terça-feira, 26 de abril de 2022

A menina e o tempo

 

Em um momento muito difícil para o mundo, onde haviam guerras, pandemia, fome, morte, preconceito, tristeza em todos os seus tons. Nasceu uma menininha muito negra, tornando sua mãe a pessoa mais feliz do mundo. Seus olhos brilhavam ao olhar aquela criança linda.

Ela cresceu um pouco, começou a usar óculos, daqueles bem redondinhos; tinha o cabelo crespo e muito preto; estava sempre segurando seu gato rosa e principalmente: não entendia como as coisas funcionavam. Vivia a perguntar tudo.

A maioria das pessoas não entendiam aquela menina perguntadeira. Diziam: “Que chata que ela é!”. Ela não se incomodava e seguia perguntando: “Porque o céu é azul? Porque a lua não cai? Porque meninas vestem rosa e meninos azul? Porque os adultos podem bater nas crianças e as crianças não podem bater nos adultos?”

Quase ninguém ligava para suas perguntas...

Um dia, sozinha em seu quarto ela encontrou uma joaninha azul. Assustada ela disse: “Como assim uma joaninha azul? Isso existe?”. A joaninha começou a falar com a menina: “Lógico que existe. Se não eu não estaria aqui!” Ela falava e simplesmente começou a responder todas as perguntas que que a menina fazia. Todas.

E a garota perguntou tudo que tinha vontade de saber e que ninguém tinha respondido ainda. Nisso passaram-se horas, dias, meses, anos, e ela com a joaninha azul conversando. Não sentia fome, sede, sono, nada… Estava lá, sozinha, segurando seu gato de pelúcia que, aos poucos, parecia ficar pequeno para ela. Mesmo assim, ela passou a entender tudo.

Porque existiam guerras, porque os países eram divididos por fronteiras, porque os astros estavam no céu todas as noites e de dia também só que não conseguíamos ver pois o sol encobria tudo com sua claridade.

Descobriu que quando a chuva está caindo, lá no céu acima das nuvens, a lua brilhava preciosa pois as nuvens ficam abaixo da lua. Ela entendia tudo e disse a joaninha: “Pode ir embora! Vou sair do meu quarto. Agora que já entendo tudo vou ser alguém melhor.

A joaninha se foi, a menina soltou seu gato em cima da cama e saiu do quarto em direção da cozinha.

Ao chegar na cozinha tudo estava diferente, pequeno, sua mãe tinha cabelos brancos e não tinha mais alegria no olhar de antes. A menina não precisava perguntar mais nada. Ela entendia tudo. E por entender tudo, perdeu a alegria.

Tinha perdido sua infância, adolescência, fase adulta. Conversando com a joaninha, tinha esquecido de viver.

Pobrezinha. Sabia de tudo, mas não entendia nada.

Texto e edição: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges

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