Das
coisas de infância o que sinto mais saudades é da liberdade. Não
da liberdade de ir e vir, como é tão comum hoje, mas da liberdade
de pensar. Vejo as crianças de hoje. Elas não tem tempo de pensar,
de calcular, de imaginar... São criados sem saber conviver, dividir,
perdoar...
Quase todas tem um celular e nele todos os jogos, as
fotos, as redes sociais. Na minha época, rede social era na calçada
ou na escola. Nessa época, uma das coisas mais intrigantes para mim
era o farol. À noite ficava olhando a luz passar por cima das casas,
por cima do morro e até pelo mar. Não entendia pra quê servia nem
tinha coragem de perguntar mas, todas as noites ele estava lá com
sua luz acesa, passando por cima de todo o bairro e, na minha cabeça,
o farol era de Mãe Luiza.
O
tempo passou fui estudar no Augusto Severo. Lá, tinham pessoas de
todas as classes sociais. Principalmente filhos de militares, que
viviam se mudando de um estado para outro. Gente de Brasília, Ceará,
Recife, São Paulo, Rio de Janeiro… Todos os tipos de sotaques
dentro de uma sala de aula. Sempre que chegava alguém novo. A
professora explicava de que estado era ou de que escola vinha.
Num
desses dias chegou Silvana. Era uma mocinha de cabelos liso bem preto
e alinhado, pele morena e principalmente muito tímida. A professora
falou o nome dela em voz alta, ela se assustou. – Silvana, aluna
nova, fique de pé.
Ela
prontamente atendeu
–
Você veio de Recife e está entrando no meio do ano por ser filha de
militar não é isso?
Aí
o susto ela falou em voz alta.
–
Sim, senhora!
A
classe inteira riu. Ela tinha, vindo de uma escola militar, falava
daquela maneira com os professores. Até a professora riu e pediu
para ela se sentar. Depois pediu para levarmos uma tarefa em grupo
para fazer em casa. Silvana foi a única que ficou sem grupo. A
professora perguntou onde morava. Ela disse.
–
No farol de Natal.
A
classe ficou em silêncio. Como assim ela morava no farol? Ela
explicou.
–
Meu pai é da marinha, ele veio na missão de cuidar do farol. A
gente mora na segunda casa do farol.
A professora.
–
Alguém mora perto do farol?
Eu
morava muito perto. Levantei a mão apesar de não ter gostado muito
de sair do meu grupo pra ficar com ela. Eu era a única pessoa da
sala que morava perto do farol. A professora deu o assunto e disse o
dia de entrega do trabalho. Falou alto. – Valendo nota!
Combinamos
de eu ir na casa da nova colega, já que ela não sabia andar em Mãe
Luiza. Minha casa ficava a uns 500 metros do farol. Cheguei no
portão, apertei a cigarra ela veio correndo, com um short e uma
camiseta branca. Abriu o portão e eu fui falando do trabalho como a
gente ia fazer, se ia ser em cartolina ou em papel pautado... Ela
parou na frente da segunda casa e disse que eu podia me sentar. Tinha
um banquinho de cimento na frente da casa. Ela trouxe um copo de
água, mesmo sem eu ter pedido e uma cartolina enrolada.
–
Olha como eu fiz, – disse ela. – Se não gostar de alguma coisa
pode dizer.
E
simplesmente, estava pronto o trabalho. Ela tinha feito tudo. Disse:
– Eu só não quero falar lá na frente.
Eu disse: – Deixa
comigo.
Ela
me perguntou se eu já havia entrado no farol, eu disse que nunca,
mas que tinha muita vontade, ela disse então – Vamos! Pai, vou
subir o farol com minha amiga.
Escutei
a voz do pai. – Tenha cuidado!
Pegou
a chave, caminhamos até os três degraus que tem antes de chegar na
porta, ela a abriu com facilidade. Lá dentro era maravilhoso, limpo,
sem móveis, só o piso vermelho encerado, cheirinho de cera
recém-passada, aí se via a escadaria em círculo. Coisa muito
linda.
Fui subindo degrau por degrau,
como se degusta algo muito bom. Em vários pontos do farol tinham
janelinhas que davam pra ver o lado de fora. Cheguei no ponto de
saída, lá em cima. Ela abriu a porta e entrou um vento forte. Ela
me perguntou se eu tinha medo de altura. – Eu não – Falei.
–
Ok! Quando sair se segure nas barras pois o vento é muito forte.
Saí.
Realmente o vento estava bem forte e morno. Bagunçou todo o meu
cabelo. Arrodeei toda a borda. Dava para ver do morro do careca em
ponta negra até a praia do forte. O quanto era bonito tudo visto lá
de cima.
Ela
disse: “Vamos até o farol?”
Eu:
“Ôxe, nós já estamos no farol.
Ela
disse: Vamos!
Subimos
uma linda escadaria de metal e chegamos ao cume do farol, lá tinha
uma lâmpada imensa. Ela disse que todas as noites aquela lâmpada
era acessa para ajudar na localização dos navios. Eu disse “e se
faltar energia?” Ela disse “É a gás acetileno essa lâmpada”.
Como eu não sabia o que era gás acetileno, aproveitei para ver
minha casa. Das janelas de vidro dava pra ver todo o bairro.
Ela
disse “Vamos descer”. Eu desci a escada de metal e, quando
cheguei na escadaria vermelha, estava cansada.
Ela
falou para descansar um pouco. Ficamos sentadas na porta de cima do
farol, levando vento. Confesso estava meio tonta com aquelas escadas
giratórias. Tomei fôlego e disse “Vamos?” Descemos as escadas
correndo, foi massa. Depois ela me ofereceu suco e biscoito eu não
aceitei. Tomei só um copo de água e agradeci por ela ter me
mostrado o farol.
Sai
dali correndo. Doida para contar pra todo mundo que tinha subido no
farol.
Texto e edição: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges