Uma das coisas que eu mais tinha curiosidade na infância era
entender outras línguas. Minha vontade era chegar logo na quinta
série para aprender inglês. Quase ninguém chegava a quinta série
naqueles idos anos de 1980 e era uma das minhas metas.
Um dia, eu tinha uns
sete anos, surgiram na casa vizinha a nossa, dois casais de
militares. Aqui em Natal é muito comum militares virem de varias
partes do pais morar aqui. Eles eram jovens e estavam quase todos os
dias em casa. Jogavam bola e, uma vez, perguntaram se mamãe se
incomodava deles botarem uma rede de voley num espaço entre o
quintal de mamãe e a frente da casa deles. Ela disse que não se
importava.
Começou uma
revolução nas redondezas. Todos queriam jogar voley. Os
rapazes sempre jogavam em lados opostos, suas esposas também jogavam
e, de vez em quando, eles combinavam com os garotos próximos, um
horário para jogar.
Certo dia o jogo
durou a tarde toda. Um dos garotos foi chamado pela mãe e desfalcou
o time. O militar gritou
-Ei boy, num quer
ficar nesse time não?
Foi a primeira vez
que ouvi a palavra BOY. Pronto. Perguntei a meu irmão que já
estava na quinta série o que é boy? Ele disse significa
“garoto” ou “menino”.
Perguntei.
- E porque ele não
chamou garoto ao invés de boy?
Meu irmão disse:
- É uma gíria!
O tempo passou e eu
sempre ouvia as pessoas chamando meninos de boy. Cheguei a
quinta série. Realmente, boy era menino. Nada de novo e agora
a novidade era que menina era girl e não boyzinha,
como tinha ouvido nas gírias.
Isso foi na década
de 1980, quando, também, um homem passava todos os dias trocando “Um
cabo de vassoura por um pacote de sal”.
Gritava:
- Eiii BOY,
troco um cabo de vassoura por um pacote de sal.
Novamente o boy
que ninguém explicava.
O tempo passou e
esse termo ficou cada dia mais comum. Era normal se referir a garotos
e garotas dessa forma.
Um dia, conversando com meu sogro, ele
disse que não gostava da palavra “tchau”, que tinha abuso quando
alguém dizia isso pra ele.
Eu falei:
- E na sua época,
como as pessoas se despediam?
Ele falou:
- Até logo... Até
mais... até amanhã...
Eu nunca tinha
parado pra pensar que, talvez, “tchau” fosse uma gíria nova que
surgiu depois da segunda guerra, como ele falou. E nisso, um assunto
puxando o outro, eu falei não gosto de boy, Acho chato... Não
sei de onde surgiu esse hábito.
Ele falou:
- Eu sei! Mas não
gosto de falar sobre isso.
- Agora o senhor vai falar! Bora,
conte!
- Ele começou na
segunda guerra. De repente, chegou uma multidão de militares aqui na
cidade, passaram apenas 2 ou 4 anos, mas nesse pouco tempo, a
população de Natal dobrou. Tinha emprego principalmente na
construção civil. Construíram em pouco tempo a base aérea de
Parnamirim, as principais avenidas próximas ao centro de Natal e
viviam nos cabarés, principalmente das rocas, onde nasci.
- Eu morava na rua
do areal e rapidamente vi ser construída a rampa e, no canto do
mangue, fizeram várias reformas a cidade misturava português com
inglês e a gente fingia entender o que eles diziam e eles nos
tratavam com um certo respeito. Na época eu tinha uns doze anos, fui
criado por minha avó que lavava roupas de ganho. Eu estudava a tarde
e, pela manhã, ia ajudar a ela levando a trouxa e aproveitava para
tomar banho no rio Potengi.
- Um dia estávamos
eu e meus amigos tomando banho no rio, com a maré baixa. Os colegas
resolveram atravessar o rio a nado era um desafio comum, mas como
minha vó não deixava eu atravessar. Ficava nadando por ali mesmo.
Meus colegas se prepararam e os militares estavam próximos e ouviram
a gente conversando sobre nadar até a redinha e voltar.
- Um dos militares
brasileiros falou para eles o que faríamos e um militar apostou que
nadaria até a outra margem e chegaria mais rápido que a gente.
Tinham umas moças com eles e eles queriam se “amostrar” pra
elas. Meninos que éramos, acostumados a atravessar, dissemos que não
tínhamos dinheiro. Eles apostaram entre si, rindo como se mangando
da gente.
