domingo, 10 de abril de 2022

Papa-figo: a lendária Viúva Machado


Quando mamãe chamava a gente pra entrar todos nós entrávamos. Na hora. Ela nunca disse: – Entre se não eu vou dizer a seu pai!

Ela só dizia: – Entre!

A gente entrava. As vizinhas ficavam gritando: – Entra menino se não a Viúva Machado vai comer o seu figo!

Eu não sabia do que se tratava isso de Viúva Machado, perguntei a minha irmã mais velha, que aproveitou a oportunidade para me deixar com medo contou ela:

– A viúva Machado é uma mulher muito rica e perversa. Mora num Palácio lá no centro da cidade, tem uma doença que faz as orelhas crescerem sem parar. O único remédio para as orelhas dela pararem de crescer é comer fígado de crianças. As mães Quando percebem que ela ou os capangas dela estão rondando, chamam logo a gente pra dentro, por isso sempre que mamãe chama a gente entra na hora.

Eu fiquei abismada com a história. Pior foi perguntar pro meu irmão mais velho e ele confirmar e ainda contar que ela e os capangas prendem a criança num saco e deixam pendurado até a hora de matar pra arrancar o fígado.

Tremi de medo. Era muito tímida e, em geral, não ficava muito à vontade com outras crianças, só com meus irmãos. Depois disso nem sair pra calçada, como era costume, eu queria.

Mamãe achava normal. – Essa menina – falava ela – é doentinha.

Passou-se alguns dias, eu sem sair de casa, aí mamãe me chamou pra catar piolho. Eu nunca tinha, mas ela gostava de ficar passando os dedos no meu cabelo.

Eu morrendo de medo: – Mamãe, a viúva Machado não vai vir hoje?

Ela – Que viúva menina? O que foram dizer pra você.

Eu – Que tem uma velha que come o figo das crianças que ficam na rua e tem um homem com um saco que pega as crianças e leva pra ela.

Mamãe deu uma gargalhada incomum. Era raro ver ela rir. Perguntou quem tinha contado a história eu disse. Ela chamou os meus dois irmãos. – Porque foram contar histórias de mal-assombro pra Soninha?

Ela que tinha trabalhado em algumas casas de famílias ricas da cidade, conhecia a real história da viúva Machado, contou ela:

– A viúva Machado é uma mulher muito rica. Na verdade a mais rica da cidade. É uma velhinha de quase 100 anos. Seu marido morreu em 1937 mas, antes de sua morte, doou o terreno onde fica o aeroporto de Parnamirim, ela é dona de quase todas as terras em torno de Natal. Não teve filhos, sempre foi uma mulher de negócios e costumes muito simples. Foi casada com um grande comerciante português, riquíssimo.

– Foi em sua casa, que na verdade era um belo palacete no centro da cidade do Natal, que o natalense descobriu que existia geladeira e vitrola. Ninguém da cidade possuía essas tecnologias. Em sua casa eram servidos os maiores e melhores jantares. Neles eram resolvidos os rumos da cidade e, por isso, eram os jantares mais concorridos da cidade. Devido ao marido morrer ainda jovem e não ter filhos, ela ficou com toda a herança, se enclausurando em seu palacete no centro da cidade.

– Como tinha pessoas de sua confiança, conseguiu fazer mais dinheiro ainda, deixando essas pessoas gerenciar seus bens. Deu certo. Homens de Natal, que achavam que iam conseguir passar a perna nela se davam mal, ela era cortante, falava pouco resolvia tudo com rapidez. Era segura dos seus atos. Os homens da cidade começaram a chamar ela de bruxa e quando apareceu a doença degenerativa nela, começaram a inventar histórias para que ninguém se aproximasse dela. Como ela abrigava em seu palacete algumas crianças que eram abandonadas na cidade começaram a inventar que eram crianças roubadas para tirar o fígado, que ela tinha um Aleijo que só era possível tratar comendo fígado das crianças.

Fiquei até com pena dela. Não tive mais medo, deixei pra lá essa história. Morreu por volta dos anos 1980. Seu casarão, ao lado da Igreja N. Sra. do Rosário, na Metropolitana, ainda hoje brilha no centro da cidade.

Depois que mamãe contou a história real da viúva eu até me tornei fã dela. Como seria uma mulher tão rica e tão simples? Hoje é possível ver imagens dela na Internet, mas eu prefiro ver o seu lindo casarão.

Um comentário:

  1. Sonia até eu que sou muito mais idosa que você estou sabendo agora através de você sobre a verdadeira história da viúva. Como você mesmo diz fiqueicomovida também.

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