Aqui em Natal era tão raro médico negro que um dia, há mais de 15 anos, uma mulher que estava com um paciente na UTI cardiológica do hospital que eu trabalho reclamou que a boca do acamado estava suja. Olhou para o rapaz e disse “Traga uma gaze para limpar a boca do meu pai”. Ele foi lá, pegou a gaze, molhou, botou a luva, foi até o paciente e limpou a boca do Senhor. A mulher ficou só olhando o serviço da limpeza da boca ser feito. Depois veio até mim e perguntou:
– Enfermeira, quero falar com o médico da UTI pra saber como tá papai.
Eu, que tinha observado tudo disse:
– A senhora já falou. Ele até limpou a boca do seu pai... Ele, em geral, só faz um atendimento por visita; mas posso pedir para ele falar com a senhora de novo.
Ela, sem graça, disse:
– Não precisa.
Saiu sem falar.
Na UTI, do ASG ao médico, todos usam a mesma roupa. O susto dela foi de ver um lindo homem negro sendo o chefe da cardiologia do hospital.
Hoje é bem comum médicos negros, graças às cotas e ao esforço deles, mas nem sempre foi assim. Era gente branca que vestiam-se de branco. Uma das primeiras vezes que percebi isso foi em uma ação da igreja e da comunidade, com o Padre Sabino.
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Em uma reunião na igreja, uma das participantes disse que um bebê tinha sido mordido por um rato. a maioria do povo riu e alguns disseram:
– Isso é normal. Conheço um monte de gente que já foi.
Na época eu estudava no Augusto Severo e sabia o quanto era grave a mordida de um rato. A mãe do bebê levou ele pra maternidade e ele não podia receber a medicação, pois era muito pequeno. Ficou internado. No momento em que o padre chegou a pessoa estava falando essa parte do bebê ter ficado internado. Ele perguntou:
– Porque o bebê foi internado?
Ela falou com a maior normalidade.
– Porque foi mordido por um rato.
Ele fez uma cara de susto.
– Esse bebê tinha quantos meses?
Ela disse:
– Acho que nem um mês, mas tá internado, tá bem, mordeu só o dedinho da mão. A mãe com medo, levou o bebê pra maternidade e, no final, tá lá internada.
O padre tinha um hábito de passar a mão no cabelo como se estivesse penteando com os dedos, quando estava nervoso e nesse momento ele estava chocado. Empalideceu. Perguntou:
– Onde a criança está internada?
Ela disse:
– Na Januário (Maternidade Escola Januário Cicco).
Ele disse:
– Vou visitar! Vocês estavam dizendo que isso é comum? Como assim? Me expliquem?
Silêncio total. Ninguém se atreveu a falar. A reunião era de conhecimento bíblico. Estávamos preparados para isso. Mas a reunião mudou de tema na hora. Ele perguntou.
– Quem daqui já viu um gabiru próximo a sua casa, levante a mão.
Eu já tinha visto por isso levantei. Mentir pra padre da um azar danado. Resultado. Todos levantaram a mão. Como tinha naquela reunião pessoas de todas as partes do bairro, o reverendo demonstrou uma cara preocupada. Disse.
– O rumo da reunião vai ser outro. Escreva aí na ATA: reunião para decidir os rumos da desratização do bairro. O que podemos fazer para reduzir a proliferação de ratos no nosso bairro. Um rapaz que trabalhava no posto falou que tinha veneno lá, mas não tinha ninguém da SUCAM (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, equivalente aos atuais programas de controle de endemia) pra deixar nas casas.
– Bote aí na Ata: marcar reunião com a direção do posto de saúde. Eu falei.
– Lá perto de casa tem um lixeiro e os ratos saem do bueiro e vão pra lá.
Ele.
– Bote aí: agendar uma reunião com a Urbana.
Alguém falou que a população não sabia exatamente os riscos que ter ratos por perto. O padre falou.
