sexta-feira, 11 de março de 2022

Seriguela, ciriguela ou siriguela?

Quando criança, existiam algumas frutas que eu gostava muito, outras que eu gostava menos, outras que eu não tolerava. As piores eram goiti, sapoti, ingá e genipapo (inclusive não gosto nem do nome delas). Dentre as que eu mais gostava, estava a ciriguela.

Certa vez, papai chegou da Feira com 2 toucas delas. Vovó viria no dia seguinte do interior e ele comprou para ela. Mamãe botou elas na geladeira enquanto arrumava as outras frutas e verduras que ele tinha comprado. Depois foi na geladeira e pegou uma das toucas – Vou chupar essa com os meninos. – Falou ela. Lavou botou numa pequena bacia e a gente tudo atrás dela esperando.

Ela deixou a bacia num banco que tínhamos em baixo da mangueira, pegamos e chupamos. Depois, quando só tinha um pouquinho, ela deu uma pra cada e saiu levando a bacia seca. Ficamos lá saboreando as últimas frutas.

Depois ela voltou e me viu com vários caroços de ciriguela, falei:

– Vou plantar!

Ela riu.

– Ciriguela não dá de caroço não.

Mesmo assim eu peguei os caroços, areia, uma lata de margarina e água. Botei areia na lata cavei buraquinhos com os dedos e enfiei os caroços lá, aguei e pronto era só esperar... A noite sonhei com um pé de ciriguela cheio de frutas. De manhã fui para escola e quando voltei vovó estava em casa. Pedi a bênção e fui olhar a margarina nada de ciriguela.

Desisti dessa vida de agricultora. Muito cansativa. Joguei a margarina com os caroços fora. Mamãe viu e perguntou

– Que bagunça é essa?

Eu respondi

– As sementes não nasceram. Fui assistir televisão com meus irmãos.

Dias depois mamãe chegou com um galho grande de mato. Foi no quintal, que era imenso. Me chamou – Olha Soninha, é assim que se planta ciriguela. Cavou um buraco no chão enfiou, uma parte do galho, jogou água em cima e deixou lá. Pela manhã passei de frente ao galho seco. Até as poucas folhas que tinham, caíram. Olhei com desdém e esqueci daquilo,

Teve a época de chuva, depois o verão, o tempo passou e eu já tinha esquecido do pé, quando mamãe me chamou.

– Olha, já está com várias frutinhas. O galho tinha se tornado uma pequena árvore e estava com uns frutíferos verde. Eu fiquei ali parada. Pensei.

– Caramba! É do galho seco.

Passou algum tempo até mamãe me mostrar umas ciriguela maduras e me dar uma. - Tome, prove como tirada do pé é mais gostosa.

Ela era vermelha, uns 3 centímetros. Coloquei na boca, mordi era mais doce do que qualquer outra que eu já tivesse provado. Até a fina casquinha era doce e massenta. Como todas as ciriguelas, me deu vontade de continuar com o caroço na boca, mas mamãe disse:

– Vamos comer essas que estão inchadas.

Eu peguei uma e mordi. Era azeda com, um pouco de doce no final. Falei: – Prefiro esperar amadurecer.

Todos os dias ia no pé pra ver se tinha frutas maduras mas não dava tempo. Meus irmãos gostavam delas inchadas.

Depois me acostumei a comer elas inchadas, nunca dava tempo de amadurecer.

 Até hoje sempre compro na praia e nas feiras mais me confundo sempre na grafia do nome: seriguela, ciriguela, como no dicionário ou siriguela como a gente pronúncia e escreve no dia a dia.


Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

4 comentários:

  1. Sua infância foi bem divertida, e as lembranças alimentam e fortalecem o espírito

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  2. Foi não, mas por resiliência a gente filtra os momentos bons.

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  3. 1958 ano em aportei em Novo Mundo (atual Mãe Luíza), minhas avós(materna e paterna foram morar na hoje chamada Rua Saquarema), antes moravam na Rua Oeste na Praia do Meio, lendo seus textos revivo momentos felizes da minha infância.

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