domingo, 9 de janeiro de 2022

Amigas para toda vida!

Logo que fui morar em Mãe Luiza não conseguia fazer amigos. Era uma criança bem tímida. Um dia, quando estava na casa de dona Helena com mamãe, de repente chega uma menina. Veio pra perto de mim e disse: “Você sabia que tem um pé de pitanga neste quintal?”. O quintal de dona Helena era enorme. Tinha várias fruteiras e ela tinha 2 filhos que não gostaram muito de brincar. Eu disse que não sabia, ela me puxou pelo braço e disse dona Helena “vou mostrar o quintal pra Sônia”.

Saímos correndo. Ela ao ver o pé de pitanga pegou um pau e derrubou um monte. Eu só olhava. Ela botou as pitangas na camisa e fomos pro final do terreno comer as pitangas. Ela tão feliz com as frutas e eu nem gostava muito de pitanga. Aproveitei para observá-la. Era muito magra, negra, cabelo crespo, dona de um sorriso que só ela tem. Perguntei o nome dela, ela me respondeu: “Nega”. Eu disse isso é apelido o seu nome mesmo, ela disse “Todos me chamam de nega”. Tem quantos anos? Ela disse “não sei, vou perguntar a minha mãe, depois te digo”.

Eu falei “Oi nega, meu nome é Sônia, quer ser minha amiga?”. Ela olhou pra mim dos pés a cabeça deu uma risada e disse nós já somos, afinal roubamos pitanga de dona Helena, juntas. Eu fiquei atônita, como assim roubamos?

Eu, católica, morria de medo de pecar. Nega era livre, não ligava pra essas coisas. Depois de comer as pitangas, enterrou as sementes e voltou no pé pra ver se tinha ficado folhas no chão, não ficou.

Quando a gente já vinha voltando vi mamãe e dona Helena falando “Essas duas nunca vão ser amigas, olha a diferença!”. Eu de vestido de manga tipo roupa de São João que era “moda” na época, Nega de short e blusinha sempre. Pois ficamos amigas sim. Ela era minha confidente e eu dela.

Sempre fugíamos para a praia, pra passear no morro, quando terminava a missa, íamos escondidas pro centro social. às vezes ela ia pro POP CLUB. Eu nunca fui. Tinha medo de mamãe descobrir. Um dia, já adolescentes, decidimos fugir para Bahia para ver o Carnaval de Salvador. Tínhamos 14 anos. Ela disse “Eu sei onde os caminhoneiros ficam, vamos lá e dizemos que queremos ir pra Bahia. Se ele disser que vai pra Recife a gente pega mesmo assim. De lá de Recife é mais fácil de ir pra Bahia. Lá eu tenho uma tia e fico na casa dela até o Carnaval, depois voltamos”.

Planejamos cada detalhe minuciosamente. Sonhávamos em ver o Carnaval de Salvador. Principalmente Chiclete com Banana, nossa seria um sonho. Mas acordei, desisti na última hora. Disse que não ia mais, que meus pais iam ficar preocupados e no dia seguinte depois que a mãe foi dormir nega fugiu. Foi pra Salvador. Kkkkk. De carona nos caminhões. O pai dela era camonhoneiro, então ela conhecia como a coisa funcionava. Não me perguntem, como.

Ela chegou na Bahia, foi pro Carnaval e depois ficou morando por lá uns 2 anos e eu aqui morrendo de saudades da minha melhor amiga da adolescência. Aos 16 anos, quando ela voltou, dei um abraço que quase consegui quebrar toda a saudade que senti por todos aqueles anos sem ela. Continuamos amigas até hoje. Eu sempre digo que a amo, que ela faz parte da minha vida, da minha história.

Essa é só mais uma forma de dizer o quanto ela é importante para mim. Que ela faz parte da minha história. Crescemos juntas, testemunho de tantas risadas e surras que nossas mães nos davam quando perdiam a paciência, porque “essas duas juntas nunca dava boa coisa”. Te amo Nega (Luciene) minha amiga querida.

5 comentários:

  1. Nega tem muita sorte por ter vc como amiga !!!!!

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  2. O amor pode se expressar de diversas forma... Escrever é uma delas. BÓtimo este texto de amor e confidências.

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