Quando criança, por volta dos 9 anos, havia um forró perto de casa. Era de sanfona, triângulo e zabumba.
Como “seu” Mané Grosso tinha um espaço, que na verdade, nada mais era que uma casa simples sem paredes dividindo, tornando-se um grande salão. O local era usado para decidir as coisas do Barro Duro (nossa localidade dentro do bairro). Era lá também que os tocadores se reuniam. Quando conseguia fugir de casa pra ir ver eles tocando, nossa era maravilhoso… Principalmente o som da sanfona. Era mágico. Eles errando e recomeçando e eu na minha cabeça desafinada brigando, não vi erro nenhum. Tudo era primitivo. Conhecimento que passava de pai pra filho.
E eu ali, órfã de Música, achando tudo lindo. Depois vários projetos que inseriam jovens na música foram lançados, meu irmão Luiz, por exemplo, aprendeu a tocar num desses. Eu nunca tive afinação. Sei nem o que é. Mas tenho bons ouvidos, sei quando uma coisa é boa e sei quando uma coisa é muito boa.
Amava ouvir a voz grave de Mané Grosso cantando e os outros atrás suados tentando acompanhar o mestre.
Outro dia fui convidada por minha sobrinha, que é musicista, na véspera de Natal, tocar clarinete em um projeto em Mãe Luiza. Confesso: não tô com espírito de Natal muito aflorado, mas, decidi ir. Chegando lá, entrei numa rua estreitinha; no final, uma casa linda com jardim e um senhor nos recepcionando na porta: “vieram pro evento?” “Sim.” “Podem subir, a direita”. O local deixa qualquer um boquiaberto de tão lindo. Tudo limpo, pessoas educadas, crianças educadas, silenciosas. Entrei no espaço do recital. Minha sobrinha já estava tocando. Coisa mais bonita de se ver. Séria, postural, quase visceral.
Nessa noite fui reinserida no meu cantinho no mundo. Faltava ouvir o que os outros garotos e garotas tinham a passar. Minha sobrinha Lauanda, com apenas 15 anos, toca perfeitamente o clarinete, instrumento de sua escolha. Ao me ver e terminar a apresentação me deu um abraço e começou a mostrar a todos “Essa é minha tia!”. Eu toda orgulhosa cumprimentei a todos com honradez.
Ela saiu e o show continuou. Pena que não consigo descrever o que foi aquilo... Tão... Lindo... Tão perfeito. Tão claro. Tão afinado, que eu passaria a vida toda ali dentro ouvindo aqueles passarinhos. Mas, foi terminando e eu sonhando em mais um pouquinho. Tudo aquilo porque alguém teve a ideia de levar música para aqueles jovens. Alguém decidiu fazer o bem.
Mas, o que é o bem? O bem? O que é o bem, afinal? Ser gentil, caridoso, empático, honesto, simpático... Ontem eu vi o bem, o bom, a bondade. Não veio de trenó, não tinha neve, nem pessoas bem-vestidas tomando champanhe em taças de cristal.
Eu vi mulheres e homens com suas roupas puídas mas limpas, sandálias e tênis simples, mas com um orgulho que não cabia no peito. Às vezes, inclusive, escorria de seus olhos em rostos vincados do sol, mas de queixo erguido vendo seus filhos e netos dando o melhor de si! E o melhor foi muito bom! Uma sinfonia de anjos. Nossa como foi lindo...
Me trouxe paz, luz, fez reacender a chama do Natal dentro da minha alma. Nesse coração veío castigado, cansado, doído, cheio de certezas infundadas. Obrigada Escola de Música de Mãe Luiza. Obrigada, anjos dos instrumentos musicais. Todos lindos com seus cabelos e roupas caprichados. Muito grata por me trazerem de volta esse sentimento que só se tem quando se escuta o som de um sax, ou a delicadeza de uma flauta.
Obrigada Padre Robério, por acreditar que é possível. É possível sim!
Feliz Natal a todos de Mãe Luiza!
Feliz Natal a todos os envolvidos.
Aplausos de pé! Vocês merecem.
Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges
Realmente a música nós traz paz,fiquei muito feliz por você ter participado do recital e ter sentido o mesmo que eu sinto todas as vezes que eu vejo eles tocarem,perfeito..
ResponderExcluirEu saí flutuando! Parabéns de novo!
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Excluir❤️👋👋👋👋👋👋
ResponderExcluir😍
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