Meu pai não era uma
figura muito comum em casa. Sempre estava trabalhando e mesmo em suas
folgas sempre arranjava algo pra fazer. Consertar uma porta, um
ventilador, uma parede. Passava horas consertando o fogão e
cantando:
“Que saudades da
professorinha
Que me ensinou o BÊ
A BÁ...”
Eu ficava de
longe observando.
As vezes ele era chamado para fazer serviço
de pedreiro. Ele às vezes ia. Às vezes chamava algum vizinho. Havia
vários que moravam perto de casa. Um chamado Nescilo era o mais
chamado, trabalhava bem, mas, tinha um problema com álcool. Papai
dizia que se não fosse o álcool ele seria o melhor pedreiro de Mãe
Luiza. Às vezes, quando ia chamá-lo, normalmente, Nescilo estava
dormindo depois de uma noite pescando e bebendo e continuava assim,
passava uma semana ou mais bebendo direito, sem parar. Papai não se
incomodava. Meu avô, pai dele, tinha sido alcoolista, por isso nosso
pai jamais bebeu na nossa frente.
Tinham outros mas a
maioria eu não sei o nome, só o apelido: doutor, cicó, tota,
biu... Uma certa tarde, estávamos várias mulheres sentadas na
calçada e chegou um senhor muito bem vestido num carro. Chegou deu
boa tarde e perguntou por um tal de Juscelino que era pedreiro e
morava naquela rua, precisava contratar ele para um serviço, ficamos
intrigadas.
– Quem será esse
Juscelino?
Fomos na casa de
todos os pedreiros da rua e a surpresa Juscelino morava do lado da
nossa casa. Era Tota. O pior a mulher dele que estava sentada junto
com a gente também não reconheceu o nome do marido pronunciado pelo
homem. Ficou falando: o nome dele é Jucilindo. Ficamos rindo a tarde
toda disso sentadas na calçada.
Alguns dias depois a
vizinha chegou lá em casa pra falar com mamãe a respeito de uma
galinha que tinha fugido do seu quintal. Estava realmente preocupada
e perguntou se mamãe não sabia de algum pedreiro em conta pra fazer
um pequeno serviço, devido seu muro que ter caído, dando brechas
para as galinhas fugirem, mamãe falou: tem Doutor. Ela disse que ele
estava cobrando muito caro e saiu. A tarde quando nos sentamos na
calçada tinha um senhor fazendo o muro, mamãe perguntou pra vizinha
quem era. A vizinha respondeu que era Mané careca, que tinha cobrado
só 100 cruzados enquanto doutor cobrou 300.
Ele fez o muro em
uma tarde. Muito rápido. Mamãe até elogiou. Ele pegou o dinheiro e
foi embora. No dia seguinte enquanto eu esperava a água do café
ferver fiquei escorada no portal da cozinha, um galo grande e gordo
que a vizinha tinha subiu no muro bateu as asas 2 vezes e quando foi
dar a primeira nota do seu canto o muro desabou. Corri pra dentro,
mamãe saiu e começou a reclamar: se esse muro tivesse atingido
minha filha eu ia na delegacia!
A mulher saiu e viu o estrago. O
muro no chão e o galo machucado que virou almoço no mesmo dia.
Algum tempo depois Mané careca apareceu ainda um pouco embriagado. A
mulher com raiva começou a dizer que o muro que ele fez ficou uma
porcaria que quase provocou um acidente e que teve que matar o galo
que ficou ferido. Seu Mané respondeu com a maior naturalidade: eu
fiz um muro pra dividir os quintais não foi pra galo está cantando
em cima.
E saiu rindo da situação.
E foi assim que o bairro cresceu. Parede após parede. Material que ia
se comprando aos poucos: alvenaria, brita, cerâmica, louça
sanitária… Casas com um puxadinho no quintal para o filho que
estava contraindo núpcias, um quarto a mais para o bebê que vai
chegar e uma casinha no quintal para alugar e conseguir um dinheiro
extra. Os pedreiros tiveram grande importância na formação e
estruturação do bairro, a cada tijolo sentado nas paredes por
tantas mãos calejadas.
Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges