quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Hoje não posso, estou de plantão

 

Nunca havia entendido porque tratam o hospital como sendo uma pessoa. Exemplo quando cheguei pra trabalhar no Hospital Walfredo Gurgel, o maior hospital de trauma do RN, conheci pessoas que falavam: “No Walfredo é assim”, “O Walfredo vai entrar em greve”, “Não se preocupe você está no Walfredo”. Eu fiquei realmente intrigada com isso. Era técnica de enfermagem e ali agora era meu emprego. Não conseguia entender como e porque as pessoas tinham esse amor tão grande por esse hospital. Eu vim de um hospital particular, trabalhava e recebia meu dinheiro no final do mês bem normal como deveria ser, aqui vai ser do mesmo jeito.

Cheguei pra assumir o concurso do estado junto com uma turma grande que havia passado. Falei com a chefia que me encaminhou ao CRO  (Centro de Recuperação do Operado), subi umas escadas junto com a turma, depois passei por uma rampa, peguei o elevador que quase não cabia todo mundo, passamos por um corredor, depois por uma porta, outro corredor, chegamos numa salinha onde tinha uma mulher que dava a roupa de centro cirúrgico, colocamos a roupa, pensei, “vou trabalhar no centro cirúrgico?”. Não. Como a enfermeira havia falado, eu fui com toda a turma para o CRO, que nada mais era do que uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva), só que tinham macas junto dos leitos de UTI, pessoas conscientes e orientadas junto de pessoas entubadas e com todo tipo de doença.

Fiquei ali na ponta do birô olhando aquela cena. Parada, quase em choque. Tinham pessoas com todo tipo de curativo. Na cabeça, na perna, no braço tudo lá, deitado e falando; do outro lado, no mesmo local os de UTI grave, entubados, com todo tipo de sequela que você possa imaginar. A maioria em coma induzido. Eram muitas bombas, monitores, fios e drenos era muita informação para um segundo só, sem falar no cheiro. O odor era uma mistura de xixi e halitose, eu nunca tinha sentido ou visto um lugar tão pesado.

O enfermeiro do setor veio, nos cumprimentou um a um, deu uma risadinha e disse: – Parabéns aos novos concursados e delegou um funcionário para cada novato. Eu peguei logo amizade com a menina que me recebeu. E como eu já tinha rotina de UTI, foi fácil pegar o serviço, fiquei ali mesmo naquele setor, o difícil era o trabalho em si. 

Ao chegar naquela noite ao plantão fiquei muito feliz por está com uma equipe maravilhosa. Equipe boa é quando tudo se encaixa; cada um sabe exatamente o que fazer e faz. Não espera, não pergunta, vai là, decide, resolve. Enfim... Tudo indo bem quando de repente começou um cochichado, um muído, um conversé sem tamanho. Fiquei lá esperando que a conversa chegasse até mim, não chegou.  Sentia que tinha algo de estranho no ar. Sai do setor, peguei o corredor que dava pro vestiário e ao passar percebi que as pessoas estavam agitadas. Eu entrei no vestiário, peguei uma maçã no armário e sai em direção a copa do centro cirúrgico. Vi uma maca parada em frente ao posto de enfermagem.

O semblante das pessoas que, ao passar pela maca, mudava ao ver o rosto do paciente. As pessoas ficavam aterrorizadas ao olhar para aquela figura. Fiquei mais curiosa do que já estava, afinal no Walfredo nós estávamos acostumados a ver de tudo. As coisas mais horríveis como grandes queimados a amputações traumáticas de grande proporção. Fique sem entender do que se tratava, então me aproximei do paciente por trás da maca observei. Mãos, normal. Pernas, ok. Tronco se não fosse o filete de sangue que agora dava para ver estaria tudo certo. Seria impossível imaginar o que viria...

O homem estava com o queixo pendurado, ou melhor, sem o queixo a língua pendurada fazia voltas, se colocando em cima do pescoço, os pedaços do osso dar mandíbula ficava a mostra, no melhor estilo exterminador do futuro. Fiquei ali com a mesma cara que meus colegas ficaram.

Alguém gritou: –  Foi um tiro de 12!  – Eu continuei ali olhando o que sobrara daquele rosto. A calota craniana íntegra, olhos com expressões de medo e dor, sem saber o que estava por vir. Acordei do transe. Olhei para o chão, como que envergonhada de ter passado tanto tempo na frente do rapaz. Fui a copa, comi a maçã. Voltando passei por ele de novo, dessa vez respeitosamente olhei pro chão.

A cirurgia foi um sucesso, foram colocados pinos no lugar do queixo. E puxado o que sobrara da pele, e feito um falso queixo com pele e músculo só Deus sabe de onde. Sobre como aconteceu, uns disseram que foi um assalto que atiraram nele e outros disseram que foi os "amigos se vingando de uma dívida de drogas”. O importante é saber que ate hoje essa foi a pior imagem que já vi. Tudo no Walfredo é difícil, é difícil ver pessoas morrendo. Mas é difícil também ver as que ficam, chorando seus mortos. A pior parte é quando falta insumos e sempre falta. Medicações como antibióticos é tão comum que tem médico que quando vai prescrever de bom humor grita: Qual antibiótico tem hoje? E a gente diz qual.

Como falei, trabalho difícil. Muitos pacientes para cuidar. Pouco pessoal equipamentos quebrados; do tensiômetro ao termômetro. Tinha época que tudo faltava. Um dia chegou-se ao cúmulo de faltar dipirona. Ai não aguentei gritei para o cara da farmácia... – Paulo eu quero uma Dipirona que meu paciente está com febre! Ele prontamente respondeu. – Vou mandar fazer uma de barro pra você! Que você é melhor que os outros. – Sai de lá da farmácia rindo da minha prepotência. Quando lembro ainda rio, por sentir falta do CRO com todos os seus personagens marcantes. 

Hoje consigo entender. O Walfredo sim, se torna um personagem na vida de quem trabalha nele. Mas só quem trabalha nele entende.  Hoje não trabalho mais lá. Sinto falta do setor. Estou em outro ambiente mais leve, mas não tão leve. Afinal estamos falando do Walfredo. 

Esse colega, Paulo, morreu pouco depois desse dia, em um dos leitos do Walfredo. Gostaria de deixar aqui, minha homenagem, meu carinho, e meu respeito a esse profissional. E a tantos outros que perdemos nesta pandemia.

6 comentários:

  1. 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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  2. Minha amiga eu caminhei com vc a cada vírgula e ponto , vc é uma escritora nata envista pois vc agora tem uma fã quê por sinal amo ler!!!!!

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  3. Cada linha me reflete à cena descrita, como um filme que passa minha frente. Nosso Walfredão, só quem trabalha e vive entende a relação de amor que temos por ele. Belíssimo texto minha amiga!

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