Cheguei no serviço, olhei a placa, CAPS AD II. Não fazia ideia do que isso significava mas entrei, falei com um guarda municipal que não me deixou ficar na recepção. Muito gentil me levou para uma sala no andar de cima do prédio. Se é que dá pra chamar aquilo de prédio. Na verdade era uma casa com primeiro andar. Na parte de cima funcionava a administração (pelo que entendi). Fiquei olhando os detalhes da casa, casa antiga, bonita, toda no gesso com detalhes de sanca e roda teto; as grades eram num estilo colonial, coisa que não se vê mais hoje em dia; as portas eram perfeitas um acabamento impecável.
Enquanto me concentrava em observar a casa, uma mulher veio me chamar. Era magra com uma voz muito grave, disse: Pode vir! Tive um susto por estar concentrada, observando os detalhes daquela casa soberba. Agora na minha frente tinha um senhor, com seus 40 anos, cabelos muito grisalho, rosto bonito, olhos de um azul céu, rosto afilado. Fiquei ali de pé, parada, com minha roupa branca esperando as ordens, olhando o homem que começou a falar sem parar.
– No nosso serviço temos a necessidade de profissionais comprometidos, pois é um local muito difícil de se trabalhar. Nossos pacientes são muito importantes para nós, cada um é tratado de modo especial como um ser integral. Temos a obrigação e a responsabilidade de tratá-los como se aqui fosse a casa dele e temos uma demanda muito estendida…
Do meio pro fim eu não estava mais entendendo nada do que ele estava falando. Só pensava na minha roupa que estava perfeita. Ele levantou e desceu as escadas comigo; fomos a uma sala pequena onde estava sentada uma senhora. Ele me deixou ali e disse “Josélia essa é a nova técnica de enfermagem que vai trabalhar com você”. Ela olhou para mim e deu um sorriso de um canto a outro da boca. Me recebeu muito bem. Disse o quanto eu era aguardada, que estava muito feliz, que aos poucos eu pegaria a rotina, que eu não me preocupasse pois o serviço era bom, que tínhamo um recesso no final do ano. Só não me disse qual era o serviço.
Fiquei ali quieta olhando o espaço e aquela mulher que falava sem parar. Era uma senhora gorda, óculos pequenos com lente muito grossa, negra, baixinha. Falava muito alto e rápido não dava tempo de perguntar nada. Mas pela forma que falava já se mostrava evangélica. Era bem culta, mas nada elegante, do tipo que não sai do salto alto em uma discussão.
De repente abre-se uma porta. Saem duas senhoras cada uma com um livro na mão e um monte de homens que fazem uma fila do lado da porta da sala que eu estava. Josélia começa a dar pacotinhos com o nome de cada um com comprimidos dentro. Eles respeitosamente pegam os pacotes agradecem e saem. Daí a pouco todos os profissionais de lá se reúnem numa sala e começam....
– Reunião de passagem.
– Data, informes?
O senhor grisalho diz meu nome, cargo e o horário que irei trabalhar. Eu toda sem jeito escuto. De repente uma mulher fala “mas porque você está de branco? Não foi informado que aqui não podia usar branco?” Eu fiz com a cabeça que não e ela falou “os pacientes aqui tem que se sentir em casa, não pode branco”.
Fiquei ali observando aquele povo todo falando que o propósito do CAPS é outro e eu nem sabia o que era CAPS. kkkkk. Algum tempo depois vim perceber o que era: Centro de Atendimento Psico Social especializado em Álcool e Drogas, no caso, Unidade II.
Fiquei morrendo de vergonha de estar de branco no final das contas.