Em todos os vilarejos, cidades pequenas e bairros, existem figuras que são caricatas ou seja, que são a cara do nosso lugar. A nossa figura era ZÉ RUIDO. Zé era negro, franzino, muito magro, ficava quieto em algum lugar até alguém lhe oferecer comida. Não pedia nunca. Ficava lá quieto, ninguém mexia com ele, ele não mexia com ninguém. Era sujo, cheio de feridas por todo o corpo; dai o apelido ZE RUÍDO. Os cabelos pareciam um ninho com uma cabeça pequena no meio.
Eu só o vi de cabelos cortados uma vez que ele teve uma grande dor de dente e o levaram para “creche” era assim que chamávamos o posto de saúde do bairro. Lá, conseguiram dar um banho nele, cortar o cabelo, fazer curativo nas feridas, embora ele só quisesse resolver a dor de dente. Depois extraíram o dente e o deixaram “internado”. Ele fugiu. Quem o viu depois da fuga disse que ele parecia uma múmia. Mas logo voltou para o canto dele onde só saia quando conseguia cachaça. Bebia, dava umas voltas pelo bairro, depois voltava ao seu lugar.
Eu, como todas as crianças do bairro tinha muito medo dele. Ele olhava para a gente com cara de que entendia nosso pensamento. Os olhos pequenos de um castanho penetrante, colocava medo em qualquer um. Seus pensamentos sempre distantes não deixavam penetrar naqueles olhos.
Um dia, junto com outras crianças fomos mexer com Zé. Como ele nunca se mexia não vi riscos. Descemos o morro da minha rua, Ari Barroso, passamos em frente a seu Mané do carvão e chegamos a toca de Zé. Começamos a gritar “Zé Ruido mamadeira, pega um bode na carreira. Zé Ruido mamadeira, pega um bode na carreira…”. Ele levantou-se, olhou pra gente. Foi a primeira vez que vi aquele olhar congelado e assustador, pegou uma pedra grande e jogou em nossa direção.
Corremos, ele correu atrás com um pau, quanto mais a gente corria mais ele corria, entrei de porta a dentro na casa de dona Juraci ele entrou junto. Pensei: vou morrer agora. Dona Juraci veio até a sala. “O que foi Zé?” Ele olhou para ela, deu um passo atrás, baixou a Cabeça. Ela disse: “Quer biscoito”. Ele acenou com a cabeça que sim.
Eu
ainda viva observando aquilo. Ela pegou um pacote de pão dormido da
mesa e uns biscoitos, botou num saco de papel e disse: “Mais tarde
vou deixar uma sopinha para você”. Ele olhou para ela. Com
respeito mostrou os dentes escuros como se encenasse um sorri
so que
não houve. Virou, saiu da casa soltou o pau na rua e provavelmente
voltou ao seu lugar.
Dona Juraci, que me conhecia, me mandou sentar no seu sofá macio, tudo na casa dela cheirava, as plantas. A cozinha, onde tudo era coberto com paninhos muito bem engomados (com ferro de passar de carvão, devido não ter energia na época). Ela me deu um copo de água e disse. Você mexeu com ele? Fiz com a cabeça que sim. Ela disse: “Não faça mais isso. Essas pessoas vieram ao mundo com um propósito. Tornar a gente pessoas melhores. Vamos fazer um acordo, a partir de agora você nunca mais mexe com ele e eu não conto nada disso para sua mãe. Eu, envergonhada, triste, assustada e principalmente cansada da carreira só acenei que sim. Ela falou: “Isso é um acordo, você tem que falar! Você promete?” Eu, dessa vez, falei em voz alta “prometo”.
Nunca mais mexi com ele. Cresci o vendo caminhar na rua quando embriagado; pular Carnaval talvez sem nem entender muito bem o que era, mais acompanhava a festa com seus passos tristes e seu olhar perdido, talvez apenas pela bebida gratuita.
Zé, foi morto, por um cara lá do bairro. Ninguém entendeu, ficamos todos órfãos daquela figura. Naquela manhã, Mãe Luiza chorou. O bairro inteiro ficou de luto, todos se perguntando “Como assim?”, “Deve ser mentira!”. Não era.
Foi enterrado pela comunidade. Mas, continua vivo nos nossos corações.
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ResponderExcluirLembro dele e da manhã de um domingo na feirinha do bairro com a notícia do seu assassinato.
ResponderExcluirFoi um dia triste, e confuso, obrigada por ler, minhas crônicas.
ExcluirParabéns pelas belíssimas narrativas coesas e informativas. Cada texto retrata e resgata uma verdade quase esquecida de um, quase paradoxo, lugar mais privilegiado de Natal com Paisagens de tirar os olhos da "cara" de tão linda e exuberante que... contracenando com a pobreza, apenas financeira, de um povo com uma visão tão rica e deslumbrante que nos faz pensar que somos ou éramos ricos pela visão privilegiada.
ResponderExcluirNOSSA! Obrigada amigo, sim, éramos ricos, hoje nos sobra uma estranheza. Nos sobra uma estranheza feliz de quem realmente viveu.
ResponderExcluirParabéns Sônia pelo texto,e por nos mostrar um pouco de suas lembranças.
ResponderExcluirMais uma vez quero parabenizá-la pelos seus relatos. Através deles estou conhecendo um pouco mais da história do povo de Mãe Luiza. Desta feita, nos remete a pensar sobre os muitos Zés Ruídos espalhados e esquecidos nas diferentes ruas e cidades do nosso país.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirIsso é como enfiar uma faca amolada na sociedade,
ResponderExcluirDiante de uma história tão forte e emocionante,me veio saudades dos bons tempos em nosso bairro tão maravilhoso Mãe Luiza.
ResponderExcluirParabéns Sônia.