quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Meus mestres


Eu escrevo do jeito que falo. Não como escritora, com todos os acentos gráficos ou como poeta e suas rimas milimétricas. Escrevo porque um dia aprendi com Dona Antônia, minha professora primária; Seu Severino, meu professor querido que me ensinou as pronúncias e as classes gramaticais da nossa rica língua portuguesa. Escrevo, como diria professora Leni, melhor professora de português do mundo, “escrevo vulgarmente”.

Sendo Filha de pais semi-analfabetos, fui alfabetizada já na primeira infância. Não que eu soubesse ler. Eu simplesmente fotografava os textos com meu olhos e podia explanar suavemente na frente de qualquer um. Minha professora da segunda série percebeu quando comecei a ler "Lá vai São Francisco pelo caminho, de pés descalços…". 

Ela achou intrigante que eu estivesse lendo com tamanha rapidez e me mostrou uma palavra no texto. – Soletre Francisco – Eu lembrei de cada letra e fui cantando. “F-r-a-n” ela mandou eu parar. Disse você não sabe ler. Sua inteligência é diferente mas eu quero que você aprenda a ler de verdade.

Me deu um Gibi da Mônica e disse: “você passou de ano. Mas cuidado, não diga para ninguém que você lê desse jeito”. Não disse. Aos 9 anos fui apresentada ao professor Severino. Ele era realmente um educador ímpar. Tinha muito respeito por cada aluno, falando conosco como adultos, não utilizava a língua culta comum das escolas da época. Talvez fosse discípulo de Paulo Freire. 

Quando percebi estava lendo. Lia tudo. – Como assim, o nome desse bairro é Mãe Luiza? Mãe de quem era essa Luiza? – Eu ficava horas olhando as letras nos livros de enciclopédia que tinha em casa. Tudo escrito de carreirinha. Tudo lindo. Eu aprendi a ler escrevendo. Já escrevia bem aos 9 anos e quando, de repente, me percebi lendo. Foi louco. Lia tudo, placas, livros, revistas.

Por fim, mas não menos importante, veio a professora Leni. Muito forte. Muito áspera. Muito humana. Me ensinou a conjugar os verbos, a fazer versos, construir orações. Com ela tudo tinha que ser perfeito da caligrafia à pronúncia.

Era forte feito uma Rocha, mas um dia ela chorou em sala de aula com um texto. O título desse texto era: Será que minha cor vai sujar a água? Quando ela terminou de ler, estava chorando, mostrando o quão humana ela era. Esses foram meus principais professores. Todos fazem parte da minha lembrança e estão vivos no meu coração. 

Essa é minha humilde forma de agradecer as pessoas tão essenciais na vida de cada um de nós, os professores.

Um comentário:

  1. Escrever é uma arte e, relatos com tamanha discrição é formidável... Parabéns pelos humildes textinhos!

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