sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Nem sempre os anjos vestem branco


Naquela manhã, pela primeira vez eu ia assumir um cargo público. Era um sonho. Peguei o ônibus com todo o cuidado para não sujar a roupa branca, que havia comprado no dia anterior na Riachuelo. Afinal era um dia especial. Fui no Distrito Leste e me deram um memorando para ir a um serviço que havia no centro da cidade. Peguei outro ônibus, dessa vez lotado, fui me esguiando pra não tocar em ninguém, minha roupa tinha que chegar impecável.

Cheguei no serviço, olhei a placa, CAPS AD II. Não fazia ideia do que isso significava mas entrei, falei com um guarda municipal que não me deixou ficar na recepção. Muito gentil me levou para uma sala no andar de cima do prédio. Se é que dá pra chamar aquilo de prédio. Na verdade era uma casa com primeiro andar. Na parte de cima funcionava a administração (pelo que entendi). Fiquei olhando os detalhes da casa, casa antiga, bonita, toda no gesso com detalhes de sanca e roda teto; as grades eram num estilo colonial, coisa que não se vê mais hoje em dia; as portas eram perfeitas um acabamento impecável.

Enquanto me concentrava em observar a casa, uma mulher veio me chamar. Era magra com uma voz muito grave, disse: Pode vir! Tive um susto por estar concentrada, observando os detalhes daquela casa soberba. Agora na minha frente tinha um senhor, com seus 40 anos, cabelos muito grisalho, rosto bonito, olhos de um azul céu, rosto afilado. Fiquei ali de pé, parada, com minha roupa branca esperando as ordens, olhando o homem que começou a falar sem parar.

– No nosso serviço temos a necessidade de profissionais comprometidos, pois é um local muito difícil de se trabalhar. Nossos pacientes são muito importantes para nós, cada um é tratado de modo especial como um ser integral. Temos a obrigação e a responsabilidade de tratá-los como se aqui fosse a casa dele e temos uma demanda muito estendida…

Do meio pro fim eu não estava mais entendendo nada do que ele estava falando. Só pensava na minha roupa que estava perfeita. Ele levantou e desceu as escadas comigo; fomos a uma sala pequena onde estava sentada uma senhora. Ele me deixou ali e disse “Josélia essa é a nova técnica de enfermagem que vai trabalhar com você”. Ela olhou para mim e deu um sorriso de um canto a outro da boca. Me recebeu muito bem. Disse o quanto eu era aguardada, que estava muito feliz, que aos poucos eu pegaria a rotina, que eu não me preocupasse pois o serviço era bom, que tínhamo um recesso no final do ano. Só não me disse qual era o serviço.

Fiquei ali quieta olhando o espaço e aquela mulher que falava sem parar. Era uma senhora gorda, óculos pequenos com lente muito grossa, negra, baixinha. Falava muito alto e rápido não dava tempo de perguntar nada. Mas pela forma que falava já se mostrava evangélica. Era bem culta, mas nada elegante, do tipo que não sai do salto alto em uma discussão.

De repente abre-se uma porta. Saem duas senhoras cada uma com um livro na mão e um monte de homens que fazem uma fila do lado da porta da sala que eu estava. Josélia começa a dar pacotinhos com o nome de cada um com comprimidos dentro. Eles respeitosamente pegam os pacotes agradecem e saem. Daí a pouco todos os profissionais de lá se reúnem numa sala e começam....

– Reunião de passagem.

– Data, informes?

O senhor grisalho diz meu nome, cargo e o horário que irei trabalhar. Eu toda sem jeito escuto. De repente uma mulher fala “mas porque você está de branco? Não foi informado que aqui não podia usar branco?” Eu fiz com a cabeça que não e ela falou “os pacientes aqui tem que se sentir em casa, não pode branco”.

Fiquei ali observando aquele povo todo falando que o propósito do CAPS é outro e eu nem sabia o que era CAPS. kkkkk. Algum tempo depois vim perceber o que era: Centro de Atendimento Psico Social especializado em Álcool e Drogas, no caso, Unidade II.

