Na sexta, a noite ainda, se ouvia o burburinho das senhoras. BORA LAVAR ROUPA NA PRAIA. Vixe, pronto, agora as crianças não tinham paz, vou levar uma bola! Vou levar um isopor! Vou de calção (naquela época não se usava a palavra short). A gente se organizava como uma grande brincadeira, mas não era. A comunidade não tinha água encanada para todos. A maioria da população ia até o chafariz para buscar água para beber e fazer as principais necessidades de uma casa. Lavar roupa estava em último plano.
Nos juntavamos de manhã ainda madrugada, cada mulher tinha pelo menos 5 filhos ou netos, botavam a roupa suja em bacias de alumínio bem areadas e as enrolavam num lençol e desciam o morro. Saíamos em procissão, as crianças pequenas como eu eram encarregadas de levar o sabão e a Marilena (água sanitária). Os outros cada um uma sacola de roupa suja e os brinquedos que se resumiam a bola furada, pedaços de isopor para boiar e baladeiras (estilingues) para atirar pedras em lagartixa. Como divertimento, nós crianças, descíamos o morro da cruz bolando, depois subíamos de novo até as senhoras chegarem. Seguíamos a caminhada até a praia do pinto, que ficava bem mais distante que o morro em si.
Quando chegávamos elas faziam cada uma a sua cacimba ou faziam uma das grandes e as crianças ficavam encarregadas de trazer água doce (Apesar de ser na praia, cerca de 5 a 10 metros do limite, na areia, pode-se achar água doce, ao cavar um poço, ou cacimba). O barulho era inconfundível elas esfregando as roupas parecia uma sinfonia: jogavam água, passavam sabão, batiam na roupa, depois iam repetindo até formar um monte de roupa. E pegue a gente a botar água. Dona Benedita, avó do meu amigo, Ricardo (buiu) era a mais velha e fazia questão de botar as roupas para quarar, enquanto isso todos aproveitavam para tomar banho, sem a preocupação de que horas iríamos voltar pra casa.
Lá pras 10 horas era servido um lanche. Em geral as roupas já estavam lavadas, então era esperar secar. Os lanches eram em geral, rapadura, brote, broa de coco, goiabada e bolacha seca. Tudo delicioso. Cada uma levava um pouco e dava pra gente comer tudo e depois ir jogar bola. Eu nunca. Preferia ficar nos poços (entre as pedras) olhando os peixinhos e siris. Mamae, dizia “ela é doentinha por isso é assim, diferente”.
As mulheres areavam suas bacias de alumínio com areia e sabão e deixavam ao sol secando. Todas ficavam brilhando, como espelhos entre a grama, a areia e o mar.
Areavam também a gente, usavam até caco de telha para nos deixar limpinhos. Sabão e caco de telha. Chega a gente brilhava. Quando dava uma hora da tarde, as roupas estavam secas e cheirosas. Eram dobradas, colocadas uma a uma nas bacias, dessa vez elas não faziam uma trouxa, pois queriam exibir suas bacias areadas, faziam uma rodia, uma a uma eram colocadas na cabeças delas. A gente desfazia a cacimba de água doce e subia morro a cima. Cansados, com fome, queimados do sol, felizes. Alguns não tinham chinelo e o outro emprestava os seus até os pés começarem a queimar e as veias serem exibidas. Com suas bacias de alumínio na cabeça sem as segurar, dava uma postura e um rebolado, sem falar no cheiro. Tudo estava limpo inclusive nossas almas de criança.
Poucas pessoas hoje imaginam o que é pobreza. Segundo a Wikipedia, pobreza pode ser entendida em vários sentidos, principalmente: Carência real; tipicamente envolvendo as necessidades da vida cotidiana como alimentação, vestuário, alojamento e cuidados de saúde. Pobreza neste sentido pode ser entendida como a carência de bens e serviços essenciais. No entanto, mesmo não se tendo o suficiente para viver, se consegue viver com honestidade e felicidade. O que para muitos, que tem tudo essas duas últimas coisas é impossível.
Essa era a verdadeira felicidade!
ResponderExcluirComo era sofrido! E bom também.
ExcluirMuito importante esses seus escritos, recorda a felicidade inocente do nosso tempo de criança. Parabéns!
ResponderExcluirParabéns Sônia! Seus relatos são maravilhosos. Nos levam a rememorar aspectos importantes das nossas vidas, das nossas infãncias. Mesmo tendo nós sido criadas em cidades diferentes, aspectos por vc aqui retratados sâo muito semelhantes aos por mim vividos na cidade de Touros.
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