– Escreva: elaborar um jornalzinho explicando pra população as doenças e de onde os ratos vem.
E assim seguiu a reunião todos falando as experiências com ratos próximo ou dentro de casa. E cada vez mais o padre passava mais a mão no cabelo. Pediu licença e acendeu um cigarro. Ele nunca fumava em reunião. Aí fui eu que fiquei preocupada. Ele saiu do sério. Depois de muito se falar sobre ratos e lixo, ele disse: “A reunião terminou”. Rezamos um pai nosso e fizemos um salve para Nossa Senhora e fomos pra casa.
Alguns dias depois, o padre foi lá em casa fomos em seu Mané Grosso, agendar uma reunião para a noite do outro dia. Ele falou da necessidade de vir muita gente. Seu Mané disse: “vou oferecer um suco, aí vem muita gente”. O padre disse: “eu trago biscoito”. Mamãe fez um bolo, outra pessoa fez café, no final tinha bastante lanche. Deu 19:00 horas, chegou um carro com 4 pessoas brancas vestidos de branco e com Joias. Isso era raro de se ver por ali. Pouco depois chegou o padre com irmã Francisca e outras pessoas da paróquia.
O povo branco começou a falar da situação e da necessidade de acabar com os ratos, do risco de colocar o veneno e deixar caixa de água aberta, tambor, cisterna, tudo tinha que ser fechado. Tinha que ser feita a entrega de veneno em todas as casas do bairro, por isso, quanto mais gente fazendo essa entrega do veneno, melhor a cobertura de todo o bairro para se proteger. E se alguém quisesse se voluntariar, podia. Ia ter um treinamento específico. Lógico que eu tava dentro.
Fiz o treinamento que era para informar o risco de deixar água com fácil acesso aos ratos e tentar deixar em maior número de casa possível. No curso tinha de escoteiro (ou desbravador?) a idoso, se tornou uma força tarefa.
No sábado seguinte, às 7:00 da manhã, estávamos na igreja. Muita gente. Cada um pegou uma parte do bairro. Eu peguei a parte de trás da padaria. A população já havia sido informada nas igrejas, terreiros, capoeiras, escolas, CEMIC, Centro Social... Então foi fácil. Só chegávamos nas casas e as pessoas já diziam onde tinha rato. A urbana retirou todas as caçambas de lixo do bairro e faria isso a cada 2 dias. A população foi incentivada a retirar tudo que pudesse esconder ratos dentro das casas.
O lugar que a maioria das pessoas mostravam, era atrás dos fogões e no quintal. A gente explicava que tinha que deixar o fogão limpo e fechado a noite, para que os bichos fossem comer o veneno e não a comida. Uma manhã inteira subindo e descendo becos, vielas, vilas e ruas, jogando veneno em cada cantinho do bairro e vendo os garis limpando todas as ruas, informando a população que tinham que jogar fora todo o lixo.
Quinze dias depois tudo, de novo. Era o tempo de reprodução deles. Tudo de novo. Só que dessa vez não tinha mais lixo nas ruas. A Urbana estava fazendo a parte dela. A população também. Não precisava mas explicar nada. Bastava deixar o veneno nos locais e pronto. Duas semanas depois tivemos uma reunião com as pessoas brancas que, agora, eu sabia que eram médicos, enfermeiras e sanitaristas da prefeitura. Nos elogiaram pela campanha e explicaram o sucesso. Não tinha mais ratos no morro nem nos arredores. Petrópolis e Arreia Preta. Batemos Palmas e rezamos o Pai Nosso. Não fizemos o Salve Nossa Senhora em respeito as outras religiões que ali se faziam presente.
Sei que é estranho ver alguém branca, como eu, chamado outras pessoas brancas de brancos. É que, antigamente, só existiam médicos brancos. Nunca vi um doutor negro até adulta. Era muito raro médicos negros ou morenos.
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