Fiquei morrendo de vergonha de estar de branco no final das contas.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Todo amor que houve nessa vida!


Assim terminava mais uma tarde de plantão no hospital, depois de um dia inteiro de grande demanda, a tarde vai terminado. A janela do posto de enfermagem dá de frente para um parque que é lindo, cheio de árvores e logo acima o majestoso morro careca, exuberante e imponente, testemunha da minha infância em Morro Branco. 

Naquele dia o entardecer estava especialmente lindo, a luz do sol batia nas folhas das árvores, deixando um brilho e uma luz, que ecoava uma luminosidade mágica. Fiquei ali na janela alguns minutos, o vento quente passando me fez esquecer um pouco a dor que estava sentindo.

De repente, chega ela, com seu pijama verde, muito desengonçada, se joga na cadeira em frente ao PC e começa a digitar. Sua aparência posso dizer um pouco desajeitada, bem acima do peso, como vários outros técnicos daquele lugar, inclusive eu. Fiquei ali mesmo, sentada olhando pela janela, resolvi puxar assunto.

– Essa claridade no morro me faz lembrar meu marido no início do casamento, nós tínhamos uma brincadeira, eu dizia que tinha tomado uma cachaça chamada São Jorge e tinha acordado com um dragão do lado e ele falava que eu tinha feito uma macumba pra ele que tinha colocado uma cueca num bode e amarrado numa árvore no morro e por isso ele não conseguia me deixar kkkk. Cada dia aumentávamos a estória e quando estávamos bebendo ela rendia várias resenhas.

Ela riu, e disse: “Acho que grandes amores só acontecem uma vez na vida, eu tive um grande amor, ele era maqueiro aqui do hospital, você deve saber quem é; o nome dele é Maurício. Eu fiz com a cabeça que não sabia quem era. Ela desatou a falar…

– Maurício trabalhou aqui por 2 anos, eu nunca nem tinha olhado, poucas vezes havia falado com ele. Um dia eu estava aqui no posto num final de tarde desses contando a história de como meu irmão tinha pedido a noiva em casamento. Foi bem engraçado porque ele se fez de bêbado e ela ficou morrendo de raiva pois ele fez ela passar vergonha. Quando ela já estava puta com ele, ele simplesmente falou: Quer casar comigo? E todos nós rimos com aquela situação. Ele parado, próximo a porta, olhando a gente rir, me pediu pra contar novamente a história a ele. Eu contei, quando eu falei que ele tinha falado no final: Quer casar comigo? Respondeu. Quero, quero sim. Tivemos um ano de lua de mel, foi um conto de fadas ou coisa parecida. Viajamos, passeamos fomos para todos os lugares que pudemos ir. O sexo era a melhor parte, quente, forte, nada doía, nada era ruim.

Parou.

Calou-se

Eu olhando aquela mulher que a pouco resplandecia, ficar em silêncio. Doeu a alma. Pensei logo que tinha terminado a paixão e ele havia deixado ela e arranjado outra ou coisa assim, como acontece na vida real. Histórias comuns perguntei o que aconteceu, depois. Como terminou. Ela respondeu.

– Ele morreu faz uns 5 anos. A gente viveu o último ano da vida dele intensamente. Ele teve um AVC, ficou mal, achei que ele ia sair. Não saiu. Teve uma piora aqui no andar. Foi transferido para o politrauma. Lá teve uma parada, até que o médico falou a frase que eu mais temia. “Hora do óbito 18:30h”. Ali mesmo cai de joelhos no chão a dor era tão grande que eu passei alguns segundos que pareciam dias jogada no chão do Politrauma. Meu amor morreu. O que eu ia fazer agora? Não fiz mais nada, as pessoas próximas, os colegas, me levaram pra casa, me deram banho, me deram comida, cuidaram de mim. Fui ao velório, mas aquela pessoa que estava ali deitado naquele caixão não era ele, era apenas o casulo, daquela pessoa que eu tanto amei. Fui diagnosticada com depressão pós traumática. Não conseguia entrar na enfermaria e continuei assim por 2 anos. Hoje já consigo, estou melhor, fico aqui, fazendo meu serviço, agora estou começando um relacionamento. Não é a mesma coisa, acho que nunca será, ainda amo aquele homem e por mim ficaria sozinha pelo resto da vida. Mas, como não tenho ninguém, estou tentando.

