Em meados dos anos 80 houve uma superinflação. E uma das coisas mais caras era comida. Então surgiram vários programas que prometiam debelar a fome, mas eram só um engodo. Para dar satisfação de que estavam fazendo alguma coisa pela população. Teve um programa que vendia os itens da cesta básica a um preço mais baixo, mas era comida que hoje se chamaria facilmente de ração. Meus pais chegaram a comprar mas, realmente, não prestava. A farinha de milho vinha com gurgui (gorgulho), o arroz era de péssima qualidade e o feijão era a estrela principal dessa cesta, pois na época todos comiam muito feijão. Era o principal alimento das famílias.
O feijão-preto foi apelidado de “Duro na queda” (que era um seriado de TV de um dublê de cinema, que passava na época), mamãe comprou para economizar e pasmem o feijão passou 2 horas na panela de pressão e simplesmente saiu cru, foi uma lástima. Ela, chateada pelo feijão não ter cozinhado, reclamou do alimento, botou mais água e pressão de novo. Chega a panela sofria, deu meio dia, ela com ódio, já faziam 4 horas que o feijão estava no fogo, abriu a panela. As carnes já tinham se dissolvido mas o feijão estava levemente cozido. – Vamos comer assim mesmo! – Comemos aquela papa de arroz e o feijão duro. A mistura na semana toda era kitute bovino ou sardinha, mistura só no sábado e domingo.
Ficamos uma semana comendo aquele feijão e mamãe reclamando. – Esse mês o gás vai acabar e não acaba esse feijão. – Ela falava. A gente comia, mas era amargo. Sempre sobrava. Ela, a tarde, passava no liquidificador e fazia sopa de feijão botava macarrão e 2 caldos Knor e pronto. Aí a gente comia com gosto.
Teve também a “papa do padre”. Era uma mistura nutricional destinada a famílias de baixa renda, com crianças pequenas e risco de desnutrição. Era entregue na igreja por isso o apelido de “papa do padre”. Era muito gostosa, deliciosa, sabor baunilha e chocolate. Recebíamos vários pacotes. Lá em casa o que não faltava eram crianças. Além da papa, tinha a sopa, que já vinha pronta. Era só misturar com água, botar no fogo, mexer levemente e Já podia tomar. Outra delícia.
Teve o programa “peixe para todos”, que prometia peixe de qualidade a preço baixo. Mamãe se inscreveu. Vendia os peixes e repassava o dinheiro para o estado. Vinha um homem bem-vestido buscar o dinheiro e fazer o novo pedido de peixes. Quase não dava lucro, mas, era bom ter peixe todo dia em casa. Acho que comíamos o lucro todo.
Por último e mais importante veio o programa do leite, aí sim. A gente recebia todo mês uns ticket e trocava por leite e pão na padaria. O problema era as grandes filas para retirar o leite. Mas era bom ter leite em casa. Comíamos com cuscuz, tomávamos com café, fazia arroz de leite, fora as papas feitas para os pequenos, mas que sempre sobrava uma raspinha para nós os crescidinhos.
Foi uma época muito difícil. A fome é a pior sensação que alguém pode ter. A alimentação é um direito da população e deveria ser a principal preocupação do governo. A fome é urgente.
Na minha casa todos os meses era feita uma grande feira, a feira do mês. Em geral era comprado entre 15 e 30 kilos de feijão, mesma quantidade de arroz e açúcar, Uns 15 pacotes de café. Era uma feira grande. Pouco sobrava para biscoitos e iogurte mas todos os meses papai fazia questão de comprar uma bandeja de iogurte, 2 pacotes de biscoito recheado e uns lanchinho de biscoito com goiabada.
Quando chegava em casa com a feira a gente ia arrumar as compras na dispensa e procurar o que tinha sido comprado de bagana (assim eram chamados os lanches). Ao achar, deixávamos separados. Mamãe torava a bandeja de iogurte e dava um potinho para cada, uma delícia. Os biscoitos recheados ficavam guardados e os lanchinhos eram dados um a um pra cada, durante o dia. Era o melhor dia do mês. Só de abrir a geladeira e ver tudo cheio de comida era uma sensação maravilhosa.
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ResponderExcluirSituação de muitos q hj tem +- 50 anos de idade. Estava lendo e revendo meu passado. Um momento de reflexão.
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