Quando criança, existiam algumas frutas que eu gostava muito, outras que eu gostava menos, outras que eu não tolerava. As piores eram goiti, sapoti, ingá e genipapo (inclusive não gosto nem do nome delas). Dentre as que eu mais gostava, estava a ciriguela.
Certa vez, papai chegou da Feira com 2 toucas delas. Vovó viria no dia seguinte do interior e ele comprou para ela. Mamãe botou elas na geladeira enquanto arrumava as outras frutas e verduras que ele tinha comprado. Depois foi na geladeira e pegou uma das toucas – Vou chupar essa com os meninos. – Falou ela. Lavou botou numa pequena bacia e a gente tudo atrás dela esperando.
Ela deixou a bacia num banco que tínhamos em baixo da mangueira, pegamos e chupamos. Depois, quando só tinha um pouquinho, ela deu uma pra cada e saiu levando a bacia seca. Ficamos lá saboreando as últimas frutas.
Depois ela voltou e me viu com vários caroços de ciriguela, falei:
– Vou plantar!
Ela riu.
– Ciriguela não dá de caroço não.
Mesmo assim eu peguei os caroços, areia, uma lata de margarina e água. Botei areia na lata cavei buraquinhos com os dedos e enfiei os caroços lá, aguei e pronto era só esperar... A noite sonhei com um pé de ciriguela cheio de frutas. De manhã fui para escola e quando voltei vovó estava em casa. Pedi a bênção e fui olhar a margarina nada de ciriguela.
Desisti dessa vida de agricultora. Muito cansativa. Joguei a margarina com os caroços fora. Mamãe viu e perguntou
– Que bagunça é essa?
Eu respondi
– As sementes não nasceram. Fui assistir televisão com meus irmãos.
Dias depois mamãe chegou com um galho grande de mato. Foi no quintal, que era imenso. Me chamou – Olha Soninha, é assim que se planta ciriguela. Cavou um buraco no chão enfiou, uma parte do galho, jogou água em cima e deixou lá. Pela manhã passei de frente ao galho seco. Até as poucas folhas que tinham, caíram. Olhei com desdém e esqueci daquilo,
Teve a época de chuva, depois o verão, o tempo passou e eu já tinha esquecido do pé, quando mamãe me chamou.
– Olha, já está com várias frutinhas. O galho tinha se tornado uma pequena árvore e estava com uns frutíferos verde. Eu fiquei ali parada. Pensei.
– Caramba! É do galho seco.
Passou algum tempo até mamãe me mostrar umas ciriguela maduras e me dar uma. - Tome, prove como tirada do pé é mais gostosa.
Ela era vermelha, uns 3 centímetros. Coloquei na boca, mordi era mais doce do que qualquer outra que eu já tivesse provado. Até a fina casquinha era doce e massenta. Como todas as ciriguelas, me deu vontade de continuar com o caroço na boca, mas mamãe disse:
– Vamos comer essas que estão inchadas.
Eu peguei uma e mordi. Era azeda com, um pouco de doce no final. Falei: – Prefiro esperar amadurecer.
Todos os dias ia no pé pra ver se tinha frutas maduras mas não dava tempo. Meus irmãos gostavam delas inchadas.
Depois me acostumei a comer elas inchadas, nunca dava tempo de amadurecer.
Até hoje sempre compro na praia e nas feiras mais me confundo sempre na grafia do nome: seriguela, ciriguela, como no dicionário ou siriguela como a gente pronúncia e escreve no dia a dia.
Sua infância foi bem divertida, e as lembranças alimentam e fortalecem o espírito
ResponderExcluirFoi não, mas por resiliência a gente filtra os momentos bons.
ResponderExcluir1958 ano em aportei em Novo Mundo (atual Mãe Luíza), minhas avós(materna e paterna foram morar na hoje chamada Rua Saquarema), antes moravam na Rua Oeste na Praia do Meio, lendo seus textos revivo momentos felizes da minha infância.
ResponderExcluirObrigada, é sempre bom esse retorno.
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