Fiquei ali, parada, ouvindo aquela mulher falar, não dava pra imaginar que ela um dia tinha vivido tudo aquilo. Me senti privilegiada por ter sido plateia para uma história de amor tão linda. Anoiteceu, a dor de cabeça passou e a vida segue.

Depois ela levantou-se e saiu. E eu jamais consegui enxergar ela da mesma forma.

Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

MAÇARANDUBA

 

Um dia me disseram que íamos ter que voltar a Mãe Luiza. Não ia dar mais pra morar no bairro de Morro Branco, onde tínhamos morado por 2 anos. Do nada, de noite, chegou um caminhão, jogaram tudo dentro, até o cachorro Rex, as galinhas, o galo e tudo o mais. Estávamos voltando pra uma casa em Mãe Luiza, alugada. A que tínhamos, estava em reforma. A casa alugada era em frente a nossa enquanto terminava-se a reforma. Botamos as galinhas e o galo no quintal. Os troços dentro de casa - “troços” é como chamávamos os móveis.

Todos cansados, cada um achou um lugar para armar sua rede. Cama era só a dos pais e dois irmãos mais velhos, no caso Sandra e Dinho. No outro dia, os troços foram cada um para seu lugar e papai foi ajeitar a antena da televisão. Passou um rapaz e perguntou se ele precisava de ajuda, ele disse que não, já estava terminando. O rapaz falou que se precisasse de alguma coisa, era só falar. Ele era franzino, moreno, rosto afilado, tinha na mão um balde desses verdes simples. Eu concentrada no vermelho vivo do piso da casa, piso de "cimento queimado" que, na nossa outra casa nunca brilhou tanto. Era lindo, deslizava.

Ele girou o balde vazio várias vezes. Eu ali quieta, invisível, só querendo saber o que ele ia buscar no balde. O rapaz falou “vou chegando” (em Natal isso significa “vou saindo”). – Vou ali no morro e mais tarde passo pra ver se o senhor precisa de algo. O rapaz era filho de um homem que fazia bicos para papai, mas naquele dia ele estava embriagado, então o rapaz se sentiu na obrigação de se oferecer. Ele nunca tinha falado com papai, por isso dava pra notar sua timidez.

A televisão funcionou, foi colocada num canto de destaque da sala como tinha que ser, almoçamos, e fomos para fora, olhar a rua, levar vento embaixo do pé de castanholas de dona Socorro. As senhoras levavam suas cadeiras e sempre falavam "que calor é esse?" Mamãe já tinha morado em Mãe Luiza, por isso conhecia bem os hábitos. Eu só queria ficar perto dela, não conhecia toda aquela gente estranha. Me sentei do lado dela enquanto meus irmãos já estavam todos enturmados com as crianças que eram muitas.

Eu, sentada num tijolo olhando o morro, lindo, logo a frente vi uns rapazes descendo aos poucos, com sacos e baldes. Como a rua não era calçada, todos os rapazes estavam descalços, de calção e sem camisa. Pararam na nossa frente, “me arruma um copo de água”. Mamãe mandou Dinho buscar uma garrafa, já com interesse... Os rapazes tiraram as camisas de cima do balde e pela primeira vez eu vi aquela fruta mágica!

Era de um vermelho vivo e outras eram laranja, brilhante como luzes de Natal, por volta de 2cm de diâmetro, casca grossa e porosa. Minha mãe disse “pegue umas, menina”, eu disse: Posso? “Sim!” – ela respondeu. Peguei, coloquei na boca, rompi a casca com os dentes, doce, doce, fibras doces com uma leitosidade apaixonante, meu cérebro em festa nunca havia provado algo tão delicioso. Cuspi a semente e depois as cascas. Coloquei outra na boca, parecia até mais doce ainda, era um sabor tão diferente que eu não estava preparada para aquilo.

