quinta-feira, 16 de junho de 2022

De onde vem a saudade?

 

Hoje acordei com saudade.

Não uma saudade explicável, fácil de entender. Uma saudade sincera, doída, que dói só pensar que deixou de ser.
Pensei na praia do bote antes dos paredões e da via costeira, brincando de subir o morro e descer bolando, com outras tantas crianças. O cheiro de peixe novo chegado naquela hora do mar, tratado ali mesmo em cima do bote do lado das pedras. Onde as velas ficavam secando depois de uma noite no mar.
Saudade dos cheiros de dia nascendo enquanto brincávamos, vendo os meninos pularem do trampolim da praia de areias preta. Era um espetáculo vê-los dando pulos mortais para impressionar as moças, enquanto nós crianças simplesmente ficávamos abismados com a beleza dos corpos sendo jogados nas águas mornas do mar.

Saudade da alegria dos vendedores da praia que sempre vinham com a mesma conversa: uma menina tão bonita não quer um algodão-doce? Uma menina tão bonita não quer um picolé? Eu sempre queria mas nem sempre tinha dinheiro. Agradecia o elogio e dizia um Deus te acompanhe. Comum naquela época.
Saudade dos amigos de calção de retalho, sem camisa todos rodando cada pocinho tentando pegar um peixinho pra levar pra casa. Nunca conseguíamos mas era divertido. Saudade de, por fim, aquela voz que dizia: Vumbora que o sol tá esquentando!

Essas saudades são boas, saudades do que foi vivido. De correr até ficar sem fôlego, de ir pra praia em dia de chuva e… Tomar banho pra se esquentar. Só quem mora em Natal-RN entende. Sair batendo o queixo e se enrolar numa toalha de praia. Obrigada meu Deus por ter me deixado nascer aqui.

Um dia quando eu já adolescente conheci uma música que um amigo por nome de Valdério escreveu. Ela falava de coisas a quais a gente não esquece. Eu, como ainda não conhecia o Amor de verdade, associava a música a essas lembranças de criança. A música dizia mais ou menos assim.

Você vai estar em qualquer lugar

No meu pensamento

Não me deixe só!

Você vai magoar

O meu coração

É como um girassol

Roda o mundo todo

Parecendo uma nave estelar...


Essa música me remetia a infância, pena que nunca fez sucesso.

Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges

domingo, 5 de junho de 2022

Os pedreiros do bairro

 

Meu pai não era uma figura muito comum em casa. Sempre estava trabalhando e mesmo em suas folgas sempre arranjava algo pra fazer. Consertar uma porta, um ventilador, uma parede. Passava horas consertando o fogão e cantando:

“Que saudades da professorinha
Que me ensinou o BÊ
A BÁ...”

Eu ficava de longe observando.

As vezes ele era chamado para fazer serviço de pedreiro. Ele às vezes ia. Às vezes chamava algum vizinho. Havia vários que moravam perto de casa. Um chamado Nescilo era o mais chamado, trabalhava bem, mas, tinha um problema com álcool. Papai dizia que se não fosse o álcool ele seria o melhor pedreiro de Mãe Luiza. Às vezes, quando ia chamá-lo, normalmente, Nescilo estava dormindo depois de uma noite pescando e bebendo e continuava assim, passava uma semana ou mais bebendo direito, sem parar. Papai não se incomodava. Meu avô, pai dele, tinha sido alcoolista, por isso nosso pai jamais bebeu na nossa frente.

Tinham outros mas a maioria eu não sei o nome, só o apelido: doutor, cicó, tota, biu... Uma certa tarde, estávamos várias mulheres sentadas na calçada e chegou um senhor muito bem vestido num carro. Chegou deu boa tarde e perguntou por um tal de Juscelino que era pedreiro e morava naquela rua, precisava contratar ele para um serviço, ficamos intrigadas.

– Quem será esse Juscelino?

Fomos na casa de todos os pedreiros da rua e a surpresa Juscelino morava do lado da nossa casa. Era Tota. O pior a mulher dele que estava sentada junto com a gente também não reconheceu o nome do marido pronunciado pelo homem. Ficou falando: o nome dele é Jucilindo. Ficamos rindo a tarde toda disso sentadas na calçada.

Alguns dias depois a vizinha chegou lá em casa pra falar com mamãe a respeito de uma galinha que tinha fugido do seu quintal. Estava realmente preocupada e perguntou se mamãe não sabia de algum pedreiro em conta pra fazer um pequeno serviço, devido seu muro que ter caído, dando brechas para as galinhas fugirem, mamãe falou: tem Doutor. Ela disse que ele estava cobrando muito caro e saiu. A tarde quando nos sentamos na calçada tinha um senhor fazendo o muro, mamãe perguntou pra vizinha quem era. A vizinha respondeu que era Mané careca, que tinha cobrado só 100 cruzados enquanto doutor cobrou 300.

Ele fez o muro em uma tarde. Muito rápido. Mamãe até elogiou. Ele pegou o dinheiro e foi embora. No dia seguinte enquanto eu esperava a água do café ferver fiquei escorada no portal da cozinha, um galo grande e gordo que a vizinha tinha subiu no muro bateu as asas 2 vezes e quando foi dar a primeira nota do seu canto o muro desabou. Corri pra dentro, mamãe saiu e começou a reclamar: se esse muro tivesse atingido minha filha eu ia na delegacia!

A mulher saiu e viu o estrago. O muro no chão e o galo machucado que virou almoço no mesmo dia. Algum tempo depois Mané careca apareceu ainda um pouco embriagado. A mulher com raiva começou a dizer que o muro que ele fez ficou uma porcaria que quase provocou um acidente e que teve que matar o galo que ficou ferido. Seu Mané respondeu com a maior naturalidade: eu fiz um muro pra dividir os quintais não foi pra galo está cantando em cima.

E saiu rindo da situação.

E foi assim que o bairro cresceu. Parede após parede. Material que ia se comprando aos poucos: alvenaria, brita, cerâmica, louça sanitária… Casas com um puxadinho no quintal para o filho que estava contraindo núpcias, um quarto a mais para o bebê que vai chegar e uma casinha no quintal para alugar e conseguir um dinheiro extra. Os pedreiros tiveram grande importância na formação e estruturação do bairro, a cada tijolo sentado nas paredes por tantas mãos calejadas.

Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges

Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...