Meu pai me contou uma história e a mesma contei para meus filhos. É a história de uma mulher que era casada com um pescador, morava num barraco em frente a Praia do Bote (hoje Praia de Miami). ela era muito pobre de dinheiro, era bem-disposta e forte mas não tinha filhos. O marido, um dia, foi pro mar sozinho com sua jangada e nunca mais voltou. Ela continuou sozinha em seu barraco esperando seu amor.
Ela era boa. Dava água para os pescadores que deixavam seus botes na praia, em frente a sua casa. Tratava e cozia os peixes trazidos pelos pescadores que eram amigos de seu marido e nunca a desrespeitaram. Muito pelo contrário. Quando levavam seus filhos para aprender o ofício da pesca, ensinavam-nos a respeitá-la é chamá-la de mãe.
Mãe Luiza era negra, magra, altiva, não levava desaforo e não aceitava bebidas em sua casa. Ela gostava de receber as pessoas em casa, esposas e filhos dos pescadores. Depois por volta dos anos 1930, começaram a chegar pessoas com crianças pequenas que vieram ao litoral à procura de trabalho e comida. Eram os refugiados da seca. Chegavam sempre com crianças nos braços e um pouco de farinha no bornal. O suficiente para ela, que sempre foi uma boa pessoa, fazer um pirão com os peixes que eram fartos na época e dar para eles se alimentarem.
Era estranho sair de um lugar como o sertão daquela época, sem comida nem água, tudo seco e chegar em Natal com seus palacetes, uma floresta bem verdinha e ainda encontrar pessoas como mãe Luiza, que tinha prazer em ajudar, além de um lugar vizinho para quem quisessem montar um barraco para morar. Para ela seria um privilégio ter vizinhos por perto, enquanto aguardava seu marido voltar do mar. Como as crianças da época tinham o hábito de pedir a bênção, todas que iam chegando, eram apresentados a mãe Luiza e pediam a bênção em um lugar para descansar, enquanto os pais conseguiam algum recurso para viver.
A maioria dos refugiados conseguiram emprego e se fixaram na cidade. As mulheres e meninas iam trabalhar nas casas de família (mais abastarda) e os maridos de jardineiro, motorista, porteiro, encanador, eletricista, pintor... Mas quando chegava a folga semanal, diziam: – Vamos para mãe Luiza, tomar um banho de mar e dar a benção a ela.
Depois de envelhecer, mãe Luiza se tornou uma vizinha útil, daquelas que cuida das crianças para a mãe trabalhar, que faz um chá para quem está doente, acende a vela para o morto e fazia parto, já que não existia SUS. Ela morreu pouco antes da grande invasão dos anos 50, quando foram construídos muitos barracos e botaram o nome do lugar como Novo Horizonte. Os moradores nunca se acostumaram a chamar assim, se referindo sempre ao lugar como “casa de mãe Luiza ” e depois apenas mãe Luiza.
Em 1958 foi dado ao lugar o nome de bairro de Mãe Luiza. Homenagem do prefeito Djalma Maranhão a essa guerreira bondosa. Que sua alma tenha, enfim, encontrado paz e seu amor lá no céu onde ela merece estar.
Essa é minha forma de contar a história dela. Esse é meu ponto de vista como mulher e nascida neste bairro.
Texto com narrativa cheio de verdades folclóricas que norteiam a formação de dos bairros mais privilegiado de Natal. Ar fresco e sem poluição, vista panorâmica das praias, acesso fácil aos principais centros econômicos da cidade. Parabéns Sônia.
ResponderExcluirObrigada amigo, meu sonho é que as mulheres do bairro se apoderam desse poder e dessa bondade única
Excluir👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderExcluirEssa resenha teve uma chamada interessante para mim. Achei que você foi bem feliz ao instigar o interesse do leitor com uma pergunta, estou amando conhecer o bairro através do seu blog🥰🥰🥰
ResponderExcluirVamos continuar instigando a população a ler mais, o único caminho é a leitura.
ResponderExcluirHistória linda e verdadeira eu moro no bairro,e defendo meu bairro dos preconceitos.hurrra
ResponderExcluirE.... só Sônia pra narrar com tanta riqueza de detalhes , uma parte dessa cidade forte e linda com um SOL radiante de todos os dias.narrativa perfeita.parabens ruiva
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