– Mamãe, qual o nome dessa fruta?

Ela respondeu: MAÇARANDUBA!

Como leiga que sou em relação ao paladar, não é fácil, mas vamos lá: a casca é firme, porosa, um pouco doce com um certo toque de acidez não rançosa. Para abrir não é necessário forçar como a pitomba, nem explode como a jaboticaba. Ela se parte e deixa escorrer na boca uma doçura próxima a do sapoti, porém menos enjoativo. É possível sentir o doce do leite nesse momento, escorrer na boca e notar uma certa fibrosidade da polpa do fruto que além de doce tem um gosto de infância. Sempre com 2 sementes uma de cada lado. Que devem ser cuspida junto a casca pois provoca constipação. Acho que é o melhor que pude para descrever essa iguaria extinta.

Os rapazes deixaram um pouco numa vasilha com Mamãe e se foram. Eu, com a terceira fruta na boca, comendo devagarinho para não acabar logo, comecei a sentir a boca pregando, como se tivesse uma cola na língua. Botei a quarta e última fruta na boca. Maravilhoso a sensação era nova, incrível, mas tinha cola como mangaba, mas em relação ao sabor não tem nada há ver uma fruta com a outra. Só quem já provou MASSARANDUBA sabe o que é MAÇARANDUBA!

Hoje, faz anos, muitos anos que não tenho acesso a uma MAÇARANDUBA. Deve ser o desmatamento. MAÇARANDUBA é madeira nobre, não dá cupim. Tão nobre que sumiu, só sobrou a doce lembrança do sabor, mais indescritível que já provei.


Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Música é paz!

 


Quando criança, por volta dos 9 anos, havia um forró perto de casa. Era de sanfona, triângulo e zabumba.

Como “seu” Mané Grosso tinha um espaço, que na verdade, nada mais era que uma casa simples sem paredes dividindo, tornando-se um grande salão. O local era usado para decidir as coisas do Barro Duro (nossa localidade dentro do bairro). Era lá também que os tocadores se reuniam. Quando conseguia fugir de casa pra ir ver eles tocando, nossa era maravilhoso… Principalmente o som da sanfona. Era mágico. Eles errando e recomeçando e eu na minha cabeça desafinada brigando, não vi erro nenhum. Tudo era primitivo. Conhecimento que passava de pai pra filho.

E eu ali, órfã de Música, achando tudo lindo. Depois vários projetos que inseriam jovens na música foram lançados, meu irmão Luiz, por exemplo, aprendeu a tocar num desses. Eu nunca tive afinação. Sei nem o que é. Mas tenho bons ouvidos, sei quando uma coisa é boa e sei quando uma coisa é muito boa.

Amava ouvir a voz grave de Mané Grosso cantando e os outros atrás suados tentando acompanhar o mestre.

Outro dia fui convidada por minha sobrinha, que é musicista, na véspera de Natal, tocar clarinete em um projeto em Mãe Luiza. Confesso: não tô com espírito de Natal muito aflorado, mas, decidi ir. Chegando lá, entrei numa rua estreitinha; no final, uma casa linda com jardim e um senhor nos recepcionando na porta: “vieram pro evento?” “Sim.” “Podem subir, a direita”. O local deixa qualquer um boquiaberto de tão lindo. Tudo limpo, pessoas educadas, crianças educadas, silenciosas. Entrei no espaço do recital. Minha sobrinha já estava tocando. Coisa mais bonita de se ver. Séria, postural, quase visceral.


Nessa noite fui reinserida no meu cantinho no mundo. Faltava ouvir o que os outros garotos e garotas tinham a passar. Minha sobrinha Lauanda, com apenas 15 anos, toca perfeitamente o clarinete, instrumento de sua escolha. Ao me ver e terminar a apresentação me deu um abraço e começou a mostrar a todos “Essa é minha tia!”. Eu toda orgulhosa cumprimentei a todos com honradez.

