domingo, 5 de junho de 2022

Os pedreiros do bairro

 

Meu pai não era uma figura muito comum em casa. Sempre estava trabalhando e mesmo em suas folgas sempre arranjava algo pra fazer. Consertar uma porta, um ventilador, uma parede. Passava horas consertando o fogão e cantando:

“Que saudades da professorinha
Que me ensinou o BÊ
A BÁ...”

Eu ficava de longe observando.

As vezes ele era chamado para fazer serviço de pedreiro. Ele às vezes ia. Às vezes chamava algum vizinho. Havia vários que moravam perto de casa. Um chamado Nescilo era o mais chamado, trabalhava bem, mas, tinha um problema com álcool. Papai dizia que se não fosse o álcool ele seria o melhor pedreiro de Mãe Luiza. Às vezes, quando ia chamá-lo, normalmente, Nescilo estava dormindo depois de uma noite pescando e bebendo e continuava assim, passava uma semana ou mais bebendo direito, sem parar. Papai não se incomodava. Meu avô, pai dele, tinha sido alcoolista, por isso nosso pai jamais bebeu na nossa frente.

Tinham outros mas a maioria eu não sei o nome, só o apelido: doutor, cicó, tota, biu... Uma certa tarde, estávamos várias mulheres sentadas na calçada e chegou um senhor muito bem vestido num carro. Chegou deu boa tarde e perguntou por um tal de Juscelino que era pedreiro e morava naquela rua, precisava contratar ele para um serviço, ficamos intrigadas.

– Quem será esse Juscelino?

Fomos na casa de todos os pedreiros da rua e a surpresa Juscelino morava do lado da nossa casa. Era Tota. O pior a mulher dele que estava sentada junto com a gente também não reconheceu o nome do marido pronunciado pelo homem. Ficou falando: o nome dele é Jucilindo. Ficamos rindo a tarde toda disso sentadas na calçada.

Alguns dias depois a vizinha chegou lá em casa pra falar com mamãe a respeito de uma galinha que tinha fugido do seu quintal. Estava realmente preocupada e perguntou se mamãe não sabia de algum pedreiro em conta pra fazer um pequeno serviço, devido seu muro que ter caído, dando brechas para as galinhas fugirem, mamãe falou: tem Doutor. Ela disse que ele estava cobrando muito caro e saiu. A tarde quando nos sentamos na calçada tinha um senhor fazendo o muro, mamãe perguntou pra vizinha quem era. A vizinha respondeu que era Mané careca, que tinha cobrado só 100 cruzados enquanto doutor cobrou 300.

Ele fez o muro em uma tarde. Muito rápido. Mamãe até elogiou. Ele pegou o dinheiro e foi embora. No dia seguinte enquanto eu esperava a água do café ferver fiquei escorada no portal da cozinha, um galo grande e gordo que a vizinha tinha subiu no muro bateu as asas 2 vezes e quando foi dar a primeira nota do seu canto o muro desabou. Corri pra dentro, mamãe saiu e começou a reclamar: se esse muro tivesse atingido minha filha eu ia na delegacia!

A mulher saiu e viu o estrago. O muro no chão e o galo machucado que virou almoço no mesmo dia. Algum tempo depois Mané careca apareceu ainda um pouco embriagado. A mulher com raiva começou a dizer que o muro que ele fez ficou uma porcaria que quase provocou um acidente e que teve que matar o galo que ficou ferido. Seu Mané respondeu com a maior naturalidade: eu fiz um muro pra dividir os quintais não foi pra galo está cantando em cima.

E saiu rindo da situação.

E foi assim que o bairro cresceu. Parede após parede. Material que ia se comprando aos poucos: alvenaria, brita, cerâmica, louça sanitária… Casas com um puxadinho no quintal para o filho que estava contraindo núpcias, um quarto a mais para o bebê que vai chegar e uma casinha no quintal para alugar e conseguir um dinheiro extra. Os pedreiros tiveram grande importância na formação e estruturação do bairro, a cada tijolo sentado nas paredes por tantas mãos calejadas.

Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges

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