Hoje acordei com saudade.
Não uma saudade
explicável, fácil de entender. Uma saudade sincera, doída, que
dói só pensar que deixou de ser.
Pensei na praia do bote
antes dos paredões e da via costeira, brincando de subir o morro e
descer bolando, com outras tantas crianças. O cheiro de peixe novo
chegado naquela hora do mar, tratado ali mesmo em cima do bote do
lado das pedras. Onde as velas ficavam secando depois de uma noite no
mar.
Saudade dos cheiros de dia nascendo enquanto brincávamos,
vendo os meninos pularem do trampolim da praia de areias preta. Era
um espetáculo vê-los dando pulos mortais para impressionar as
moças, enquanto nós crianças simplesmente ficávamos abismados com
a beleza dos corpos sendo jogados nas águas mornas do mar.
Saudade da alegria
dos vendedores da praia que sempre vinham com a mesma conversa: uma
menina tão bonita não quer um algodão-doce? Uma menina tão bonita
não quer um picolé? Eu sempre queria mas nem sempre tinha dinheiro.
Agradecia o elogio e dizia um Deus te acompanhe. Comum naquela época.
Saudade dos amigos de calção de retalho, sem camisa todos
rodando cada pocinho tentando pegar um peixinho pra levar pra casa.
Nunca conseguíamos mas era divertido. Saudade de, por fim, aquela
voz que dizia: Vumbora que o sol tá esquentando!
Essas saudades são boas, saudades do que foi vivido. De correr até ficar sem fôlego, de ir pra praia em dia de chuva e… Tomar banho pra se esquentar. Só quem mora em Natal-RN entende. Sair batendo o queixo e se enrolar numa toalha de praia. Obrigada meu Deus por ter me deixado nascer aqui.
Um dia quando eu já
adolescente conheci uma música que um amigo por nome de Valdério
escreveu. Ela falava de coisas a quais a gente não esquece. Eu, como
ainda não conhecia o Amor de verdade, associava a música a essas
lembranças de criança. A música dizia mais ou menos assim.
Você vai estar em qualquer lugarNo meu pensamentoNão me deixe só!Você vai magoarO meu coraçãoÉ como um girassolRoda o mundo todoParecendo uma nave estelar...
Essa música me remetia a infância, pena que
nunca fez sucesso.
Texto: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges
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