sábado, 26 de fevereiro de 2022

A cratera da Guanabara

 


Eu acordava as 5:30 para ir para a escola Augusto Severo, em Petrópolis. Certo dia estava chovendo muito e minha mãe disse: “Hoje vocês não vão, tá chovendo demais e é chuva com vento, vocês vão chegar lá muito molhadas, eu tô sem dinheiro para vocês irem de ônibus, podem voltar a dormir”. Foi uma delícia voltar a dormir no friozinho de tempo chuvoso. Quando acordei almocei e me organizei para ir para educação física que era a tarde. O tempo estava nublado e frio mas não chovia.

Botei os tênis e fui em direção a cidade alta pela rua Guanabara. Esse caminho era melhor quando estava chovendo. Passei pela panificadora, desci a ladeira da Bacia e continuei pela Guanabara até a escola Nossa Senhora Aparecida. Nesse ponto tive um susto... Uma cratera enorme na minha frente tinha engolido várias casas. Tinha muita gente olhando a destruição.

Fui até a borda da cratera, tinha de tudo cama, tijolos, telhas e água descendo até o mar. A areia que se acumulou na via costeira era barrenta, deixando a praia onde a lama desembocava completamente laranja. Eu nunca tinha visto um desastre, nem imaginava que isso tivesse acontecido durante a madrugada, quando as pessoas estavam dormindo. A água que desceu do morro se tornou um rio e esse rio com, a correnteza da descida das ladeiras, chegou na Guanabara com muita força, derrubou o meio-fio e desceu em direção ao mar derrubando tudo que alcançava pelo caminho.

Eu parei e olhei tudo aquilo mas a coisa que me deixou mais abismada foi o mar estava laranja. Com ondas imensas que batiam no paredão, cheio de lixo, madeira, móveis, folhas. Até árvores desceram derrubando tudo. Não dava para ir para escola. Eu teria que subir até a rua Camaragibe para tentar passar, já que o buraco ia até a Atalaia. Desisti de ir para escola, aproveitei e desci até a praia. Queria ver o buraco de frente. Desci por um caminho que tinha acesso à praia na frente da escola Nossa Senhora Aparecida

Atravessei a via costeira e fiquei segurando no parapeito, olhando a água que ainda descia com força. Na verdade uma mistura de água da chuva que ainda estava acumulada e esgoto formavam um rio que desembocava no mar. Nesse rio vinha descendo uma cama dessas de madeira de solteiro fiquei ali parada observando a cama descer, percebi que, na parte de cima do morro, estava chovendo de novo e a água começou a descer com força, jogando a cama no mar que, por sua vez, com ondas de barro espesso jogou ela no paredão da praia, desmontando a cama com uma só pancada.

Aquilo foi lindo e assustador.

Nessa hora chegou um carro do corpo de bombeiros com Cirene e tudo. Parecia filme. Uns homens com colete amarelo pediram para eu e outras pessoas se afastar por causa do risco de desabamento de mais duas casas. Diziam: “Vamos, se afastem, está chovendo, vai desabar mais casas!”. Aí eu me afastei, mas, antes, olhei para a cratera e não sei como descrever sua aparência mas vamos lá.

Era enorme. De uma altura gigantesca. Haviam casas inteiras com piso e tudo na beirada da cratera mas que não tinham desabado ainda. Tinha, na parte de cima concretada, um pedaço da pista de asfalto que era da Guanabara. Com um espaçamento de uns cem metros de um lado a outro. O resto desceu. A segunda camada era de areia bem branquinha, areia de praia. E por último vinha o barro, bem vermelho, que deixou o mar com uma cor laranja e a água muito grossa e com uma espuma feia, estranha. Não parecia o mar. No veio de água que descia tinha muita madeira, talvez de cercas, talvez de madeiramento das casas que desabaram e uma certa quantidade de lixo.

Saí dali. Os carros de bombeiro chegaram aos montes, polícia e homens com capacete de construção e coletes amarelos. Estavam tão abismados quanto eu. Saí. Começou a chover forte de novo. Pensei em ir pra casa pela via costeira. Desisti. Subi a escadaria antiga, fui pra casa.

Agradecida a Deus por não ter sido minha casa e pensando: “imagina!! Essas pessoas estavam dormindo como eu e, de repente, as casas delas desabaram. Agora não tem comida, documentos, fotos, móveis!! Foi embora tudo”. Não soube se alguém morreu, não procurei saber. Era adolescente foi por volta de 1990, não sei exatamente o ano. Lembro apenas da sensação de impotência perante as forças da natureza.

Infelizmente não existem fotos na Internet desse primeiro desastre, só temos do segundo. Sim! Tivemos esse pesadelo de novo. Em 2014, ano da copa do Brasil, Natal sediando jogos das seleções mundiais; tudo aconteceu de novo. Dessa vez, amplamente divulgado nos jornais nacionais e mundiais. Mas não fui ver. É muito triste saber que poderia ter sido evitado.


2 comentários:

  1. Acontecimentos desta natureza acontecem sazonalmente e tende a nos pegar de surpresa apesar dos avisos da mãe natureza. Se faz muito importante, para nós, seus relatos recheados de informações fidedignas. Mais uma vez parabéns pela produção destes lindos textos

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  2. Tento sempre fazer o melhor, para que cada um se imagine dentro da história. Obrigada.

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