Ela saiu e o show continuou. Pena que não consigo descrever o que foi aquilo... Tão... Lindo... Tão perfeito. Tão claro. Tão afinado, que eu passaria a vida toda ali dentro ouvindo aqueles passarinhos. Mas, foi terminando e eu sonhando em mais um pouquinho. Tudo aquilo porque alguém teve a ideia de levar música para aqueles jovens. Alguém decidiu fazer o bem.

Mas, o que é o bem? O bem? O que é o bem, afinal? Ser gentil, caridoso, empático, honesto, simpático... Ontem eu vi o bem, o bom, a bondade. Não veio de trenó, não tinha neve, nem pessoas bem-vestidas tomando champanhe em taças de cristal.

Eu vi mulheres e homens com suas roupas puídas mas limpas, sandálias e tênis simples, mas com um orgulho que não cabia no peito. Às vezes, inclusive, escorria de seus olhos em rostos vincados do sol, mas de queixo erguido vendo seus filhos e netos dando o melhor de si! E o melhor foi muito bom! Uma sinfonia de anjos. Nossa como foi lindo...

Me trouxe paz, luz, fez reacender a chama do Natal dentro da minha alma. Nesse coração veío castigado, cansado, doído, cheio de certezas infundadas. Obrigada Escola de Música de Mãe Luiza. Obrigada, anjos dos instrumentos musicais. Todos lindos com seus cabelos e roupas caprichados. Muito grata por me trazerem de volta esse sentimento que só se tem quando se escuta o som de um sax, ou a delicadeza de uma flauta.

Obrigada Padre Robério, por acreditar que é possível. É possível sim!

Feliz Natal a todos de Mãe Luiza!

Feliz Natal a todos os envolvidos.

Aplausos de pé! Vocês merecem.


Texto: Sônia Borges

Revisão: Lula Borges

domingo, 26 de dezembro de 2021

Zé Ruido


Em todos os vilarejos, cidades pequenas e bairros, existem figuras que são caricatas ou seja, que são a cara do nosso lugar. A nossa figura era ZÉ RUIDO. Zé era negro, franzino, muito magro, ficava quieto em algum lugar até alguém lhe oferecer comida. Não pedia nunca. Ficava lá quieto, ninguém mexia com ele, ele não mexia com ninguém. Era sujo, cheio de feridas por todo o corpo; dai o apelido ZE RUÍDO. Os cabelos pareciam um ninho com uma cabeça pequena no meio.

Eu só o vi de cabelos cortados uma vez que ele teve uma grande dor de dente e o levaram para “creche” era assim que chamávamos o posto de saúde do bairro. Lá, conseguiram dar um banho nele, cortar o cabelo, fazer curativo nas feridas, embora ele só quisesse resolver a dor de dente. Depois extraíram o dente e o deixaram “internado”. Ele fugiu. Quem o viu depois da fuga disse que ele parecia uma múmia. Mas logo voltou para o canto dele onde só saia quando conseguia cachaça. Bebia, dava umas voltas pelo bairro, depois voltava ao seu lugar.

Eu, como todas as crianças do bairro tinha muito medo dele. Ele olhava para a gente com cara de que entendia nosso pensamento. Os olhos pequenos de um castanho penetrante, colocava medo em qualquer um. Seus pensamentos sempre distantes não deixavam penetrar naqueles olhos.

Um dia, junto com outras crianças fomos mexer com Zé. Como ele nunca se mexia não vi riscos. Descemos o morro da minha rua, Ari Barroso, passamos em frente a seu Mané do carvão e chegamos a toca de Zé. Começamos a gritar “Zé Ruido mamadeira, pega um bode na carreira. Zé Ruido mamadeira, pega um bode na carreira…”. Ele levantou-se, olhou pra gente. Foi a primeira vez que vi aquele olhar congelado e assustador, pegou uma pedra grande e jogou em nossa direção.

