terça-feira, 21 de dezembro de 2021

A casa do Padre Sabino

Padre Sabino Gentille

Vou falar um pouco sobre a casa mais bonita que já entrei em toda minha vida, espero não decepcionar vocês com uma história sem graça; mas, não posso mentir enquanto escrevo, dá muito trabalho, depois tem que desfazer tudo de novo.

Um dia ao sair da aula eu, minha irmã e Aparecida (Fernandes), resolvemos fazer uma visita ao padre Sabino, era o padre do nosso bairro. Era lindo e, como todo homem lindo era muito fora dos padrões de um homem lindo, não muito alto, gordo, sorriso fácil, tinha um barrigão, as mãos eram amarelas de tanto fumar. Vivia preocupado com a comunidade. Isso o fez ir embora mais cedo das nossas vidas.

Ele morava numa casa confortável no pé do morro da rua Ari Barroso. A casa parecia aquelas casas da marinha. Branca, muro baixo, garagem... Decidimos passar por lá pois estávamos encenando uma peça ainda lembro o nome: Pai Francisco e irmã Clara. Chegamos, chamamos, ele veio, “como vocês estão suadas” (a escola ficava a uns 5 quilômetros de casa e íamos a pé, dinheiro para ônibus era coisa de rico). “Entrem”. Tínhamos entre 13 e 16 anos ele pediu para irmos pela cozinha pois a mulher estava limpando a sala. Ele perguntou: vocês já almoçaram?

Respondemos que não, ele foi para cozinha, tirou carne moída da geladeira, perguntou a Aparecida se ela sabia fazer um arroz, ela disse que sim, refogou o alho, jogou o arroz dentro enquanto isso ele ia cortando a verdura pra carne botou tudo na panela e retirou uma espécie de salada diferente que eu nunca tinha visto com umas coisas doces e outras salgadas. Em 15 minutos o almoço estava pronto a mulher que lavou depois a garagem foi embora. Ficamos lá sentadas em uma mesa chique com pratos de vidro, incomum em casa de pobre. Se comia na lata de goiabada ou no prato de ágata ou plástico. Me deram um garfo e uma faca para comer. Eu não fazia ideia de como se comia com aquilo.

Peguei o garfo fiz de conta que era uma colher quando ia pegando ele disse: lavou a mão? Eu era a única que não tinha me envolvido no preparo da comida, por isso não havia lavado a mão. Ele disse onde ficava o banheiro, eu fui e ao abrir a porta me deparei com o banheiro mais lindo que já tinha visto. Era todo branco menos o Box que era em L, tinha um vaso sanitário limpo, tinha um vidro que hj eu sei que se chama basculante. Tudo no lugar. Toalhinhas para enxugar as mãos depois de lavar. Deu vontade de fazer xixi, mas fiquei com medo de sujar aquele banheiro tão lindo.

Aquilo me abriu os olhos de um jeito que eu tinha ido ao banheiro no automático. Não tinha visto a casa ao meu redor, ao sair do banheiro agora de mão limpa e seca olhei para a sala, tinha uma estante de madeira escura com muitos livros. Ia do chão ao teto de livros. Um sofá lindo marrom, com mesinhas nas laterais com muitos cinzeiros cada um mais lindo que o outro. Não lembro de cortinas ou de móveis de decoração era uma casa sóbria, masculina, com piso de madeira como era comum na Itália de onde o padre tinha vindo. Fiquei ali paralisada tentando decorar cada cantinho para depois quem sabe sonhar com algo tão lindo quanto os quadros e as obras sacras que decoração aquele ambiente.

Voltei para mesa, a conversa sobre a peça já estava bem avançada, eu ali encantada ainda com tudo aquilo, peguei meu garfo e fui “pra guerra!”. Confesso. Não gostei muito da salada até hoje não gosto de pepino e picles, nem conhecia essas coisas. Comi tudo “estava uma delícia”, eu disse principalmente a carne moída. Não lembro das decisões tomada para a peça. Mas lembro do cheiro do banheiro. Depois fomos embora, Padre Sabino ficou lavando a louça.

Antes de sair não me contive e perguntei. “Padre o senhor já leu aqueles livros tudinho?”. Ele riu e disse já sim, falta só um em português que ainda não consegui traduzir direito. Sai mais
confusa do que estava. Como assim os outros dos outros países ele leu, um em português ele está tendo dificuldade. Eu hein? …

Dali para casa era mais 1 quilômetro e durante todo o percurso só se falou na forma como eu peguei o garfo. Eu dizia que eu lá sabia que tinha um jeito certo pra segurar. Nunca esqueci daquela casa.
Nunca esqueci daquela casa dos cheiros, do acolhimento, da comida feita na hora. Hoje mesmo ele sendo uma estrela grande e risonha, só tenho a agradecer-lhe por ter me recebido naquele dia.

24 comentários:

  1. Parabéns 👏 padre Sabino fez parte da minha infância. Homem íntegro e reto. Era especial amava de mais!!

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  2. 👏🏾👏🏾👏🏾

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    1. Éramos acolhidos, amados por ele, conhecia nossa história, por isso para ele era normal agir assim.

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  4. Essa crônica chegou a mim pelas mãos de uma colega professora do IFRN. Obrigada por resgatar esse episódio, Só para me situar: é Sônia, irmã de Sandra e de Lula Borges? Grande abraço! #SabinoPresente

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Sim, eu, muito feliz por ter chegado a você, espero que lembre esse episódio de nossas vidas, obrigada por ter sido 'presente' em nossas vidas.

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  5. Grande mestre Padre Sabino.
    Muito a frente de muitos especialistas da época.

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  6. Belo e emocionante relato. Nunca fui a casa do Padre Sabino, mas me senti como que também estivesse vivenciando esses momentos.

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  7. Não tive esse prazer em tê-lo conhecido, ouvi falar mas não conheci pessoalmente.

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  8. No pouco tempo que o conheci, pude perceber o quão preocupado com suas ovelhas era aquele pastor; Uma grande pessoa.

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