segunda-feira, 7 de março de 2022

O Barreiro de Tota

 


Mãe Luiza é um bairro que se formou aos poucos, becos, vielas, ruas, avenidas. Eu, costumeiramente, andava por todos os ambientes do bairro, tendo visto todos do começo desde a época que se dividia os terrenos por barrotes e cercas de vara, até os tempos de escadarias e muros.

O bairro é dividido por localidades que são bem distintas. Inclusive foram formadas de acordo com o relevo do bairro. Não existem placas ou algo que informe que lá é aquele ou esse lugar. A gente apelidou o lugar e por apelido ficou. Tanto faz o nome que a prefeitura deu. Para a população o lugar tem um nome e esse nome é passado de geração em geração.

A bacia: quando chovia no morro a água descia e se acumulava em alguns pontos do bairro um dos pontos era a bacia. Ficava, em tal época, uma lagoa. Entrava água nas casas mais baixas, obrigando os moradores a levantar o piso e não dava para fazer um canal escoando para as ruas vizinhas, pois corria o risco de derrubar as casas das ruas de baixo. O jeito era esperar parar a chuva e esperar a água baixar, deixada como uma bacia cheia de água.

Lagoa do Sapo: era mais ou menos a mesma situação da bacia, no entanto era na rua João XXIII por ser calçada, depois asfaltada,onde passava ônibus e desembocava o esgoto das ruas vizinhas. Não secava nunca. Então começou a criar mato na lateral e sapos coaxavam a noite. Era muito suja e apelidaram de Lagoa do Sapo. Havia época que não dava para passar nem de ônibus, obrigando os motoristas a irem pela rua de trás, mais alta um pouco.

Essas duas situações foram resolvidas depois do saneamento do bairro mas as localidades continuam sendo chamadas assim.

O conjunto: construído na década de 1980, foram doadas às casas pelo governo para moradores de baixa renda e que não tinham casa própria. Hoje não parece em nada com o conjunto da época. Todas as casas já foram reformadas mas ainda é chamado de conjunto.

Barro duro: parte mais baixa do bairro. A maioria das casas foi construída sem alicerces pois não dava para cavar o barro. Por ser a parte mais baixa do bairro, o vento levava a areia para as áreas mais altas de dunas, ficando a parte mais baixa apenas o barro, que era usado para fazer as casas de taipa e depois usado nas construções de casas de alvenaria.

Morro da cruz: próximo ao farol. É uma área que a população até tentou construir. No entanto, por ser muito íngreme não deu, tinha nos lados floresta, visto da via costeira dava para enxergar uma cruz.

Favela do sopapo: foi um pequeno terreno íngreme que ficou sem construção no meio do Conjunto, durante algum tempo. Até a população resolver invadir do dia para a noite e construírem vários barracos, que foram derrubados pela manhã e construídos depois de 2 dias de novo. Depois a prefeitura veio derrubou de novo. A população fez os barracos de novo e a ameaça veio de novo. Algumas pessoas desistiram, outras continuaram levando os sopapos, até que um dia a prefeitura deixou quieto e o povo construiu as casas. Até hoje se você disser que algo é na favela do sopapo, todos sabem onde é.

Alto da colina: É a parte lateral direita do bairro. As casas foram construídas uma do lado da outra como um dominó, morro a cima, até o limite do parque das dunas. São várias ruas, na maioria sem saída por cima. Quem é do bairro se refere a essas ruas como travessas, primeira travessa, segunda travessa... E assim por diante. Realmente olhando de baixo dá impressão de colina.

A Guanabara: região mais bonita de Mãe Luiza. Não é a toa que batizaram de Guanabara. A paisagem de lá dava para ver a praia todinha. Linda a paisagem e sem contar que quando íamos de ônibus dava um friozinho na barriga quando o ônibus subia a ladeira da Guanabara. Todos tínhamos medo de um dia, o ônibus sair da avenida e descer morro abaixo.

E por final me reservo o direito de colocar o Barreiro de Tota como parte do bairro. Não por fazer parte do relevo, mas por fazer parte da história do bairro. Tota era um senhor que tinha uns cavalos e carroças. Negociava barro em todo o bairro, eu, por muitas vezes, ouvia falar do barreiro, mas um dia fui apresentada a ele. Foi assim:

Um dia papai estava colocando uma lavanderia no quintal, com um resto de cimento que tinha sobrado da construção da nossa casa. Falou que estava faltando só o barro (na época se usava barro para reboco e construção). Ele disse que ia comprar, mamãe falou e porque não vai buscar no Barreiro de Tota com Luiz. Eu nesse momento interferi – Porque eu não posso ir?

Já havia ouvido falar muito do Barreiro de Tota, mas, não fazia ideia do que realmente era. Pegamos a Via Costeira. Eu, Dinho, Sandra e papai com o carro de mão. Andamos bastante até chegar na frente do Marsol Hotel. Atravessamos a avenida e entramos no barreiro. Para mim, estávamos entrando num labirinto. Tudo era grande. Muito grande. Paredes imensas de barro branco. Papai continuou andando e as paredes ficando mais altas. Ele procurava um veio de barro amarelo, que segundo, ele dava mais liga.

Eram paredes imensas parecendo o Grand Canyon. Um labirinto enorme de barro muito duro, por isso não desabava. Fomos até o final, onde tinha uma duna íngreme. No pé dela tinha um veio de barro vermelho. Haviam uns batentes escupidos no barro. Papai subiu com a pá e começou a cavar e derrubar o barro, deixando a gente que estava em baixo sujos de poeira. Ele falou – Sai tudinho, que vou palear o barro! – Saímos.

Começamos, eu e Sandra, a caminhar pelo barreiro. Tinha paredes muito altas cerca de 3 metros de altura. Sandra, que era a aventureira, disse – Vamos Sônia, correr pra ver se achamos a saída. Começamos a correr pelo labirinto. Cada hora achando uma parede maior. Nelas tinham escritas várias declarações de amor. Fulano × cicrana. Tinham desenhos lindos esculpidos: sol, pranchas de surf, rostos de mulheres...

Ficamos observando e caminhando, até que chegamos ao centro. Um grande salão escupido em barro. De lá, dava pra ver papai lá em cima jogando o barro para baixo. Ele nos viu e acenou. Falou – Fiquem por aí mesmo para não se perderem.

Ficamos, era um salão central com uma saída que dava tranquilamente para uma carroça de burro passar. No centro tinha um buraco fundo onde tinha água, mesmo sendo uma tarde de sol. Água de chuva acumulada possivelmente. Fomos de volta até papai, corremos a caminho dele, só que não encontramos.

Pronto!!!

Foi o suficiente pra me deixar com medo. Olhava para aquelas paredes enormes, já quase chorando. Sandra me segurou pelo braço. Acho que é por aqui. Pegamos outro caminho. Não chegamos a papai, mas vi o caminho largo que dava no salão. – Vamos por aqui. – Pronto. Estamos no salão de novo. Papai disse: – Me esperem aí! Ficamos lá. O sol, já frio, papai chegou com o carro de mão cheio de barro.

– Vumbora!

Depois do passeio e do susto, pensei o quanto o barreiro era bonito. O quanto os homens devem ter trabalhado para construir o Canyon e quantas casas de taipa foram construídas com todo aquele barro. Hoje o Barreiro de Tota está desativado, fechado por fazer parte do parque das dunas, como área de preservação ambiental. Um espaço com cerca de 500 metros quadrados.

Ninguém usa mais barro em construção. Ficou só a lembrança do barreiro e das aventuras vividas das várias visitas que fizemos lá.

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