Corremos, ele correu atrás com um pau, quanto mais a gente corria mais ele corria, entrei de porta a dentro na casa de dona Juraci ele entrou junto. Pensei: vou morrer agora. Dona Juraci veio até a sala. “O que foi Zé?” Ele olhou para ela, deu um passo atrás, baixou a Cabeça. Ela disse: “Quer biscoito”. Ele acenou com a cabeça que sim.

Eu ainda viva observando aquilo. Ela pegou um pacote de pão dormido da mesa e uns biscoitos, botou num saco de papel e disse: “Mais tarde vou deixar uma sopinha para você”. Ele olhou para ela. Com respeito mostrou os dentes escuros como se encenasse um sorri
so que não houve. Virou, saiu da casa soltou o pau na rua e provavelmente voltou ao seu lugar.

Dona Juraci, que me conhecia, me mandou sentar no seu sofá macio, tudo na casa dela cheirava, as plantas. A cozinha, onde tudo era coberto com paninhos muito bem engomados (com ferro de passar de carvão, devido não ter energia na época). Ela me deu um copo de água e disse. Você mexeu com ele? Fiz com a cabeça que sim. Ela disse: “Não faça mais isso. Essas pessoas vieram ao mundo com um propósito. Tornar a gente pessoas melhores. Vamos fazer um acordo, a partir de agora você nunca mais mexe com ele e eu não conto nada disso para sua mãe. Eu, envergonhada, triste, assustada e principalmente cansada da carreira só acenei que sim. Ela falou: “Isso é um acordo, você tem que falar! Você promete?” Eu, dessa vez, falei em voz alta “prometo”.

Nunca mais mexi com ele. Cresci o vendo caminhar na rua quando embriagado; pular Carnaval talvez sem nem entender muito bem o que era, mais acompanhava a festa com seus passos tristes e seu olhar perdido, talvez apenas pela bebida gratuita.

Zé, foi morto, por um cara lá do bairro. Ninguém entendeu, ficamos todos órfãos daquela figura. Naquela manhã, Mãe Luiza chorou. O bairro inteiro ficou de luto, todos se perguntando “Como assim?”, “Deve ser mentira!”. Não era.

Foi enterrado pela comunidade. Mas, continua vivo nos nossos corações.


Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

A melhor e mais difícil irmã



Hoje eu aqui sentada de frente a janela do posto de enfermagem, vi uma nuvem bem densa, no formato de um elefante e fiquei aqui imersa em minha tristeza, lembrando minha irmã que morreu a apenas um ano. Ela amava olhar nuvens e ver os formatos que elas podem ter.

Às vezes ficávamos, quando criança, na frente de casa, deitadas na calçada, olhando nuvens, vendo elas se transformarem nas mais diversas figuras. 

Ela ficava ali falando e dizia que aquela nuvem era dela. Então falava “ela parece uma flor grande linda”, “olha mudou agora, parece uma borboleta com asas pontudas”, “vixe, agora mudou de novo parece um casal dançando, como você vai dançar com seu namorado, quando crescer”.


Eu ficava brava dizendo que não ia ter namorado e ela ria de mim.

- Sônia e o namorado dançando!

Hoje, depois de ver o elefante nuvem se desfazer, percebo que ele se transformou num lindo coração nuvem, talvez tenha sido apenas uma mensagem que minha linda irmã mandou do céu pra mim.


Arte e revisão textual: Lula Borges

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Lavando roupa na Praia do Pinto


Na sexta, a noite ainda, se ouvia o burburinho das senhoras. BORA LAVAR ROUPA NA PRAIA. Vixe, pronto, agora as crianças não tinham paz, vou levar uma bola! Vou levar um isopor! Vou de calção (naquela época não se usava a palavra short). A gente se organizava como uma grande brincadeira, mas não era. A comunidade não tinha água encanada para todos. A maioria da população ia até o chafariz para buscar água para beber e fazer as principais necessidades de uma casa. Lavar roupa estava em último plano.

