se com ele e acho que a raiva que ela estava saiu todinha na performanse da luta. Ela atracou Tonho com as perna e não sei como deixou ele de bruços no chão e ficou dando socos na cabeça dele por trás.

Se formou uma redoma de crianças entre os dois “Ninguém interfere!” - Era só o que ela queria. Soltou o menino que era bem maior que ela. Bora de murro ela disse. Acho que nesse momento ele percebeu que ela não ia parar e correu. Todos começaram a rir “Eita! Apanhou da menina! Tenha vergonha! Você, um homem, apanhar de uma menina”.

Sandra passou a mão na roupa e simplesmente foi brincar de elástico com as outras meninas. O menino chegou perto de onde eu estava e pegou uma pedra. Um caco de telha e jogou atingindo em cheio a cabeça da minha irmã.

Pronto a coisa ficou séria. Quando percebi, já estava mamãe, papai e todos os adultos da rua. As outras crianças gritando “é sangue!”. O rosto de Sandra banhado em sangue e ela não chorou. Só apontou para o menino e disse: “Foi ele.” - O homem, que era pai do menino, agarrou ele pelo braço: “Foi você?” - Ele disse: “fui” – O pai: “Vá pra casa vou com os pais da menina para o hospital. Reze para que tudo dê certo. Quando eu chegar em casa a gente conversa.”

Nesse momento, já tinha uma multidão na rua. Todas as crianças foram pra dentro de casa e meus pais e o homem foram para o hospital com Sandra. Tentei esperar ela chegar. Adormeci. Pela manhã quando acordei ela estava do meu lado na cama, eu disse:

- Doeu?

Ela disse:

- Acho que o pai dele deve ter dado uma surra nele. Não doeu não. Eu estava com o sangue quente e quando cheguei no hospital o doutor era bonzinho. Tirou o pano com gelo e fez cinco pontos. Não doeu, mas ele teve que raspar minha cabeça no lugar da costura. Quando o pai dele perguntou como isso tinha acontecido eu disse que ele tava chamando Dinho de quatro olhos. Ele ficou calado. depois disse que quando chegasse em casa resolvia esse problema.

Eu disse:

- Eu vi que você não ticou.

Ela respondeu:

- Mas ele ticou no meu irmão, quero ver ele com sorrisinho agora.

Passamos uns dias sem ver esse menino circular por perto da nossa casa. Depois da briga ninguém mais chamou Dinho de “quatro olhos” e Sandra poucos dias depois tirou os pontos e mostrava com orgulho a cicatriz.

Texto: Sônia Borges. Instagram: @id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges. @lulaborges.br

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Hey, boy!

 


Uma das coisas que eu mais tinha curiosidade na infância era entender outras línguas. Minha vontade era chegar logo na quinta série para aprender inglês. Quase ninguém chegava a quinta série naqueles idos anos de 1980 e era uma das minhas metas.

Um dia, eu tinha uns sete anos, surgiram na casa vizinha a nossa, dois casais de militares. Aqui em Natal é muito comum militares virem de varias partes do pais morar aqui. Eles eram jovens e estavam quase todos os dias em casa. Jogavam bola e, uma vez, perguntaram se mamãe se incomodava deles botarem uma rede de voley num espaço entre o quintal de mamãe e a frente da casa deles. Ela disse que não se importava.

Começou uma revolução nas redondezas. Todos queriam jogar voley. Os rapazes sempre jogavam em lados opostos, suas esposas também jogavam e, de vez em quando, eles combinavam com os garotos próximos, um horário para jogar.

Certo dia o jogo durou a tarde toda. Um dos garotos foi chamado pela mãe e desfalcou o time. O militar gritou

-Ei boy, num quer ficar nesse time não?

Foi a primeira vez que ouvi a palavra BOY. Pronto. Perguntei a meu irmão que já estava na quinta série o que é boy? Ele disse significa “garoto” ou “menino”.

Perguntei.

- E porque ele não chamou garoto ao invés de boy?

Meu irmão disse:

- É uma gíria!

O tempo passou e eu sempre ouvia as pessoas chamando meninos de boy. Cheguei a quinta série. Realmente, boy era menino. Nada de novo e agora a novidade era que menina era girl e não boyzinha, como tinha ouvido nas gírias.

Isso foi na década de 1980, quando, também, um homem passava todos os dias trocando “Um cabo de vassoura por um pacote de sal”.

Gritava:

- Eiii BOY, troco um cabo de vassoura por um pacote de sal.

Novamente o boy que ninguém explicava.

O tempo passou e esse termo ficou cada dia mais comum. Era normal se referir a garotos e garotas dessa forma.
Um dia, conversando com meu sogro, ele disse que não gostava da palavra “tchau”, que tinha abuso quando alguém dizia isso pra ele.

Eu falei:

- E na sua época, como as pessoas se despediam?

Ele falou:

- Até logo... Até mais... até amanhã...

Eu nunca tinha parado pra pensar que, talvez, “tchau” fosse uma gíria nova que surgiu depois da segunda guerra, como ele falou. E nisso, um assunto puxando o outro, eu falei não gosto de boy, Acho chato... Não sei de onde surgiu esse hábito.

Ele falou:

- Eu sei! Mas não gosto de falar sobre isso.
- Agora o senhor vai falar! Bora, conte!

