terça-feira, 28 de dezembro de 2021

MAÇARANDUBA

 

Um dia me disseram que íamos ter que voltar a Mãe Luiza. Não ia dar mais pra morar no bairro de Morro Branco, onde tínhamos morado por 2 anos. Do nada, de noite, chegou um caminhão, jogaram tudo dentro, até o cachorro Rex, as galinhas, o galo e tudo o mais. Estávamos voltando pra uma casa em Mãe Luiza, alugada. A que tínhamos, estava em reforma. A casa alugada era em frente a nossa enquanto terminava-se a reforma. Botamos as galinhas e o galo no quintal. Os troços dentro de casa - “troços” é como chamávamos os móveis.

Todos cansados, cada um achou um lugar para armar sua rede. Cama era só a dos pais e dois irmãos mais velhos, no caso Sandra e Dinho. No outro dia, os troços foram cada um para seu lugar e papai foi ajeitar a antena da televisão. Passou um rapaz e perguntou se ele precisava de ajuda, ele disse que não, já estava terminando. O rapaz falou que se precisasse de alguma coisa, era só falar. Ele era franzino, moreno, rosto afilado, tinha na mão um balde desses verdes simples. Eu concentrada no vermelho vivo do piso da casa, piso de "cimento queimado" que, na nossa outra casa nunca brilhou tanto. Era lindo, deslizava.

Ele girou o balde vazio várias vezes. Eu ali quieta, invisível, só querendo saber o que ele ia buscar no balde. O rapaz falou “vou chegando” (em Natal isso significa “vou saindo”). – Vou ali no morro e mais tarde passo pra ver se o senhor precisa de algo. O rapaz era filho de um homem que fazia bicos para papai, mas naquele dia ele estava embriagado, então o rapaz se sentiu na obrigação de se oferecer. Ele nunca tinha falado com papai, por isso dava pra notar sua timidez.

A televisão funcionou, foi colocada num canto de destaque da sala como tinha que ser, almoçamos, e fomos para fora, olhar a rua, levar vento embaixo do pé de castanholas de dona Socorro. As senhoras levavam suas cadeiras e sempre falavam "que calor é esse?" Mamãe já tinha morado em Mãe Luiza, por isso conhecia bem os hábitos. Eu só queria ficar perto dela, não conhecia toda aquela gente estranha. Me sentei do lado dela enquanto meus irmãos já estavam todos enturmados com as crianças que eram muitas.

Eu, sentada num tijolo olhando o morro, lindo, logo a frente vi uns rapazes descendo aos poucos, com sacos e baldes. Como a rua não era calçada, todos os rapazes estavam descalços, de calção e sem camisa. Pararam na nossa frente, “me arruma um copo de água”. Mamãe mandou Dinho buscar uma garrafa, já com interesse... Os rapazes tiraram as camisas de cima do balde e pela primeira vez eu vi aquela fruta mágica!

Era de um vermelho vivo e outras eram laranja, brilhante como luzes de Natal, por volta de 2cm de diâmetro, casca grossa e porosa. Minha mãe disse “pegue umas, menina”, eu disse: Posso? “Sim!” – ela respondeu. Peguei, coloquei na boca, rompi a casca com os dentes, doce, doce, fibras doces com uma leitosidade apaixonante, meu cérebro em festa nunca havia provado algo tão delicioso. Cuspi a semente e depois as cascas. Coloquei outra na boca, parecia até mais doce ainda, era um sabor tão diferente que eu não estava preparada para aquilo.

– Mamãe, qual o nome dessa fruta?

Ela respondeu: MAÇARANDUBA!

Como leiga que sou em relação ao paladar, não é fácil, mas vamos lá: a casca é firme, porosa, um pouco doce com um certo toque de acidez não rançosa. Para abrir não é necessário forçar como a pitomba, nem explode como a jaboticaba. Ela se parte e deixa escorrer na boca uma doçura próxima a do sapoti, porém menos enjoativo. É possível sentir o doce do leite nesse momento, escorrer na boca e notar uma certa fibrosidade da polpa do fruto que além de doce tem um gosto de infância. Sempre com 2 sementes uma de cada lado. Que devem ser cuspida junto a casca pois provoca constipação. Acho que é o melhor que pude para descrever essa iguaria extinta.

Os rapazes deixaram um pouco numa vasilha com Mamãe e se foram. Eu, com a terceira fruta na boca, comendo devagarinho para não acabar logo, comecei a sentir a boca pregando, como se tivesse uma cola na língua. Botei a quarta e última fruta na boca. Maravilhoso a sensação era nova, incrível, mas tinha cola como mangaba, mas em relação ao sabor não tem nada há ver uma fruta com a outra. Só quem já provou MASSARANDUBA sabe o que é MAÇARANDUBA!

Hoje, faz anos, muitos anos que não tenho acesso a uma MAÇARANDUBA. Deve ser o desmatamento. MAÇARANDUBA é madeira nobre, não dá cupim. Tão nobre que sumiu, só sobrou a doce lembrança do sabor, mais indescritível que já provei.


Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges

20 comentários:

  1. Lindo texto 💗💗😍💗😍💗💗

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  2. Sônia ainda existem, escassas mas existem. Subi o morro nes passado e comi umas. A agradável sensação foi bem tentalhada en seu texto... Nunca se esquece quem prova da Massaranduba...

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  3. Eu não sabia que ainda existia, mas com as proibições de subir, a população em si não tem acesso. Que bom que vc encontrou.

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  4. Que delícia, ainda sinto o doce gostoso da Massaranduba nas minhas lindas lembranças de infância.
    Lindo texto..ameiii!👋👋👋👋

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    1. É sobre isso, é tão raro encontrar uma frutinha que agrada a todos. Amo

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  5. só quem já provou sabe o quanto e boa

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  6. Também encontrei alguns pés no início do ano com bastante frutos, aproveitei e já fiz algumas dezenas de mudas.Natal/RN

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  7. Sério, será que vinga, me dê notícias.

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  8. Sônia,menina, vc me deixou com água na boca e extrema felicidade no peito. Amo Massaranduba! Assim como vc, tambem vivi essas emoções ao provar essa fruta pela primeira vez. Ela tem realmente sabor inigualável. Na ninha infância e adolescência, aqui em Carnaubinha, um dos distritos de Touros, saboreei muitas delas, pois havia com fartura. Infelizmente, hoje já não é muito fácil encontrá-las. Os locais onde ainda resistem tornaram-se propriedades privadas.

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  9. Boa tarde pessoal, um colega me informou alguns dias atrás que aqui em Touros depois do morro vermelho aunda tem um pés de MASSARANDUBA...

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    1. Vish então preservem, hoje é muito raro achar, talvez ainda tenha no parque das dunas, mas não pode entrar

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  10. Inclusive peguei algumas mudas com o amigo Professor Milton César

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  11. Um dia quero poder provar quem sabe dessa fruta tão mágica.

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  12. Sônia quem sabe um dia não veremos um pé desse aí por Mãe Luiza, essa mata pode ainda ter alguns pés escondidos.

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    1. Tem sim, um amigo tirou umas, tá na época, mas é proibido pegar. A guarda ambiental fica de olho.

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