Nos juntavamos de manhã ainda madrugada, cada mulher tinha pelo menos 5 filhos ou netos, botavam a roupa suja em bacias de alumínio bem areadas e as enrolavam num lençol e desciam o morro. Saíamos em procissão, as crianças pequenas como eu eram encarregadas de levar o sabão e a Marilena (água sanitária). Os outros cada um uma sacola de roupa suja e os brinquedos que se resumiam a bola furada, pedaços de isopor para boiar e baladeiras (estilingues) para atirar pedras em lagartixa. Como divertimento, nós crianças, descíamos o morro da cruz bolando, depois subíamos de novo até as senhoras chegarem. Seguíamos a caminhada até a praia do pinto, que ficava bem mais distante que o morro em si.

Quando chegávamos elas faziam cada uma a sua cacimba ou faziam uma das grandes e as crianças ficavam encarregadas de trazer água doce (Apesar de ser na praia, cerca de 5 a 10 metros do limite, na areia, pode-se achar água doce, ao cavar um poço, ou cacimba). O barulho era inconfundível elas esfregando as roupas parecia uma sinfonia: jogavam água, passavam sabão, batiam na roupa, depois iam repetindo até formar um monte de roupa. E pegue a gente a botar água. Dona Benedita, avó do meu amigo, Ricardo (buiu) era a mais velha e fazia questão de botar as roupas para quarar, enquanto isso todos aproveitavam para tomar banho, sem a preocupação de que horas iríamos voltar pra casa.

Lá pras 10 horas era servido um lanche. Em geral as roupas já estavam lavadas, então era esperar secar. Os lanches eram em geral, rapadura, brote, broa de coco, goiabada e bolacha seca. Tudo delicioso. Cada uma levava um pouco e dava pra gente comer tudo e depois ir jogar bola. Eu nunca. Preferia ficar nos poços (entre as pedras) olhando os peixinhos e siris. Mamae, dizia “ela é doentinha por isso é assim, diferente”.

As mulheres areavam suas bacias de alumínio com areia e sabão e deixavam ao sol secando. Todas ficavam brilhando, como espelhos entre a grama, a areia e o mar.

Areavam também a gente, usavam até caco de telha para nos deixar limpinhos. Sabão e caco de telha. Chega a gente brilhava. Quando dava uma hora da tarde, as roupas estavam secas e cheirosas. Eram dobradas, colocadas uma a uma nas bacias, dessa vez elas não faziam uma trouxa, pois queriam exibir suas bacias areadas, faziam uma rodia, uma a uma eram colocadas na cabeças delas. A gente desfazia a cacimba de água doce e subia morro a cima. Cansados, com fome, queimados do sol, felizes. Alguns não tinham chinelo e o outro emprestava os seus até os pés começarem a queimar e as veias serem exibidas. Com suas bacias de alumínio na cabeça sem as segurar, dava uma postura e um rebolado, sem falar no cheiro. Tudo estava limpo inclusive nossas almas de criança.

Poucas pessoas hoje imaginam o que é pobreza. Segundo a Wikipedia, pobreza pode ser entendida em vários sentidos, principalmente: Carência real; tipicamente envolvendo as necessidades da vida cotidiana como alimentação, vestuário, alojamento e cuidados de saúde. Pobreza neste sentido pode ser entendida como a carência de bens e serviços essenciais. No entanto, mesmo não se tendo o suficiente para viver, se consegue viver com honestidade e felicidade. O que para muitos, que tem tudo essas duas últimas coisas é impossível.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

A casa do Padre Sabino

Padre Sabino Gentille

Vou falar um pouco sobre a casa mais bonita que já entrei em toda minha vida, espero não decepcionar vocês com uma história sem graça; mas, não posso mentir enquanto escrevo, dá muito trabalho, depois tem que desfazer tudo de novo.

Um dia ao sair da aula eu, minha irmã e Aparecida (Fernandes), resolvemos fazer uma visita ao padre Sabino, era o padre do nosso bairro. Era lindo e, como todo homem lindo era muito fora dos padrões de um homem lindo, não muito alto, gordo, sorriso fácil, tinha um barrigão, as mãos eram amarelas de tanto fumar. Vivia preocupado com a comunidade. Isso o fez ir embora mais cedo das nossas vidas.

