quarta-feira, 23 de março de 2022

Coisas da Redinha: Ginga com tapioca

 


Um dia, conversando com minha cunhada, Iana, ela falou que sua avó tinha sido a criadora de um prato típico da redinha, que depois foi considerado bem imaterial da cidade do Natal-RN, Como sou muito curiosa perguntei como tinha sido tal criação. Fiquei surpresa ao saber que a avó dela tinha tido 16 filhos e que vários tinham morrido ainda pequenos. Como seria a história dessa guerreira que criou esse prato tão especial e delicioso, mesmo no meio dessa vida tão sofrida, com tantos filhos e um marido que também vivia de compra e venda de produtos, principalmente peixe na redinha, o famoso marchante?

Ela ia me pincelar a história, com a ajuda de dona Ione, filha caçula do casal. Por ser uma história real, me reservo a licença poética para descrever a redinha daquela época, pois quando fui apresentada a esse bairro, tinha cerca de 10 anos. O bairro era um interior de Natal. Uma colônia de pescadores, com poucas casas de praia e ruas sem calçamento. É assim que quero que vocês imaginem o bairro. Como uma colônia de pescadores que iam e vinham, e ainda hoje puxam as redes de arrasto, rezando pra vir peixe graúdo. Quando não vem o jeito é se contentar com os miúdos, apelidados aqui por ginga.

Também haviam diversos barrotes enfiados na arreia com cordas passando de um lado a outro como um varal, era onde os pescadores de redes de arrasto penduraram as redes que, diferentes de hoje, que são de nylon, eram de um material parecido com barbante, por isso a necessidade de pendurar para secar e retirar o sargaço das algas que ficavam presas; além de também costurar algum furo que houvesse nelas, por onde os peixes pudessem passar.

Dona Dalila era casada com seu Geraldo. Muito batalhadora, tinha uma barraca na praia onde vendia comida, mesmo só tendo mais saída desse itens nos meses de veraneio. Seus pratos eram muito apreciados pelos veranistas que se tornavam clientes e amigos do casal. Mesmo durante toda essa batalha ela veio a ter seus filhos.
Em um tempo em que existiam poucas geladeiras ou gelo, os peixes, quando não eram vendidos fresco, tinham que ser tratados e salgados para poderem ser vendidos, ela comprava peixes tratava e vendia frito.

Certa vez, em um tempo em que a maré não estava pra peixe, o seu marido informou que não estava conseguindo trazer os graúdos. Os pescadores também, ao puxarem as redes, só vinha sargaço e ginga. Eles retiravam essas plantas e levavam as poucas gingas pra casa. Isso aconteceu em pleno veraneio quando havia muita gente na praia disposta a comprar qualquer coisa para comer. Só que não chegava peixe de canto nenhum nem dos barcos nem do mar. Seu Geraldo, que também vivia da compra e venda de peixe, falou: – Só tem ginga, e agora? O que vamos fazer? Os veranistas estão todos na praia e não aceitam peixe pequeno.

Ela muito esperta e acostumada as dificuldades da vida, foi num coqueiro tirou uma palha, pegou uma faca fininha e foi cortando de folha em folha da palha, retirando os palitinhos que ficam no centro da folha. Como ela sabia que seus filhos adoravam ginga frita, salgada e crocante. Enfiou alguns peixes nesses palitos e salgou. Pela manhã passou na farinha e fritou, quando os veranistas chegaram morrendo de fome depois do banho de mar com seus filhos perguntaram que peixe ela tinha, ela: – Hoje só tem ginga frita com tapioca. – Eles com fome diziam – Então traga. Ela passava na farinha na hora e botava no óleo bem quente, colocava os espetinhos de ginga na tapioca e servia aos veranistas rezando para eles não reclamarem do tamanho dos peixes.

Surpreendentemente para ela, eles comia e sempre repetiam. Davam para as crianças, pois a ginga frita na hora é crocante e, por ser salgado no dia anterior ao serem colocados nos palitos, tomavam muito bem o sal. Na hora de fritar era retirada toda a água do peixe deixando-o com uma crocância única. Os veranistas gostaram. Mais ainda por não precisar tirar as espinhas, podiam ser dado para as crianças sem medo e ornava muito bem com um copo de café quentinho e um cigarro pra relaxar. O tempo passou, os peixes voltaram ao mar e ela voltou a oferecer peixes maiores para os veranistas, no entanto, estes só queriam a ginga no palitinho e tapioca no coco, como ela tinha feito no último veraneio. Ela, esperta, simplesmente servia o prato e muita gente vinha conhecer que prato tão especial e diferente era aquele.

Se tornou uma febre, todos os veranistas queriam provar a ginga com tapioca de dona Dalila e ela sempre bem humorada, recebia os veranistas com todo carinho e atenção. Depois descobriram que a ginga também combina muito bem com cerveja e aguardente. Pronto sucesso total. A grande maioria das pessoas da cidade do Natal já provou dessa iguaria e eu posso dizer é realmente muito saborosa.
Anos depois dona Dalila morreu deixando alguns dos filhos criados. Nessas batalhas se foram 9 crianças, infelizmente. Os outros 7 se tornaram adultos, alguns também já se foram depois de sua partida. Hoje ainda é possível provar dessa iguaria em todas as barracas da redinha, onde os visitantes podem aproveitar e tomar um banho nessas praias límpidas e mornas ao lado da capela feita de pedras pelos pescadores em homenagem a nossa senhora dos navegantes e saborear nossa ginga com tapioca de dona Dalila.

Vou abrir um aparte para explicar o sabor real da ginga com tapioca original: a ginga é um peixinho com cerca de 10 centímetros, quando frito em óleo muito quente perde toda a água devido a quentura e também por causa do sal que é colocado nela antes de fritar, deixando apenas o sabor de peixe e a crocância, sendo possível até crianças comerem sem risco de engasgar pois as espinhas se quebram por está sequinha. A tapioca, feita com coco fresco tem um sabor inigualável. É fofa e tem uns gominhos como bolinhas um pouco salgadas com um sabor de coco seco e leitoso que trazem ao paladar um sabor específico que casa muito bem com o peixe. A ginga por sua vez, tem um sabor forte, salgado, crocante. Ao se misturar na boca se percebe que um combina exatamente com o sabor do outro.

A ginga foi feita para a tapioca, sem dúvidas.

Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges


Um comentário:

  1. Grandes palavras são necessárias para expressar grandes ideias e você cunhada como sempre as usa muito bem.

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