terça-feira, 29 de março de 2022

Com os pés na areia de Genipabu


A família toda foi convidada para um churrasco na casa de praia de Dra. Marlene (na verdade ela é minha madrinha, por isso daqui pra frente vou me referir a ela como madrinha). Eu nunca tinha ido a um churrasco. Só via isso na TV. Era estranho pra mim, que só tinha carne disponível no final de semana imaginar que algumas pessoas assavam um monte de carne de uma vez e passavam o dia todo comendo.

Também não conhecia Genipabu. Madrinha foi buscar eu e meus irmãos de bugre, papai e mamãe e os irmãos menores foram na frente em outro carro com Gilene, irmã de madrinha. Fomos pela orla da Via Costeira até o Iate Club, onde tinha um serviço de travessia de carros por balsa. Atravessamos o Rio Potengi, uma novidade na época; tinha começado esse serviço de travessia de carros a pouco tempo. Era rápido chegar na Zona Norte. Uma viagem que antes durava umas 2 horas agora era possível fazer a travessia mais rápido.

Chegamos na redinha, Zona Norte de Natal em uns 10 minutos, atravessamos o bairro e madrinha decidiu ir pela praia (na época não era proibido). Chegamos à beira mar na altura do coqueiro rei, e pegamos pela praia até Santa Rita.

Lá ela parou o carro, desceu, botou os pés na areia. Os pés dela eram bem brancos e com uns dedos fininhos bem delicados, com unhas alongadas mas sem esmalte. Fiquei ali parada perto de um dos pocinhos da praia, olhando ela colocar os pés na arreia como se fosse um ritual. Há essa hora meus irmãos já estavam todos rondando os pocinhos e eu observando ela, que nesse momento olhou pro mar como se não fosse uma paisagem comum, em contemplação os cabelos escuros soltos ao vento, seu rosto muito afilado, pele clara.

Dali a um tempo a água do mar chegou a tocar nos seus pés mas de mansinho quase como se tivesse fazendo um carinho nela, mas fez com que ela acordasse dos pensamentos. Ela olhou pra mim e disse: – Vamos, tá na hora. Chegamos na casa de praia ao meio dia, o almoço estava pronto, feijão verde, camarão, arroz, carne assada e um monte de salada. Tinham duas moças que trabalhavam lá. A casa era grande, 2 andares, uma sala enorme com garagem para uns 3 carros, tinha uma arquitetura nova bem diferente das casas de praia comuns naquela época.

Chegamos na casa. Ela tinha portas e janelas grandes, todas em um padrão só; vários quartos e banheiros; uma cozinha bem equipada. A sala ou salão era uma lindeza, tinha um leque grande na parede que ela comprou na viagem que fez ao Japão, fazia questão de mostrar os mimos de suas viagens e eu viajava junto. O sofá era um monumento a parte, coberto com um tipo de tecido impermeável muito colorido com flores vermelhas e rosas e folhagem verde-escuro era um espetáculo.

Comemos deixamos os mais velhos conversando e fomos a praia, na frente da casa. Genipabu, era uma praia deserta, pouquíssimas pessoas mesmo sendo um sábado. Era bonita a cor do mar de um azul turquesa com muitas ondas, não dava pra tomar banho. Como crescemos próximo ao mar sabíamos quando era arriscado entrar. A maré estava cheia, jogando pra fora, arriscado se afogar. Preferimos deixar os pequenos com os adultos em casa e ir pro morro, que ficava próximo a casa.

O morro de arreia muito branca desembocava no mar, realmente era lindo. Um lindo cartão-postal. Mas estávamos querendo subir pra ver o que tinha por trás do morro. Na verdade não tinha nada, só morro e mais morro. Lá de cima dava pra ver uma faixa de casas de praia inclusive a de madrinha. Lá em cima também tinham umas crianças e adolescentes, descendo de tábua de morro (skybunda).

Eu gostava de andar de tábua de morro; eles nunca tinha visto menina que andava de tábua, acharam estranho eu descer uma pequena duna de tábua em pé. Minha irmã, que era crack nisso, até fazia manobras, desceu o morro grande e só parou no mar de pé na tábua. Ficamos lá subindo e descendo o morro com as tábuas emprestadas, até a vela, que passávamos nas tábuas para deslizar melhor eles cederam.

Pensei "meninos do interior são muito bobos". Nós, em casa, sempre brigávamos pois a vela a parte mais cara para se manter com a tábua deslizando. E nossos pais, muitas vezes queriam para dar luz, que é a função dela. Aqui eles davam de graça e ainda incentivam que a gente descesse. Depois tomamos banho nas águas mornas de Genipabu, pois a maré baixou e foi possível tomar banho sem medo. Voltamos à casa de praia. Comemos carne, refrigerante e pão de alho e voltamos para nossa casa, felizes e cansados com a certeza de que moramos no melhor lugar do mundo.

O problema foi dormir a noite com a pele vermelha toda queimada do sol. Na época não existia protetor. A moda era ficar bronzeada. Eu não bronzeava, ficava vermelha como um jambo, depois despelava e voltava a branquitude extrema.

Foi um dia especial, daqueles que ficam guardados na mente e no coração.

Texto e edição: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges


4 comentários:

  1. Lembro-me muito bem dessa casa. Dona Marlene,faz aniversário no mesmo dia que eu,24 de Novembro... em uma data dessas ela fez uma festa,trouxe até um tecladista Alan dos teclados. Festa muito animada. Dona Girlene.. elas estão sempre em minhas orações.

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  2. São duas bênçãos na vida de quem se aproxima delas, eu tinha que fazer um texto em homenagem a elas, sem esquecer da saudosa dona Terezinha e do irmão querido Gladston

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  3. Cada detalhe que nos faz participar da história. Parabéns cunhada

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