Ele morava numa casa confortável no pé do morro da rua Ari Barroso. A casa parecia aquelas casas da marinha. Branca, muro baixo, garagem... Decidimos passar por lá pois estávamos encenando uma peça ainda lembro o nome: Pai Francisco e irmã Clara. Chegamos, chamamos, ele veio, “como vocês estão suadas” (a escola ficava a uns 5 quilômetros de casa e íamos a pé, dinheiro para ônibus era coisa de rico). “Entrem”. Tínhamos entre 13 e 16 anos ele pediu para irmos pela cozinha pois a mulher estava limpando a sala. Ele perguntou: vocês já almoçaram?

Respondemos que não, ele foi para cozinha, tirou carne moída da geladeira, perguntou a Aparecida se ela sabia fazer um arroz, ela disse que sim, refogou o alho, jogou o arroz dentro enquanto isso ele ia cortando a verdura pra carne botou tudo na panela e retirou uma espécie de salada diferente que eu nunca tinha visto com umas coisas doces e outras salgadas. Em 15 minutos o almoço estava pronto a mulher que lavou depois a garagem foi embora. Ficamos lá sentadas em uma mesa chique com pratos de vidro, incomum em casa de pobre. Se comia na lata de goiabada ou no prato de ágata ou plástico. Me deram um garfo e uma faca para comer. Eu não fazia ideia de como se comia com aquilo.

Peguei o garfo fiz de conta que era uma colher quando ia pegando ele disse: lavou a mão? Eu era a única que não tinha me envolvido no preparo da comida, por isso não havia lavado a mão. Ele disse onde ficava o banheiro, eu fui e ao abrir a porta me deparei com o banheiro mais lindo que já tinha visto. Era todo branco menos o Box que era em L, tinha um vaso sanitário limpo, tinha um vidro que hj eu sei que se chama basculante. Tudo no lugar. Toalhinhas para enxugar as mãos depois de lavar. Deu vontade de fazer xixi, mas fiquei com medo de sujar aquele banheiro tão lindo.

Aquilo me abriu os olhos de um jeito que eu tinha ido ao banheiro no automático. Não tinha visto a casa ao meu redor, ao sair do banheiro agora de mão limpa e seca olhei para a sala, tinha uma estante de madeira escura com muitos livros. Ia do chão ao teto de livros. Um sofá lindo marrom, com mesinhas nas laterais com muitos cinzeiros cada um mais lindo que o outro. Não lembro de cortinas ou de móveis de decoração era uma casa sóbria, masculina, com piso de madeira como era comum na Itália de onde o padre tinha vindo. Fiquei ali paralisada tentando decorar cada cantinho para depois quem sabe sonhar com algo tão lindo quanto os quadros e as obras sacras que decoração aquele ambiente.

Voltei para mesa, a conversa sobre a peça já estava bem avançada, eu ali encantada ainda com tudo aquilo, peguei meu garfo e fui “pra guerra!”. Confesso. Não gostei muito da salada até hoje não gosto de pepino e picles, nem conhecia essas coisas. Comi tudo “estava uma delícia”, eu disse principalmente a carne moída. Não lembro das decisões tomada para a peça. Mas lembro do cheiro do banheiro. Depois fomos embora, Padre Sabino ficou lavando a louça.

Antes de sair não me contive e perguntei. “Padre o senhor já leu aqueles livros tudinho?”. Ele riu e disse já sim, falta só um em português que ainda não consegui traduzir direito. Sai mais
confusa do que estava. Como assim os outros dos outros países ele leu, um em português ele está tendo dificuldade. Eu hein? …

Dali para casa era mais 1 quilômetro e durante todo o percurso só se falou na forma como eu peguei o garfo. Eu dizia que eu lá sabia que tinha um jeito certo pra segurar. Nunca esqueci daquela casa.
Nunca esqueci daquela casa dos cheiros, do acolhimento, da comida feita na hora. Hoje mesmo ele sendo uma estrela grande e risonha, só tenho a agradecer-lhe por ter me recebido naquele dia.

Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...