- E largamos! Os
militares saíram na frente. Eles nadando bonito como em um filme, os
dois amigos meus nadavam normal, sem muita técnica. Quando chegou na
correnteza do rio, foram bem devagar e passaram. Era a parte mais
difícil. Chegaram na redinha e ficaram olhando os militares brigando
com a correnteza.
- Como a gente
aprendia cedo que “água não tem cabelo”, os meninos rapidinho
voltaram com medo da maré encher, mas passaram longe de onde os
militares estavam. Outros já tinham ido ajudar os dois primeiros. E
os meninos passaram por longe. Rapidinho chegaram de volta na margem
e ficaram rindo dos americanos, vermelhos feito camarão. Bravos por
não terem chegado na redinha.
- Ficamos rindo na
margem do rio. Uns rindo dos outros e falando boys, boys,
boys. Os militares estavam enfurecidos e apontavam pros meus
colegas como que falando palavrões em inglês a única coisa que
entendiamos era boy. Um dos rapazes veio em nossa direção,
nos entregou um pouco de dinheiro e pediu para irmos embora. Fomos,
pegamos o dinheiro e compramos cajuína e soda preta e rimos muito
dessa história.
- Mas começamos a
perceber que os militares americanos chamavam todos os trabalhadores
de boys. os garotos nas ruas e até os que os senhores mais
velhos. Todos eram boys. Eles não se referiam como “aqueles
brasileiros” ou “aqueles senhores”, eram só boys.
- O tempo passou.
Eles foram embora aos poucos. Os cabarés foram empobrecendo de novo.
A cidade com a população duplicada e eu agora já quase um homem,
caminhando pelo porto, ao passar por alguns poucos americanos que
restavam, me chamaram “Hey boy, tira aqui uma foto!”.
- Depois da foto
tirada, eles se foram pelas ruas acima e eu fiquei ali no porto,
observando os gringos. Era assim que os chamávamos agora, gringos. O
prático, muito amigo de minha vó, veio até mim, conversou um pouco
e eu perguntei a ele: o que é boy? O prático, um senhor de
pouco estudo, mas, muito viajado disse: “isso não é assunto pra
você, é só garoto mesmo”. Como dizem, um dia quando você for
adulto te explico. Eu tinha 16 anos, disse: “vou cobrar”.
-
Algum tempo depois, os militares foram todos embora. Em 1960, eu já
homem, com meu filho de lado, reencontrei o prático. No meio da
conversa perguntei: “E aí? Agora já pode me dizer o que é boy?”
Ele disse: “Agora posso. Boy é como os americanos chamam os negros
na América. Pode ser menino ou velho, eles lá não se misturam. Por
isso não tinha militar negro americano aqui. É uma forma de colocar
os outros num lugar abaixo do deles. Por isso na época eu jamais
diria, porque alguns de nós aqui no Brasil se considera branco...
Mas pra eles, não passávamos de boys”.
Fiquei chateado,
mas, enfim, eles foram embora e ficou a gíria. Depois, como ninguém
sabia como era moça em inglês começaram a chamar de boyzinha.
E assim ficou.
Fiquei atônita com a historia. Como assim, eles
nos tratavam desse jeito e ninguém nos explicou?
Eu fiquei realmente
perplexa, mas, já adulta, sabia bem sobre racismo e falava
abertamente sobre isso com meus filhos e marido. Nunca aceitei que
fossem tratados de forma diferente por serem negros.
Lembro de uma lição
de Deddy King, pai de Martín Luther King, que, ao ser parado por um
policial que, ao pedir seus documentos, o chamou de boy. Ele,
na hora, respondeu.
- Boy
é meu filho. Esse menino que está aqui é um boy. Eu sou um
homem!
Mesmo correndo risco
de ir preso, não se deixou ser tratado de forma humilhante. Seu
filho se tornou um ícone na luta anti-racismo dos Estados Unidos da
América. Repetiu muitas vezes a frase “Não me importa quanto
tempo vou ter que viver com esse sistema. Eu nunca vou aceita-lo.
Lutarei contra ele até morrer”.
Aqui em Natal-RN,
essa gíria atravessou gerações e, hoje, é comum falarmos boy
e boyzinha em geral nos referindo a crianças e adolescentes.
Jamais de forma
pejorativa.