sexta-feira, 15 de abril de 2022

Por dentro do Farol de Mãe Luiza


Das coisas de infância o que sinto mais saudades é da liberdade. Não da liberdade de ir e vir, como é tão comum hoje, mas da liberdade de pensar. Vejo as crianças de hoje. Elas não tem tempo de pensar, de calcular, de imaginar... São criados sem saber conviver, dividir, perdoar...

Quase todas tem um celular e nele todos os jogos, as fotos, as redes sociais. Na minha época, rede social era na calçada ou na escola. Nessa época, uma das coisas mais intrigantes para mim era o farol. À noite ficava olhando a luz passar por cima das casas, por cima do morro e até pelo mar. Não entendia pra quê servia nem tinha coragem de perguntar mas, todas as noites ele estava lá com sua luz acesa, passando por cima de todo o bairro e, na minha cabeça, o farol era de Mãe Luiza.

O tempo passou fui estudar no Augusto Severo. Lá, tinham pessoas de todas as classes sociais. Principalmente filhos de militares, que viviam se mudando de um estado para outro. Gente de Brasília, Ceará, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro… Todos os tipos de sotaques dentro de uma sala de aula. Sempre que chegava alguém novo. A professora explicava de que estado era ou de que escola vinha.



Num desses dias chegou Silvana. Era uma mocinha de cabelos liso bem preto e alinhado, pele morena e principalmente muito tímida. A professora falou o nome dela em voz alta, ela se assustou. – Silvana, aluna nova, fique de pé.

Ela prontamente atendeu

– Você veio de Recife e está entrando no meio do ano por ser filha de militar não é isso?

Aí o susto ela falou em voz alta.

– Sim, senhora!

A classe inteira riu. Ela tinha, vindo de uma escola militar, falava daquela maneira com os professores. Até a professora riu e pediu para ela se sentar. Depois pediu para levarmos uma tarefa em grupo para fazer em casa. Silvana foi a única que ficou sem grupo. A professora perguntou onde morava. Ela disse.

– No farol de Natal.

A classe ficou em silêncio. Como assim ela morava no farol? Ela explicou.

– Meu pai é da marinha, ele veio na missão de cuidar do farol. A gente mora na segunda casa do farol.
A professora.

– Alguém mora perto do farol?

Eu morava muito perto. Levantei a mão apesar de não ter gostado muito de sair do meu grupo pra ficar com ela. Eu era a única pessoa da sala que morava perto do farol. A professora deu o assunto e disse o dia de entrega do trabalho. Falou alto. – Valendo nota!

Combinamos de eu ir na casa da nova colega, já que ela não sabia andar em Mãe Luiza. Minha casa ficava a uns 500 metros do farol. Cheguei no portão, apertei a cigarra ela veio correndo, com um short e uma camiseta branca. Abriu o portão e eu fui falando do trabalho como a gente ia fazer, se ia ser em cartolina ou em papel pautado... Ela parou na frente da segunda casa e disse que eu podia me sentar. Tinha um banquinho de cimento na frente da casa. Ela trouxe um copo de água, mesmo sem eu ter pedido e uma cartolina enrolada.

– Olha como eu fiz, – disse ela. – Se não gostar de alguma coisa pode dizer.

E simplesmente, estava pronto o trabalho. Ela tinha feito tudo. Disse: – Eu só não quero falar lá na frente.
Eu disse: – Deixa comigo.

Ela me perguntou se eu já havia entrado no farol, eu disse que nunca, mas que tinha muita vontade, ela disse então – Vamos! Pai, vou subir o farol com minha amiga.

Escutei a voz do pai. – Tenha cuidado!

Pegou a chave, caminhamos até os três degraus que tem antes de chegar na porta, ela a abriu com facilidade. Lá dentro era maravilhoso, limpo, sem móveis, só o piso vermelho encerado, cheirinho de cera recém-passada, aí se via a escadaria em círculo. Coisa muito linda.




Fui subindo degrau por degrau, como se degusta algo muito bom. Em vários pontos do farol tinham janelinhas que davam pra ver o lado de fora. Cheguei no ponto de saída, lá em cima. Ela abriu a porta e entrou um vento forte. Ela me perguntou se eu tinha medo de altura. – Eu não – Falei.

– Ok! Quando sair se segure nas barras pois o vento é muito forte.

Saí. Realmente o vento estava bem forte e morno. Bagunçou todo o meu cabelo. Arrodeei toda a borda. Dava para ver do morro do careca em ponta negra até a praia do forte. O quanto era bonito tudo visto lá de cima.

Ela disse: “Vamos até o farol?”

Eu: “Ôxe, nós já estamos no farol.

Ela disse: Vamos!

Subimos uma linda escadaria de metal e chegamos ao cume do farol, lá tinha uma lâmpada imensa. Ela disse que todas as noites aquela lâmpada era acessa para ajudar na localização dos navios. Eu disse “e se faltar energia?” Ela disse “É a gás acetileno essa lâmpada”. Como eu não sabia o que era gás acetileno, aproveitei para ver minha casa. Das janelas de vidro dava pra ver todo o bairro.

Ela disse “Vamos descer”. Eu desci a escada de metal e, quando cheguei na escadaria vermelha, estava cansada.

Ela falou para descansar um pouco. Ficamos sentadas na porta de cima do farol, levando vento. Confesso estava meio tonta com aquelas escadas giratórias. Tomei fôlego e disse “Vamos?” Descemos as escadas correndo, foi massa. Depois ela me ofereceu suco e biscoito eu não aceitei. Tomei só um copo de água e agradeci por ela ter me mostrado o farol.

Sai dali correndo. Doida para contar pra todo mundo que tinha subido no farol.


Texto e edição: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges



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