domingo, 2 de janeiro de 2022

Rex tentando assistir aula



Primeiro dia de aula na Escola Nossa Senhora Aparecida em Mãe Luiza. Acordei; tomei banho; penteei os cabelos; tomei café; minha farda, impecável, já pronta do dia anterior. Na época as meninas vestiam saias e uma camisa diferente da dos meninos. Pronto estava arrumada.

– Mamãe, tô indo, benção.

– Deus te abençoe.

Eu tinha 09 anos, era uma idade que, na época, as crianças iam sozinhas para a escola e eu já tinha ido à escola, sabia direitinho como chegar. Mesmo sendo longe não era difícil o caminho e como todo mundo no bairro se conhecia naquela época, não era perigoso.

Eu saí, junto com meu irmão menor, que também ia estudar na mesma escola, vamos! Fomos o caminho todo seguidos pelo nosso cachorro Rex, era um vira-latas. Preto e branco, porte grande, tinha um olhar doce. Tínhamos pego ele já adulto. Tinha sido abandonado numa mudança, era sempre muito limpo; nisso mamãe não descuidada. Um bom cachorro, até aquele momento eu não tinha o que reclamar dele, era parte da família, viveu com a gente grande parte das aventuras da infância.

Chegamos na escola. Não podia entrar. Veio um senhor e falou “só abre as sete”. Como não tínhamos relógio, ficamos ali na calçada mesmo, junto com outras crianças que estavam esperando. Entramos. Esqueci do cachorro. Fomos todos ao pátio jurar a bandeira (naquela época era obrigatório). Todos em fila. Passou um supervisor olhando o fardamento, tudo certo começava o hino: – Salve lindo pendão da esperança... 

Todos sérios cantando em fila o professor na frente observando. O meu era seu Severino, um senhor, branco, careca, alto, magro, sempre usando roupas sociais e sapatos bem engraxados, sempre muito educado. Terminado o hino fomos levados pelo pelo professor para sala de aula. Passamos de frente ao portão de entrada, Rex me viu passando baixou os olhos e grunhiu. Fingi que não vi, passei, subi a escadaria, sentei na carteira referente ao meu número na chamada.

Na sala o professor começou a explicar. – Teremos 4 matérias: Comunicação, Matemática, Estudos Sociais e Ciências.

Nesse momento Rex aparece na porta. Me vê. Vem em minha direção deita do meu lado, parecendo que estava em casa. Eu paralisei. Não conhecia o professor ou os novos colegas ou a escola e aquele cachorro deitado do meu lado com metade da sala em pé escorado na parede com medo, assim como o professor, assustados. De repente chegou o vigia, vermelho de raiva e cansado. Subiu a escada nas carreiras atrás do cachorro. Eu lá paralisada. A confusão estava armada. De repente surgiram mais três pessoas. Uma moça muito educada perguntou. De quem é esse cachorro? Silêncio total.

Eu ali, com medo de que alguém batesse nele e as crianças das outras salas já tudo vindo ver o cachorro. Pensei “O jeito vai ser dizer que é meu! E pronto vou assumir o B.O.

Nesse momento surgiu um rapaz magrinho, deu um pequeno assobio, passou a mão na cabeça de Rex e chamou “vem garoto, bora brincar”. Rex olhou pra mim como que pedindo autorização para sair. Saiu junto com o rapaz. Foi levado ao portão e foi colocado pra fora. Nessa hora todos os alunos gritando e aplaudindo o rapaz. Me levantei e fui o olhar da escadaria. Dava pra ver, ele do lado de fora do portão sem entender. “Como assim?” Ele me chamou pra brincar? Ele tinha umas expressões que dava pra entender direitinho o que ele estava pensando.

Voltei pra sala, sentei. O professor falou que era proibido levar cachorro para a escola. O sinal da merenda tocou todos descemos ao refeitório. Um copo de uma papa deliciosa e o assunto o cachorro que queria assistir a aula do professor Severino. Ri por dentro, pensando em estudar junto com Rex. Mas também pensei que poderia ser eu o alvo das gozações, então fiquei quieta com meu irmão tomando papa e torcendo para todos esquecerem do cachorro.

Terminou o intervalo, todos subimos para a sala, o professor pediu para fazer um desenho de como tinha sido as férias, desenhei a praia e meus irmãos. O sinal tocou, acabou a aula, entreguei o desenho, fui pra sala do meu irmão, voando. Peguei ele pelo braço “vamos!!!”. Corri. Sai junto com todos os outros alunos. Rex nos acompanhava. De tantos alunos, cada criança que mudava o caminho, ele continuava com a gente. Até chegar em casa. Quando cheguei em casa, parei de frente a ele e disse.

– Você não pode ir mais para escola, eu tive medo que batessem em você, ou de ficar conhecida como a menina do cachorro. Ia ser um ano infernal, Rex, a partir de hoje você está proibido de me seguir.

Conversava várias outras coisas com ele. Era um bom amigo. Era pra ele que eu falava que papai Noel não tinha vindo aquele ano de novo, era com ele que eu subia o morro do nosso quintal pra sentir o vento que vinha da praia, eu podia falar qualquer coisa pra ele e ele me olhando, como se entendesse tudo. 

Eu falei para mamãe o que aconteceu e pedi para ela deixar sempre ele preso antes de eu ir para escola. Às vezes ao sair da aula ele estava esperando, feliz, como dizendo: – Surpresa vim buscar vocês!

Era um bom cachorro. Morreu de velhinho no cantinho dele lá no quintal. Não corria mais e até pra comer dava trabalho. Eu tinha uns 12 anos. A principal coisa que lembro da morte dele é que mamãe chorou muito e minha irmã, que era sempre de boas com as coisas, quando chegou da escola que foi dito que ele tinha morrido caiu num pranto que eu nunca tinha visto. Ela chorou com todo coração.

O que eu senti com a morte de Rex? Um vazio, mas não chorei. Tinha a certeza que ele estava sofrendo demais e que agora ele tinha se tornado um lindo cachorro anjo, jovem de novo com toda a força e belas asas brancas.


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