- Ele começou na segunda guerra. De repente, chegou uma multidão de militares aqui na cidade, passaram apenas 2 ou 4 anos, mas nesse pouco tempo, a população de Natal dobrou. Tinha emprego principalmente na construção civil. Construíram em pouco tempo a base aérea de Parnamirim, as principais avenidas próximas ao centro de Natal e viviam nos cabarés, principalmente das rocas, onde nasci.

- Eu morava na rua do areal e rapidamente vi ser construída a rampa e, no canto do mangue, fizeram várias reformas a cidade misturava português com inglês e a gente fingia entender o que eles diziam e eles nos tratavam com um certo respeito. Na época eu tinha uns doze anos, fui criado por minha avó que lavava roupas de ganho. Eu estudava a tarde e, pela manhã, ia ajudar a ela levando a trouxa e aproveitava para tomar banho no rio Potengi.

- Um dia estávamos eu e meus amigos tomando banho no rio, com a maré baixa. Os colegas resolveram atravessar o rio a nado era um desafio comum, mas como minha vó não deixava eu atravessar. Ficava nadando por ali mesmo. Meus colegas se prepararam e os militares estavam próximos e ouviram a gente conversando sobre nadar até a redinha e voltar.

- Um dos militares brasileiros falou para eles o que faríamos e um militar apostou que nadaria até a outra margem e chegaria mais rápido que a gente. Tinham umas moças com eles e eles queriam se “amostrar” pra elas. Meninos que éramos, acostumados a atravessar, dissemos que não tínhamos dinheiro. Eles apostaram entre si, rindo como se mangando da gente.

- E largamos! Os militares saíram na frente. Eles nadando bonito como em um filme, os dois amigos meus nadavam normal, sem muita técnica. Quando chegou na correnteza do rio, foram bem devagar e passaram. Era a parte mais difícil. Chegaram na redinha e ficaram olhando os militares brigando com a correnteza.

- Como a gente aprendia cedo que “água não tem cabelo”, os meninos rapidinho voltaram com medo da maré encher, mas passaram longe de onde os militares estavam. Outros já tinham ido ajudar os dois primeiros. E os meninos passaram por longe. Rapidinho chegaram de volta na margem e ficaram rindo dos americanos, vermelhos feito camarão. Bravos por não terem chegado na redinha.

- Ficamos rindo na margem do rio. Uns rindo dos outros e falando boys, boys, boys. Os militares estavam enfurecidos e apontavam pros meus colegas como que falando palavrões em inglês a única coisa que entendiamos era boy. Um dos rapazes veio em nossa direção, nos entregou um pouco de dinheiro e pediu para irmos embora. Fomos, pegamos o dinheiro e compramos cajuína e soda preta e rimos muito dessa história.

- Mas começamos a perceber que os militares americanos chamavam todos os trabalhadores de boys. os garotos nas ruas e até os que os senhores mais velhos. Todos eram boys. Eles não se referiam como “aqueles brasileiros” ou “aqueles senhores”, eram só boys.

- O tempo passou. Eles foram embora aos poucos. Os cabarés foram empobrecendo de novo. A cidade com a população duplicada e eu agora já quase um homem, caminhando pelo porto, ao passar por alguns poucos americanos que restavam, me chamaram “Hey boy, tira aqui uma foto!”.

- Depois da foto tirada, eles se foram pelas ruas acima e eu fiquei ali no porto, observando os gringos. Era assim que os chamávamos agora, gringos. O prático, muito amigo de minha vó, veio até mim, conversou um pouco e eu perguntei a ele: o que é boy? O prático, um senhor de pouco estudo, mas, muito viajado disse: “isso não é assunto pra você, é só garoto mesmo”. Como dizem, um dia quando você for adulto te explico. Eu tinha 16 anos, disse: “vou cobrar”.
- Algum tempo depois, os militares foram todos embora. Em 1960, eu já homem, com meu filho de lado, reencontrei o prático. No meio da conversa perguntei: “E aí? Agora já pode me dizer o que é boy?” Ele disse: “Agora posso. Boy é como os americanos chamam os negros na América. Pode ser menino ou velho, eles lá não se misturam. Por isso não tinha militar negro americano aqui. É uma forma de colocar os outros num lugar abaixo do deles. Por isso na época eu jamais diria, porque alguns de nós aqui no Brasil se considera branco... Mas pra eles, não passávamos de boys”.
Fiquei chateado, mas, enfim, eles foram embora e ficou a gíria. Depois, como ninguém sabia como era moça em inglês começaram a chamar de boyzinha. E assim ficou.
Fiquei atônita com a historia. Como assim, eles nos tratavam desse jeito e ninguém nos explicou?

Eu fiquei realmente perplexa, mas, já adulta, sabia bem sobre racismo e falava abertamente sobre isso com meus filhos e marido. Nunca aceitei que fossem tratados de forma diferente por serem negros.

Lembro de uma lição de Deddy King, pai de Martín Luther King, que, ao ser parado por um policial que, ao pedir seus documentos, o chamou de boy. Ele, na hora, respondeu.

- Boy é meu filho. Esse menino que está aqui é um boy. Eu sou um homem!

Mesmo correndo risco de ir preso, não se deixou ser tratado de forma humilhante. Seu filho se tornou um ícone na luta anti-racismo dos Estados Unidos da América. Repetiu muitas vezes a frase “Não me importa quanto tempo vou ter que viver com esse sistema. Eu nunca vou aceita-lo. Lutarei contra ele até morrer”.

Aqui em Natal-RN, essa gíria atravessou gerações e, hoje, é comum falarmos boy e boyzinha em geral nos referindo a crianças e adolescentes.

Jamais de forma pejorativa.

Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...